Friday, May 25, 2012

Ligação à Medusa – trechos das entradas 50-51-55-56-57 e 58, respectivamente correspondentes aos dias 22, 23, 28, 29 e 30 de Novembro de 2011


© L.S. LOWRY
Coming from the Mill


(…)

Isto de viver, não parece mas é
maravilhoso, é. Como não s’ria
estar vivo em sequência duma história
insana, humana, d’homem c’uma mulher?

Rosa-se um lume ali de pederneira,
ali arde a lareira do nosso lar.
Lá frio faz o fora, à maneira
de consolações que ficaram por dar.

Toma e respira-o, este é o meu corpo.
É tudo quanto sou, mais o caderno.
Uma soma de nada, concerteza.

Corpo: cor do pó, pó do corpo-a-corpo.
Entrudo do que estou em pleno inverno,
deixa tome lugar à tua mesa.

(…)

Caminhos de cabras humílimos na alba fria,
vidraças adamascadas da respiração dos mortos,
coisas que a polícia jamais conseguiria
escrever por dextras linhas e advérbios tortos;

lances de pura fruta no Algarve, fresca a vida,
retorno pela cálida Évora em pleno Agosto;
o tempero com o cru alho da batata cozida
e o outono da vida a contragosto.

As bolachitas idas comprar à senhora Luísa.
(De que precisa o Menino, de que precisa?)
E aquele seu/teu ar de buganvília.

– Daquelas bolachas, minha Senhora, sô Luísa.
Ele nem sabe que lhas levo, nem precisa.
Sou eu dele a família – e Lucília.

(…)

Sulquei as noites de Lisboa mercê de uma solidão à bolina.
O poderoso Rio fazia-se Mar à vista pânica.
Muito pedestrei eu por aquela antiguidade toda.
Mas era o regresso a Coimbra o que me (co)movia.

Estes tantos anos depois, ainda enxugo nos ossos esse frio.
Falo da desertificação humana da grande metrópole.
O que cirandei, está cirandado: sem dor nem alegria.
É um tempo arquivado: pronto para o bolor.

*

Que crimes ocorrem onde neste instante? –
à sombra mo pergunto eu do sol novembrino.
Acontece todo ao tempo mesmo um dia bonito,
a Cidade pasta a ração de luz que lhe coube em sorte.

Águas frescas revoluteiam sem cárcere pela terra,
os animais inclúem as gentes em sua inocência.
É bom estar vivo na contemporaneidade dos jardins,
ver as senhoras que passam ao destino da hora.

Sem pressa ou lentidão, a vida presta-se fiança.
Figuras de pedra referenciam a presença humana.
Quem de casa casaco trouxe, agora o tira,
à passagem pela praça encalmada de pombas.

Pórticos e umbrais encerram frescas as sombras
que o corpo de luz saturado vem pedir às portas
como um pobre, que o é deveras.
Uma mulher grande e harmoniosa passa além,

dela o porte é de uma autoridade de égua saciada.
Deste lado, plantas bem tratadas miram a verde o céu azul.
Aqui, nem outro crime nem qualquer inocência
que a de existir tão pouco, tanto resistindo embora.

Púberes gargalhadas realejam de banda do jardim,
cães pianolam suas árias por áreas deles só.
Isto era o futuro: um presente estancado pela Língua,
pela Norma, pelo Castelo e pelo Lis.

E o instante chega a parecer-se com ser feliz.

(…)

(Coisas que só posso ter se as escrever:)

Um rio só de pássaros, fazendo-se água o vento.
Algumas mulheres entre campos grande e pequeno.
Uns poucos instantes entre pessoas boas para sempre.
A monarquia do coração mais absolutistas sem dor.

Um cálice de âmbar sustendo um fruto líquido.
A tundra do desejo tocada a taigas voluptuosas.
Uma braçada de rosas.
E um viver não tão parênteses de si mesmo.

Uma gramática corada como uma rapariga sã.
O refresco da hospedaria branca a meão deserto.
A língua adoçada pela fidelidade dos cães.
E uma campânula de cristal para guardar versos.

*

Este é o jogo, todo o lado é dele salão: ser vivo.
Os falatórios envolvem as pessoas todas entre grades.
O arcabuzeiro e o nefelibata contam no rol.
O bufarinheiro e o da oficin’auto também.
O doentinho da tísica e a mulher astrofísica também.
Este é o jogo, ser e estar vivo é jogar.
Entendo isto como negociação entre volúpia e necessidades.
Ter prazer sempre não pode ser.
Perceber a insolência da matéria não pode ser.
Os rit(m)os fazem parte, mas são apenas fraquezas.
A força reside na força, não na farsa.
Não é lídimo ignorar as apreensões do Luís.
Não é curial amanhecer na vã esperança.
Chamo-me Isaías Meira, vivi 44 anos.
Acabo de morrer num despiste-auto.
Eu ia no lugar-do-morto.
Em Subportela (Viana do Castelo).
Sou um homem de 36 anos, morri de mota.
Em Maçã (Sesimbra).
Ou sou outro homem de outros 26 anos de outra mota.
No Cabo da Roca (Sintra).
Ou tenho masculinos e pistoleiros 60 anos:
encarcerado na viatura, recebo a tiros os bombeiros.
Em São Bartolomeu de Messines (Silves).
Sou um velho de não contados anos.
Estou trucidado pelo Alfa Pendular.
Na Póvoa de Santa Iria (Vila Franca de Xira).
Sou um homem de 45 anos.
Colheu-me o InterCidades.
Em (Estarreja).
Sou a soprano Montserrat Figueras.
Era (sê-lo-ei ainda?) a mulher de Jordi Savall.
Morro a 22 de Novembro de 2011.
Não sou Herbert Cukurs.
Não sou Jack the Ripper.
Não sou Francis Tumblety.
Não sou Mary Pearcey.
Sou o da nódoa já seca de sopa no peito da camisola.
Não toco nos Mott the Hoople.
Não sou Dave Essex.
Não sou Ken Booth.
Não sou Mary Cassatt.
Sou um dos cinco feridos do despiste da EN 232.
Em Cativelos (Gouveia), Portugal outra vez.
Sou um dos frangos carbonizados no incêndio do aviário.
Em Lamas (Cadaval).
Sou o gajo de 41 anos que morre em queda de escadas.
Na festa que houve em (Marco de Canaveses).
Não sou o dono do BMW ardido em particular garagem.
Em Fraião (Braga).
Não sou o cozinheiro que cozinhava na cozinha ardida.
Em um restaurante de Massarelos (Porto).
Não sou um dos jovens que treinavam no campo.
Nem sou um dos ladrões dos cabos em cobre.
Não contribuí para o apagão da Associação Juvenil.
Em Nespereira (Guimarães).
Não sou a defunta avó do neto que subornou o coveiro.
Os meus ossos não foram confundidos burocraticamente.
Não ainda.
Não estou, não ainda, trocado de ossário.
Percebo que o meu eventual neto subornasse.
O coveiro.
Por cem euros.
Em Alverca.
Chamo-me Dolores da Rocha, tenho 71 anos.
Em o espaço-tempo de um ano, duas vezes assaltada em casa.
Da primeira vez, o meu marido estava.
Estava e tinha.
Caçadeira.
Game Over, portanto.
Da segunda, não estava.
Voltaram-me os mesmos: duas mulheres e um homem.
Se assim lhe(s) posso chamar.
Em Paços de Gaiolo (Marco de Canaveses).
Sou Vítor Moreira, tenho 43 anos e ferimentos ligeiros.
A minha Nissan 5metrou-s’abaixo uma ravina.
No Freixo de Baixo (Amarante).
Chamo-me e não me sei.
Sou um dos quatro feridos graves do choque frontal.
Entre ligeiro e carrinha de caix’ aberta.
Em Ventoselo (Mogadouro).
Morávamos no barracão que nos era casa.
Ardeu todo, não sabem porquê nem por quem.
Na Fonte Santa (que é da freguesia de Évora de Alcobaça, Alcobaça).
Sou um dos engenhosos e de desonesto estudo.
Assaltamos residências estudadas.
Na mesma rua onde dorme o primeiro-ministro.
Não deixamos sinais de arrombamento.
À saída, deixamos tudo no-trinco-num-brinco.
Somos poetas: conhecemos a(s) rotina(s).
Em Milharada (Massamá, Sintra).
Sou do Peso da Régua, o meu município
substitui árvores.
Este é o meu País, joga comigo a ele, vem.

(…)

Ninguém vai querer saber se és uma repórter
no jogo-grande-da-jornada do país-fluvial.
Nem se do carro tens problemas no cárter.
Nem se és nada em Portugal.

Toda a lusa pessoa é aliás nada em Portugal.

*

Um toque de etérea seda toca a senhora em sono.
O sono é seda; a intimidade, muita, que a tange.
O mor do amor da vida é ser’estar longe.
Um tom de sede-bronze toca a seda em sino.

Dorme em branco, a repousada. Não a virão
buscar, não já este verão ou em outro.
A égua dorme sonhando o garanhão.
Casa(la)mento anterior fê-la dar potro.

Ó triste seda-sede-sono-sina de descasalados!
Ó impropéria interjeição a mais ditonga!
Isto é festim de espigos escamisados!
Isto é – só pode ser – cerveja da Vialonga!

Mas ela dorme. Inerme, lh’a derme quási soluça.
Schiu! Fora ’stá frio. Ninguém fale! Ninguém tussa!

*

Aos pós-cinquentões proporcionam agora
passeios mui pedonais por campos fora.
A um desses aderi em um domingo branco,
a que fui de sapatilhas (embora manco).

Vinha-se d’além Ribeira de Santo Amaro,
claro era o domingo, claro e preclaro.
Par da senhora eu era, inscrito e pago:
e isto digo em rima, é do não ser gago.

Passandámos. Ribeira ao lado. Fresco tule.
Ao alto, o campanário céu em seda azul.
Cuidado, que sexagenários tropeções!
Cuidado, que sonetos são 14imaginações!

Deram-nos almoço. Trataram-nos bem.
Só mui gostara ter a isto trazido a minha Mãe.

*

Não se pode pedir, pedinte não se pode ser.
Há uma fracção de segundo instauradora do futuro.
O duro é tudo tanto se parecer
com o que ser podia – sim, isso é duro.

(…)

 Comprei ontem duas embalagens de tinta-permanente para a caneta que me deu, há já uns anos bons, a rapariga Feliciano.
Sou feliz – cadernos a estalar de novos, o perfume profuso do papel, a invencível beleza do lápis, a esperança das marcas, o optimismo das tintas, os livros de colorir, as afiadeiras, a bonomia gorducha e mordível das borrachas, os aparatos técnicos para arquitectos & projectistas, os posters do Che & dos Pink Floyd ao vivo, as largas resmas das cartolinas, as cigarreiras de prata & âmbar, as canecas garridas como mulheres do Minho, os estiradores meditabundos, os candeeiros direccionais para escrivaninha, os maços de tabaco muito arrumadinhos como soldados em parada de Juramento-da-Bandeira, os cachimbos de Magritte & Maigret, as robustas caixas com robustos maços de papel A4, a alegria apopléctica do papel colorido (açafrão, pimenta, galáxia, castanho-António-Sérgio, azul-Raul-Brandão, amarelo-canário, verde-palmeira, cinzento-coelho, encarnado-touro).
Sim, sou feliz nas papelarias. Dura pouco, como toda a felicidade – mais a mais, em ano de morte de Mãe.

(…)



Converso-te devagar à beira-Rio, eu sozinho,
coisas que de casa trago sonhadas e maldormidas.
Assisto à geografia nacional, que é bonita
como uma noiva bem entregue a seu rapaz.

Converto-te, também, ao maná da terra humana
cujos cavadores são seminais como grandes poetas.
Assim procedo mercê de versos, esses meus filhos
tintos ao papel da minha vida atirados.

Estive um ano e tal sozinho em Coimbra.
Vivia num quarto, esperava a morte da Mãe.
Tudo chega – e nada é bastante.
A morte dela chegou, entreguei o quarto à senhoria.

Não te já firo nem prefiro, profiro-te sim tão-só.
Tão só eu era nesse ano outonal de Coimbra,
que os pássaros municipais me suspeitavam
o ázimo pão dos meus cadernos-em-passos.

Perambulei muito, terminal muito, esse ano e pico.
Voei depois para estoutro êxodo diásporo.
Nada espero no outono da minha vida
senão dizer-te, rio, à beira-Devagar.

(…)

Rostro dizia, por rosto, mestre Fernão Lopes.
Tenho defronte os papéis que dele ele nos legou.
Afortunada herança, a nossa, que dele.
O povo às vezes povo, populaça outras.

É uma das minhas medusas, tal mestre.
Bernardim, outra. Correia Garção. Filinto
Elísio. Rodrigues Lobo. Roiz de Castelo, João,
Branco. Codax, Martim. E Raul Brandão.

Moira, por morra, dava presente conjuntivo
o mestre Fernão. Não, Fernão não: Fersim.
Cronista invencível, que Maria Ema
Tarracha Ferreira, aliás, designou merecedor

do mais franco e insuspeito elogio oriundo
de um tal &ncerto poeta inglês, Southey,
que recito:
“the best cronicler of any age or nation”.

Uma massa-de-frango, um arroz-de-ervilhas.
Um suave tango. Um telefonema para as filhas.
Um arrebol pacífico, um mero eucaliptal.
E uma asa-de-asa, céus de Portugal.

Fernão, não. Sim-sim.

(…)

Melhores dias não virão talvez
salvar-nos da carestia anunciada
de de borla morrer e de viver pra nada
a meio da graciosa desgraça do português

como este-aquele ali, que pelas esplanadas
pedincha o cêntimo para a sopa, o tostão pró-pão,
por sua alma de cristão que é para pão,
pela pobreza da minha roupa que é prá-sopa,

isto não é que me comova mas amargura-me,
mais de meia população vive do ar, que não da terra,
o resto vai a pé a Fátima ver a boneca, cura-me,
ó Virgem de louça, da cegueira que nos aterra,

não, melhores dias não virão,
sabeis,
mas não tarda será Verão,
vereis.

*

Cresceram duas mãos de homem
ao cabo dos meus braços de menino:
vou para velho, não mais já jovem
– dizem que é fado, que é destino.

*

Estou aqui sentado entretido a ser português
ao sol morno e manso qual leão saciado.
Eu já nunca mais para sempre vivo outra vez,
é melhor portanto curtir o banco encontrado.

*

Acaba-se-nos hoje o mês
O primeiro Novembro a seguir à vida
da minha Mãe
Não é fácil nem tenro nem terno
ser um órfão descriado à beira
do Inverno.

(…)

(Algumas Verdades antes de Partirmos:)

Um dos mais nobres e humildes e vivos seres do Mediterrâneo é a Oliveira.
A terra resiste à nossa vida e vive da nossa morte.
A morte e o nascimento são poliglotas – a vida, não. A vida não – por ser uma palavra só de uma língua apenas. A vida é a única coisa que podemos obstar à morte. A vida é para reiterar a terra.

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