Thursday, September 27, 2012

Agora à tarde, há bocadito


DO ATLETISMO SEM MESTRE

Leiria, tarde de quinta-feira, 27 de Setembro de 2012

Propicio-me a loucura mansa e amestrada: coleccionando alfabetos-topónimos, pensando-sendo-sentindo-indo uma Inglaterra-que-já-não-há, esbracejando sal & lodo entre Dover e Calais, o índex esquerdo anilhado de matrimonial soci’ansi’e’dade.
Ouço-me dizer, sem abrir a boca, ist’assim:

– Tanto foste, que não volto.

Agora-hoje-como-ontem é não poder ser,
nem por cinco segundos-décadas,
um pouco Ian Ogilvy,
um nadinha Roger Moore.

A minha obra literária
parece-se às vezes de mais
com a vida
sobretudo quando a vida
é como a tarde a seguir
a se ter almoçado bacalhau
por demais salgado
que é quando a vida e a obra
fazem sede e se faz(em) tarde.

Não sei quantos de nós sofrem(os)
(mas nós – quantos uns somos
um a um a nenhum?)
desse cansaço sem atletismo
de estar vivo só porque sim
ou
pior ainda
então
por que
não

então então então tanto

fomos
que não
voltamos

correr corremos
’té que estejamos
sem sermos
senão ermos.

Como dar um saco de bolos ao pensamento
e uma malga de chá aos sentimentos
que
por plurais
não valem um:

assim é a minha alegada obra supostamente literária
assim a minha vida provavelmente mais vivida
que viva
assim o meu atletismo
sem mestre
nem estro
sem mastro
nem astro.

Acendo o cigarro
apaga-se a tarde
vai acontecer chuva não tarda
não tarda água arde
na ponta do cigarro
é já o ar da cor do tabaco apagado
vai-se embora a D.ª Lena
(15h34m)
fica-se a D.ª Rita sua filha
gosto muito de acender lume quando chove ou quase
acho que toda a gente gosta
mesmo a que não fuma.

Agora tenho de ir ali a comprar-me um caderno
talvez um lápis também embora tenha muitos
por estrear
luxos simples de quem tão pouco quer
que quase nada lhe parece o dobro
de quanto precisa.

(E agora: um restolho de folhas térreas,
dá-se a chuva, já corre a brisa.)

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