Saturday, September 15, 2012

E na manhã de terça, 11, Setembro, 2012


XARÁ

Leiria, manhã de terça-feira, 11 de Setembro de 2012

– A imaginação dispara logo.

É a frase que ouço três mesas além. Dois cavalheiros limpos que conversam, um de pé, sentado o mais velho. À despedida, o da frase disparada chama Daniel ao outro. O homem da Rita é Daniel também. E quando fui buscar café ao balcão, a Rita assim para uma Lena:

– Então e o teu Daniel ’tá bom?

E a tal Lena:

– Lá vai andando. Atão e o teu?

De modo que me sinto xará de cavalheiros com quem não trato verbalmente, à excepção do gentil e discreto marido da Rita.
A manhã por ela mesma é todavia o meu assunto. Vai por enquanto fresca, a undécima deste Setembro (39 anos do golpe CIA-Pinochet em Santiago do Chile; e que se lixem as Twin Towers de há onze). Daqui a pouco vou comprar um lápis, acção que me agrada muito (mas tanto) há mais de quarenta anos. A loja a que vou é servida por uma jovem senhora: bonita, muito bonita, bem nascida de formas e dicção, roupinha tratada, uma quase timidez de água quase verde subida aos olhos. Quando há mais fregueses, toco os cadernos expostos, desejando tê-los já escrito a todos. Não sei que espécie de cadernos os outros Daniéis do bairro escreverão com que espécie de lápis. Alguns serão, mesmo que não de papel e sentada literatura como a minha. Serão ou não, não sei, como serão ou não nossos netos os filhos dos filhos a que chamamos nossos.
(Casas, casais, quintas, quintais: vejo e passo, sem abrir os olhos nem sair do sítio. Pratico a vida como a uma espécie de sono.)

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