Thursday, May 17, 2012

Rosário Breve n.º 259 - in O RIBATEJO de 17 de Maio de 2012 - www.oribatejo.pt


Cartas da Nascente

O passo dado para trás já não interessa. Conta, mas não interessa. Só o desconhecido é interessante. Veja-se este homem descendo a nascente pelo centro exacto do leito. O vento dá-lhe cotoveladas de vidro, que ele recebe sem ofensa nem registo. A água vai bebendo a luz para ter o que dar de beber às sombras crescentes em torno.
É um homem com um saco descendo a nascente. Ele não tem frio. Um pouco de pressa, talvez, mas não frio. O saco tem três cartas por abrir. Nenhum dos envelopes tem o destinatário escrito. O que interessa é o que está dentro, não o que fica fora.
Entre a folhagem que ladeia a carreira, pequenos animais conspiram a existência. Deus conhece cada um deles. Nenhum deles reconhece Deus. Isso não ocupa nem preocupa o homem do saco, que segue a sua vida como se a vida dele fosse à frente. À frente e para baixo.
Surgem já as casas da última povoação deste mundo. Foram construídas sem ajuda de máquinas. Mãos e braços empilharam ossos e pedras, barro e cal, vidro e telha. As casas tornaram-se definitivas. Purificaram o frio e resistiram ao calor. São três casas, tantas quantas as cartas no saco.
Ninguém está dentro da primeira casa. O homem escolhe a primeira carta, baixa-se para a porta, aponta a carta ao espaço entre a porta e o chão do degrau. Sozinha, a carta entra, aspirada pela respiração solitária do vazio.
Ninguém dentro da segunda casa – e tudo acontece de novo. O homem, a carta, a recepção mágica. A primeira carta já não interessa, a segunda também não. O homem reergue-se, passa à terceira carta, à terceira casa.
Há duas crianças à porta da terceira casa. A porta está fechada nas costas das duas crianças. São duas meninas. Estão vestidas de branco. À cintura, usam uma faixa grená de que pendem dois coelhos mortos, um por cada menina. O cabelo delas é negro. Mas sobre as fontes é branco. E as mãos delas são enrugadas e agudas e vermelhas como pés de pombas.
Agora, o homem está parado de frente para as duas velhas meninas. Não lhe é possível baixar-se perante a porta, tal que a casa vazia possa aspirar a carta. Entre o homem com a carta e a casa sem gente estão as duas crianças antigas. Ninguém fala. Os três ouvem.
Não há mais casas. Não há mais cartas. Não há mais homens. Não há mais meninas. Três casas. Três cartas. Um homem. Duas velhas. A nascente não passa daqui. Não se pode voltar para trás.
As cartas são escritas para ninguém. Trazem palavras dentro, mas não há leitura. Noutro mundo que não este, talvez a correspondência seja possível. Mas outro mundo implica outra nascente e outro nascimento. E isso interessa, mas já não conta.




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