Saturday, May 19, 2012

Ligação à Medusa - 46 - ONTOFANIA DOS TANTOS ONTENS - Leiria, domingo, 13 de Novembro de 2011 (alguns trechos)


Um fervor de pássaros orquideando os ares: a chuva.
A caspa dos anjos pelas ruas da amargura: o granizo.
Os casais fricativos fazendo-se filhos: os êmbolos.
Um tesouro derramado que ninguém demanda: o Outono.
A mão do velho: a luva.
A covardia obrigatória: o juízo.
Os ajuizados: os trémulos.
A diária morte: o sono.

*

Ao frio dos domingos coalham os gestos.
Só o antigamente é real por vezes.
Vozes espadanam barbatanas acústicas no éter.
E a devastação sideral nem sempre é consolo.
*

POEMA DE ALGUM VOCABULÁRIO
DE
FERNÃO LOPES
COLIGIDO E EXPLICADO POR
MARIA EMA TARRACHA FERREIRA

Acordo lembrança em ideia,
se a fundo abaixo por baixo.
Avisado sabedor,
azo ocasião por causa de esmo orientação.

Asinha balasarte, depressa espécie de cutelo,
apraza caça barvacã muro fora das muralhas
e mais baixo do que elas.
Carracom carracão antigo e de longo curso
navio cata busca cobro querelando-se da mercê.

À angustura, dita danosa áscuma,
a dona empacha o departido.
E o fruito muito, fruto de estonces,
fiúza não folga em toda guisa.

Lavrador de Vénus amavioso,
porque (si, prougue) toste talante e fremoso.
Ousio queda. Bever, bebe.
É o abastante.

*

Aqui somos pois profanamente
como toda a gente.
Ganhar-se um tostão e perder-se irremediavelmente
como toda a gente.

(Gostaria, por vezes, de não pensar no pensar.
De, atirada a água à linha, não morar no peixe.)

Como toda a gente.

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