Thursday, September 06, 2012

Rosário Breve n.º 273 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Leiria, manhã de segunda-feira, 3 de Setembro de 2012



O morto de Ourém vezes dez milhões

Um vento de incêndios faz do Sol destes dias uma espécie maligna de rosa encarnada, violácea, lúgubre, tóxica. O ar é cor-de-sirene, enquanto a ansiedade colectiva corresponde ao sequestro das cinzas. Um morto em Ourém.
Locais de trabalho, casas, animais: tudo carbonizado na embriaguez ígnea das penúltimas manchas florestais deste País já ardido na economia, já carbónico no desemprego, já requentado na justiça, já esturricado na corrupção.
Às cidades vem chegando a revoada de neve-cinza dos lugarejos sem escola, sem médico de família, sem tribunal, sem GNR e sem futuro. Bombeiros praticam o heroísmo possível. O nó de angústia das gargantas é agravado pelo pigarrear acre que tanto resulta do ódio ao furtivo incendiário inimputável como à suspeita de tanto helicóptero prontinho a alugar a peso de ouro nestas impensáveis mas certinhas ocorrências.
Por outro lado, ninguém no Inverno roça sequer o mato de ao pé da porta. Também ninguém se lembra de que, entre um reles submarino para o almirante-marujo e uma frota de camiões-tanques pelo mesmo preço para o bombeiral, não era preciso vir o Diabo para escolher. Há anos de mais que ando prègando no deserto a (para mim) evidente urgência de se alimentar a tropa com o orçamento dos bombeiros e vice-versa. Qual quê: às peitaças medalhadas por nada a cada 10 de Junho, o milhão; e à honesta farda cor-de-fogo dos bombeiros, o tostão. É por isso que o morto de Ourém deve ser multiplicado por dez milhões: porque todos ficamos a arder com a criminosa insensatez da errónea distribuição de recursos que, provindo de todos, só a uns poucos serve de ração.
Sei do que estou a falar. Tanto o sei, que me não apoquenta nem uma sombra de cabelo a eventual indignação patrioteira e pesporrenta de uma cambada de inúteis que por aí andam fardados colegiando nacionalismos de alfarroba seca.
Não se pode pedir a um bombeiro, voluntário ou não, que se transcenda mais do que aquilo que já se transcende. Também é mais do que altura que as corporações locais deixem de ser dirigidas pelos compadrios empreiteiróides da useira e vezeira baixa política paroquial. Conheço-os a todos tão bem: ao esforçado e anónimo bombeiro, como ao pato-bravo presidente de tudo e mais alguma coisa, dos humanitários ao clube da bola, do grupo de pesca & caça à fábrica da igreja, do colégio à confraria do figo remeloso.
Sim, o morto de Ourém não estava sozinho quando, tentando proteger o seu ganha-pão, se viu sem pão e sem vida.
O único paradoxo que nos falta alumiar, por assim dizer, é este: como é que uma democracia que não vale um fósforo consegue arder tanto, tão depressa e tão, vamos lá, sem uma chapada de água fria no focinho? Ou, vá lá, em dez milhões de focinhos? 

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