Tuesday, May 29, 2012

Ligação à Medusa - 62 (conclusão)


© DA, Leiria, 30 de Abril de 2012




62. NA ÚLTIMA TENDA – 25 QUADRAS IMPOPULARES

Leiria, quarta-feira, 7 de Dezembro de 2011

Homizia-me a memória em corpo-ausente,
torvelinha de pássaros a espiral de labaredas,
há muito me entreguei à vitoriosa perdição
no meu país de conchas vazias naturalmente.

*

A tarde assenta na última tenda.
Parecemos perdidos no laranjal escuro já da luz.
Uma mulher ama um homem e diz-lho e cora.
O homem recolhe as máquinas da noite, pede-lhe água.

*

Sou o que vai morrer em cada amigo doente.
Penso em cada um, penso nas ruas sem ele.
Não inquiro da mariposa a eternidade de quatro dias.
No café as coisas são mais simples, as vidas dançam.

*

Ínclita perfeição orla de branc’azul a barca dos anos.
Vi duas fotografias com o último encontro de três irmãos.
Todos mortos já, ainda porém conversando-se.
Na concha da minha mão o sal da garrafa que os saúda.

*

Um engenho de madeira para águas e farinhas.
Uma laranjeira fronteiriça do Tempo e do Nada.
A vida geométrica dos patos à flor do Lis.
A minha família calada olhando o descer da vela.

*

O sufrágio irrepreensível do matadouro.
A euforia sangrenta da maternidade.
O idioma do ouro.
O relâmpago da idade.

*

Tenho-lhes um amor sem declínio de postigo.
Sou para sempre o infante que os vê passar.
Um dia levam-me e eu não volto.
Uma garrafa e um pouco de pão municiam a espera.

*

A glória de certas pessoas: cabra alta em penhasco.
A bondade de outras: linho lavado em mesa de castanho.
A lareira que outras são: emissoras da palavra precisa.
Todas as que vieram ao funeral da minha Mãe.

*

Um homem ama uma mulher mas não lho diz ainda.
Em Coimbra, a Vila Marini não me vê já passar.
E no entanto as minhas idades são por lá pedra.
Chorar sisudamente é de homem.

*

Jornais motivam recolhas de sangue e medula.
A empregada da papelaria suspira por um camionista.
Jardins japoneses noruegam-se todos à primeira neve.
Viúvas de soldadinhos esperam a última nave.

*

H. Silva Letra, de Vieira de Leiria, 1927.
Raul Brandão e a mulher ao lume em silêncio.
Teixeira de Pascoaes, a montanha.
E Raul Brandão, o mar sozinho.

*

E Wenceslau de Moraes, o cais.
E Camilo Pessanha, o linho.
E António Nobre, a gravata.
E José Afonso, o candeeiro.

*

Uma pouca de maresia no frontispício da respiração.
O ribeiro gerando azenhas (mas interrompo a quadra
por causa do Gabriel, um pequenino mui pequenino
que veio ver que raio de coisa fazia eu, escrevendo ou quê).

*

A vida ainda parece senhora de ser por vezes boa.
Dei um rebuçado, um lápis e um papel ao Gabriel:
três venenos dulcíssimos.
Ele sorri com o corpo todo: desenhei-lhe dois cães.

*

Uma luz celeste picota diamante alienígena.
Carlos V (I de Espanha) era de 1500, já lá vai.
Cometidos são a esta hora crimes imundos.
E mundos novos abrem os nascimentos, os óbitos.

*

Enseadas e ansiedades e enteadas e entidades.
O chinquilho e o junquilho e o pão e o peão.
Orlas e borlas e baías e baias.
Éguas e águas e a série e o assírio.

*

Que uma trovoada de zângãos fervilhe o meu sangue
na hora de me reapossar de ti, caída a manhã.
Que o nosso estremeção-amor de motel beirão
perfume de mancúspias o asfalto dos longes.

*

Uma ínsua húmida coroe o delta do teu nome,
minha querida, antes de nos abstermos de tropelias mais.
Comunicarei às autoridades a tua deserção de minhas agonias,
assim como formularei queixa contra ti e descendente(u)s.

*

Ao bar da noite acodem já as tremendas borboletas douradas
do comércio de avinhados leites e outros fulgores.
Uma espécie de paz nimba o balcão: santidade
do barman, esse apóstata do útero da mãe.

*

Fui dela por umas horas mas paguei o táxi.
Ela levou que contar à sua tertúlia de café-coiffeur.
Eu lavei-me em casa quase minuciosamente.
Telefonei a um amigo, jantámos em silêncio.

*

Por minhas vísceras que te amo de língua.
A morfologia de um sorriso assenta na pobreza.
A pérola chamusca os baldios brancos circunvizinhos.
A prisão está repleta de sacerdotes da lentidão.

*

Agora a noite toma seu cálice furtivo.
Num bosque, sem telefone nem alternativa, seríamos felizes.
Toma, fica com este dinheiro para o táxi,
eu vou ver se me encontro com uma azenha.

*

A esperança é a pachacha húmida dos incautos.
Paris não é uma festa, é uma trabalheira.
Eu podia voltar a trabalhar na construção civil, houvera-a.
Um semestre na Argentina, outro na Noruega.

*

Nasceu uma filha a um casal amigo,
telefonaram-me logo para aconselhamento,
disse-lhes que não podia, que já não sabia
que fazer de tão pouca tinta e nenhum papel.



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