Friday, May 06, 2011

ROSÁRIO DE ISABEL E DINIS seguido de OUTRAS FLORAÇÕES POR ESCRITO - 26 (fragmento 3 e conclusão) - Leiria e Coimbra, quarta-feira, 27 de Abril de 2011


Entre cidades, entre dias: como se eu fora
a noite ambulante que a tudo une e separa.
Na senda de quanto nada me dá e tudo tira
em agastada, da vida e da morte, usura.
Como se eu fora, ’inda, indo, estante em espera clara.

*

Mínimo frémito, euforia mínima: chegada a Coimbra. Em trânsito, a consciência que me usa em natalidade recorrente. Há quantos dias eu não respirava o ar do meu berço. Um pouco de terra com uma laranjeira e um poço e um cão e um lar de lenha viva: quanto queria. Se vieres de Leiria ’inda um dia, diz alguma coisa. Assim faço.

*

No céu de Bencanta, palavra de honra, dois milhafres e dois aviões-a-jacto.

*

O Mondego: faca deitada, rugosa esmeralda, via-veia-viva.

*

A meros onze dias de completar 47 anos de idade, tenho razão sentindo-me o mais velho dos homens, dada a primeira evidência que me a/o/corre à chegada a Coimbra, esta: os meus Pais já me não esperam nem em casa nem por estas ruas. Dormem ambos o sono mineral chamado Morte. Não me esperam: não ligam a velhos.
Mas na rua das sapatarias assisto a um lance sem adjectivos: o cego pedinte (Tenham a caridade de auxiliar o cèguinho, senhores!) de há tantos anos é presente; a uns quinze metros dele (mesmo à minha beira), uma velhota sustém o passo, abre a carteira, saca dela o porta-moedas. Percebo de imediato que ela prepara a esmola-dádiva (dá-vida). Assim é: à passagem pelo profissional, ela deixa duas moedas no prato. Ao som do níquel, o cego agradece por Deus. Estou parado a ver a cena em frente à Sapataria Paiva. Não sou cego.

*

Olho as árvores do Parque: ofereço-lhes mais folhas, as deste caderno. Tenho pena de a vida ser tão bonita por causa delas. A tristeza é mais literária do que o contentamento – e eu sou por instantes contente na finalidade da manhã (é meio-dia e dezasseis).

*

Quantas decisões aguardam ainda a força (a r-existência) do meu coração? Os duros tempos da selvajaria financeira do ultracapitalismo vergastam a natural bonomia da condição portuguesa. “Natural” – escrevi. Escrevo também, todavia, acéfala, resignada, murcha, passiva. Escrevo a verdade, portanto.

*

Considero pertinente a observação gráfica dos arredores do (m)eu-corpo: o homem lavado limpamente almoçando seu bacalhau solitário; a cozinheira que lhe espreita a satisfação do janelo-postigo da cozinha; o velho que empunha o Diário de Coimbra como um estandarte católico-republicano (paradoxo portuguesíssimo, este que consagra o mútuo repúdio/casamento amotinados da Rotunda x padralhada / 1910-Outubro-5); o tropel de gazelas encalmadas das mulheres ao sol.

*

As mulheres que andam à vida
não comem as laranjas das laranjeiras da Avenida.
Amargas, todas elas, querida, todas elas.
E todas amarelas.

*

As minhas ex-mulheres sabem quase todas
como entender-se com ex-homens como eu
de outras ex-mulheres como elas.
E todas amarelas.

*

A Democracia Local consiste, genericamente,
em filhos-da-puta eleitos, basicamente,
por uma filha-da-puta de gente.

*

A expressão do meu amor tinge panos os mais sensíveis, ainda hoje telefonei à menos jovem das minhas filhas – e eu parecia o meu Pai, que está morto, falando-lhe a ela, que está viva.
O meu amor também usa sedas orientais e outras têxteis relíquias que tais, mas o que dizer verdadeiramente pretendo, querida, passa menos pela minha vida do que pela absoluta – e sem contingentes reservas – correcção gramatical: e tudo isto em Português de Portugal.
A impressão da minha dor finge danos os mais puníveis, linda, hoje não telefonei à mais jovem das minhas filhas
etc.

*

Voem os pássaros verdadeiramente,
que a minha verdade deles voará
quanto hei sido e tido e quanto há
entre quem sou, tive e haverá.

1 comment:

Filipe said...

'Gosto Muito'. Abc