Friday, May 11, 2012

Ligação à Medusa - 39 (integral)


© DA, Leiria, 7 de Maio de 2012



39. FALA O ORGANISTA


Leiria, segunda-feira, 31 de Outubro de 2011

Levi Malho:

Entretanto, as vidas humanas silenciosamente passam, as pessoas vivem e morrem, amam e sofrem.

*

A minha antropologia é tão urdume e tão prosa quanto as outras (quase) todas. Há decerto relâmpagos poéticos – para quê negá-lo? Partilho textos com as pessoas, verbais sobretudo. Levo-lhes o meu corpo e levo-lhes sinais do que (se) passa nele e com ele. Sei bem que isto até pode não ser tão interessante quanto parece. Mas insisto sempre, resisto sempre.
Frequento assiduamente determinado estabelecimento de café & licores. Tratam-me lá pelo nome próprio. Há um velho de ar vicioso que anda sempre a cravar cigarros. Também há mulheres. Algumas são de uma beleza discreta mas chamativa. Aforro essas visões. Consulto o jornal do dia. Leio umas coisas filosóficas num antigo manual escolar de boa qualidade. Julgo entender algumas coisas. Não sou um herói.
Ligo-me à medusa. Tomo a minha bebida, versilibro-me. Ensaio muito a arte descritiva: porque quero viver musical-cenograficamente. Quando visito os cemitérios, recolho o silêncio clamoroso da pedra. Talvez eu seja um artista. Como todos os outros – um artista.
Revivo anos que não vivi. Escuto homens e mulheres mortos antes da minha vi(n)da. Nevões longínquos em remotas regiões fazem-me cismar. Sim, cismo bastante: talvez por ser velho desde menino. Aquele homem coçando distraidamente as costas. Camisola cinzenta de tecido fino. Seremos todos cantoneiros de nossos mesmos lixos, um dia. Não seremos?
Singro grafismos como se os sangrara. Recolho as esfinges pelas ruas. Banhei-me em rios muito solitários. Às seis da manhã, a pressão do silêncio reverberando na cabeça. Se não um sentido, ao menos uma orientação para a vida.
Um doutor de 93 anos fuma um Português Suave sem pressa. Uma telenovela (estúpida como todas, sem quase) arde de cor no televisor. É por uma tarde parda. Isto é o século XXI. Isto é a eternidade possível: a eternitarde portuguesa de uma segunda-feira terminal de Outubro.

*

Os cães faziam existir o pátio e a infância.
Era quando vi que nascer era acordar.
As estações despertavam no monte como festivais.
A figueira da Carmo nunca falhava um figo.

Um pouco de leite pingando açúcar: o mamilo amado.
O olhar do cão: a lealdade toda água-luz.
As mãos do Pai: ramos da árvore inicial.
As mãos da Mãe: economia, pão, aroma, sal.

Uma paz nos desça à terra imemorial, entre faias.
Que o nosso sono possa ser filarmónico.
Eu era dos meus cães como se um deles.
As estações viviam de nós, atentos e abrigados.

Que o nosso amor sofra de ter sido puro.
Que esta mulher diga deste homem: é meu, sou-lhe.
Que tal homem se reconheça em tal verso.
Que as pessoas sejam cães e infantis e (f)estivais.

*

Sou o organista de igreja do templo que me és.
Misturar-nos-emos de acordo com os preceitos da lei.
A infância é o maior futuro: um gato sabe-o.
Venho do lado das sombras, dar-me-ás (a, à) luz.

*

Torno à tremenda beleza do mar quando outono.
Falo com a minha mulher puerilmente.
Faço-me cliente da garrafeira dos dias.
Também os mais alvos dentes trincam merda.

*

O dia é vasto como um papel em branco.
As noites dos maus casamentos escrevem traições.
Utensílios de barro ligam-nos à Pré-História.
Quantos não somos práticas funerárias em vida? 

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