Tuesday, April 10, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 25 (um fragmento mais)



Às 15h08m, o mundo parece não poder suportar muito mais este Verão tardio e insensato. O Setembro já vai a dois terços, mas cabe-lhe prosseguir a compensação do défice estival que o Agosto foi. As velhas mulheres de arredores (Colmeias, Olival, Barosa, Parceiros, Santa Catarina da Serra) respiram pelas rugas como os peixes pelas guelras. Revestidas de pobres chitas, elas chinelam como cágados anacrónicos pela modernidade espúria da velha Leiria. Não é que isto (o calor quieto) dê vontade de morrer – mas de viver também não dá por aqui aquém. Os gordos sofrem mais. Um deles, perto de uma estátua, parece outra – mas feita de banha-sabão, não de bronze ou mármore. Tenho pena dele enquanto chego à próxima linha, por onde evoluem já três adolescentes (duas e um) chalrando entre si num idioma esfarrapado de barbarismos fast-food-rave-up-ó-foda-se. Isto vai sendo assim – até que o rosal de um par de mamas me oferece a visão de um cacho de pérolas de suor: pertence a uma moça de blusa verde com deflagrações a lilás-castanho. As mamas entram nos Correios, derivo eu, por andas, para outras bandas. A tal procedendo, dou de caras com a gravidez descomunal de uma senhora que promete (ou ameaça) repovoar o mundo com uma rósea ninhada pecuária de leitõezinhos pediátricos. E eu, que há muito não sou já de me impressionar muito – eu fico impressionado ante tão generoso e tão repleto bandulho decerto incensado a marradas de piça. Mas, congelado de caloraça o mundo, nada pára e tudo freme: ali, um centro pentecostal avizinha um armazém de hipercostal (assembleias de Deus e embalagens de pescada); acolá, um bancário de fato completo (com colete) fuma a cigarrilha que decerto lhe sobrou do baptizado do filho mais novo, domingo passado (primeiro que tem desta terceira mulher, educadora de infância num aviário puericultor perto do quartel); mais além, um cacto estiola ao pé de gaiola-canário sem canário; meu peito a baixo, uma harpa transpiratória demolha a camiseta de algodão azul-claro. Amáveis, imóveis, os comerciantes envelhecem ao balcão-contador da retrosaria, da botica, da confeitaria, da churrasqueira, da perfumaria, da bilheteira, da livraria que não vende os meus livros porque o livreiro não é parvo. Uma faneca morena de vinte-seis anos torra deliciada a boca numa chávena de café com nata gelada. Usa mãos de boas unhas a que o verniz não acode, a higiene sim. Recolho o tabuleiro vertical (o corpo com seus ossos e seus olhos) a um estabelecimento refrescado pela vacuidade. Um escrivão notarial pastilha o comigo o ócio desta ilha. Recebemos depois a chegada da jangada merendeira: três funcionárias do tribunal debicam brisas-do-Lis com empurrõezinhos de chá. Uma delas é muito morena e muito bonita. Caminha como se rondasse um altar. Quase asiático, o debrum dos olhos dela é de um grão escuro que clareia o ar da respiração. Uniu o cabelo com uma fita elástica cor-de-rosa-branca. Os dois brincos de ouro não valem em quilate o preço das orelhas de que pingam. A boca é portuguesa e sã como um fruto capaz de morder. Nisto, dão as quatro da tarde.

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