Saturday, May 19, 2012

Ligação à Medusa - 45 (integral)


45. CIBERNÉTICO

Leiria, sábado, 12 de Novembro de 2011

O despertar é uma cibernética.
O corpo ainda ali está vivo, afinal.
Os filmes disparam de imediato na câmara.
A câmara filtra o livor (o livro) da alva.
Os móveis estalidam seus ossos enxutos já de resina.
Os retratos cerram os olhos, que toda a noite vigiaram o Adormecido.
A flor, grisalha de sede, pede água de cor: dá-se-lha em mercurial conto.
Confronto do Adormecido com sua intimidade: humilde, rendido combate.

Só um pouco mais tarde, no Café da Rita, a contemporaneidade arreganha as fuças: o jornal com os crimes, a velha viúva que fala com o cão como falava com o seu amado defunto, a fria e obtusa e estúpida omnipresença do televisor sintonizado na paroquiana venalidade de Portugal, a divorciada de madeixas cor-de-lata-de-atum-por-dentro que lacra as unhas de roxo-à-Senhor-dos-Passos, a pasmaceira metafísica do desempregado-benfica-sporting-porto, as cadeiras de alumínio que parecem esqueletos sentados, um caixeiro reformado que indignadamente profere o primeiro foda-se público em quarenta e seis anos de uma vida-de-trabalho, a brasileira telemobilista varejando o ar de epígrafes de telenovela, a pandórica profusão dos crimes do jornal, a saber, vandalismos em cemitérios, furtos, violações rurais, rixas de bairro social, ganga de gangs, escravatura apanha-morangos Celorico-da-Beira-Espanha, pedofilias em família e fora dela, assassínios conjugais – ex-conjugais – e derivados, corrupção por adjudicação de ajuste directo, fraudes fiduciárias, resguardo e porte vaginal de droga em visitas prisionais, atropelamentos de infantes e de geronto-seres em passadeiras, despedimentos colectivos ao arrepio da lei laboral, habilitações académicas mais postiças do que o sorriso do Papa, filosofias francesas para-inglês-ver, futebóleo, tristíssimos corrupios da pública gestão, hospitais psiquiátricos públicos para erecção de condomínios privadíssimos, rios de suinícola asfixia, taxação-zero das macrofortunas patrimoniais, desumanização do investimento e investimento na desumanização, (cobrança automática nas portagens, caixas automáticas nos hipermercados), estrangulamento da agricultura, esgana epitelial das pescas, angolização da Madeira, moçambicação dos Açores e timorlestização do Continente, paneleiros cor-de-rosa de braço-dado a têvêputas cor-de-açafrão, mas o despertar é uma cibernética, pelo que

Por uma mordaça de açucenas te sou verbal gladíolo, minha querida, hoje que já não chove – ou não ainda.
Por toda a casa se cultiva o tugúrio do pão e dos versos.
Na rua, um cão dourado fareja a castanha anal de outro, que espera, em alardo o mais continente, o fim da surtida.
Sou feliz assim, minha querida.

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