Saturday, April 28, 2012

Ligação à Medusa - 36 (integral)


© DA, 6 de Abril de 2012



36. AS EVIDÊNCIAS

Leiria e Pombal, quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

Vinha pela Rua de S. Francisco a considerar a evidência de toda a gente acabar por se fundir nas consequências das escolhas que fez. Ou seja: que toda a gente acaba por acabar. Havia nisto, é claro, um torrão mínimo de amargura, como a da pedra de sal que se põe sob a língua para obstar ao tremor nervoso das pálpebras.
Na Rua da Rodoviária, era aceitável outra evidência, precisamente a de pensar tanto em evidências sem saber nem por nem para quê.
Subido à colina, o Castelo parecia um leão pacato com janelas. Mas não eram janelas, aqueles olhos que um remo(r)to arquitecto medieval abrira.
Perto do Jardim-Parque, contentava usufruir da frescura solar da manhã de Outubro. Agosto fora frio e agreste; Setembro, abrasador; e a primeira quinzena de Outubro batera recordes de temperatura com muitas décadas. A meteorologia certinha da infância tinha acabado para sempre. E isso era também a pedrita de sal sublingual.
Uma das esplanadas da Praça do Pastor Peregrino serviria para esperar. A carreira para Sicó mais próxima estava marcada para as 12h15m. Nada a fazer senão esperar – e esperar era também uma escolha, uma consequência, uma coisa em que se acaba por, não que se acaba de.
Um casal de adolescentes tardios pastava coca-colas na mesa em frente. Ela, com uma t-shirt em inglês; ele, com a nuca muito rapada. Um reformado de sapatilhas passou com um saco de plástico cujas bossas deixavam perceber a presença de uma lata de salsichas, do Borda d’Água para o ano seguinte (se o houvesse, para ele como para toda a gente), de uma embalagem de vinho branco de cozinha e de uma escova para sapatos: despojos pobres, outonais, sem esperança nem remédio.
A hora remanescente vinha e ia-se devagar, mas não sem a qualidade voraz de todas as horas de todas as vidas, sobretudo das que escaparam já à eternidade insolúvel da mocidade.
A ex-adolescente que falava inglês com as mamas abriu um portátil, digitou a senha da rede social e entrou nesse paraíso artificial deste tempo. O da nuca glabra bocejava ante uma revista de actividades ditas radicais.
Não era fácil e nada parecia difícil. Era um escoamento colectivo (outra evidência.)
A praça tinha árvores sem um rastilho de pássaros. E faltavam vinte minutos para a carreira – e isto era tudo quanto podia contar-se com. Só vinte minutos? Ou ainda vinte minutos?
Da Sé, o som éreo e aéreo e venerando, que não venéreo, dos sinos veio pautar a letargia quase aldeã da cidade de partida. Não são todas de partida, as cidades? Considerar isto em trânsito, a bordo já do autocarro, parecia possível e, até, quase útil – só que poucas das coisas possíveis são úteis, tal como poucas das úteis são possíveis.
Óculos no sítio certo da cabeça, cigarro na mão correcta (a esquerda), camisola sem nada para se ler e as praças e as ruas e a estrada e as aldeias esforçando-se por ser legíveis.

As florestas têm uma qualidade geológica: talvez porque as árvores queiram vir a ser pedra, não cinza. De modo que as cidades são talvez florestas que finalmente lograram ser pedra, antes de acabarem, como tudo e como a gente, por ser cinza.

(NB: estas linhas de ontem – entrada 36 – decidiram adquirir autonomia, pelo que passarão a integrar um caderno à parte, intitulado – talvez – AS EVIDÊNCIAS LEGENDADAS.)

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