Friday, April 27, 2012

Ligação à Medusa - 34 (integral)


34. O CREME COMPENSA E OUTROS RETRATOS DA MOR INOCÊNCIA

Leiria, quinta-feira, 13 de Outubro de 2011

Tem um barrigão de santorro de pagode, aquele cheio-de-sono inocente e tumefacto que vem ao meu café (o da Rosa) bocejar as primícias da tarde. Não o condeno: ardem 35°C no Verão de Outubro. Ele não consegue suster o fechamento das pálpebras, que lhe devem pesar quilos e quilos de sombra. Divirto-me na observação dele. Ao nível do ventre, a camisa racha um delta de pêlos. Relógio grosso a norte da patorra esquerda. Barba escassa e esparsa num carão vermelhusco, a que a vinhaça plasma florões rubicundos. Incompreensível flanela de calças, ao tempo que vibra calorão. Parece um menino idoso feito de banha-sabão. Cordas espessas de espesso suor parabrisam-lhe as fontes da cabeça, que parece mumificada em redundante nanismo, atida a jucunda bojura da pança. Suspeito-o empilhador de feijoadas as mais lípidas, escorridos a sebo o unhum de porco e a hematológica chouriceira. Roliço como uma ôlha de azeite: ou uma epopeia de farinheiras: ou uma rotunda de entremeadas as mais toucinhas. Cabeceia como uma pomba sem inconsciente nem arrelia. Obeso como uma brotoeja de sapatos. Gordo como um cu de solteirona. Mas também: inocente, pueril, simpático – e alheio como um soneto finlandês. Superintendem duas bolsas de pâté branco sob os olhinhos cerdos. Colosso de roda-baixa, calça napa recheada de peúgas de fibras electrochulèzeira. Coça o traseiro tão sem pudor quão com a unhaca amarela do mínimo, que espeta no ar quando semiacorda para diagonalizar a ingestão brutal de uma mini mais. A sesta dele substancia a minha alegriazita gráfica de cada dia. Gosto dele. Gosto até da mãe dele, que teve uma porca com a mesma naturalidade de o ter a ele.

*

Uma mulher sonha com o homem que eu deveria ter sido.
A tecnologia desse meu presente alternativo não encontra nem alvará nem patente no futuro que me veio ver passar.
Ela é toda uma arquitectura de leite, se bem me lembro ou se mais bem invento.
Ela morde a própria língua, que além de portuguesa é como quando a rosa se apura rubi grená.
As mamitas dela seivam duas bagas mui morangas, cuja recordação me citrina o paladar e o verso.
A framboesa escura de seu dela delta é um vértice tónico cuja irrecusabilidade me içou, outrora, a mais rija admoestação fálica.
Recordo, soldado-da-paz, o incêndio fulvíssimo da sua cabeleira leonina, onde a própria alma era o primeiro combustível.
Quando acorda, ela interdita a secreta circunstância de nós-dois-em-um-resto-zero: e trata da cria e do marido com a amável compostura dos remorsos saciados.

*

Isto não é um auto-retrato, é um homem de cu assentado em cinzas próprias.
Sou de uma mulher que dela se tornou hino nacional, de modo que cada comum pernoita se nos torna o mais brioso juramento de bandeira.
Cinzas próprias, quando cadaverizo tanta palha e tanto amor de sardinheiras-ao-balcão.
Ela sabe que isto acontece muito-me às quintas-feiras, quando se oceaniza o entardenoitecer do sal dela à saída do trabalho.
O talco pulveriza a neve frágil do perfume dela, sempre que a grafo com este lápis mesmo.
Claro que isto é um caso sério.
As pessoas existem mesmo, derredor?
Ela diz que sim: porque não faz versos e porque os ca(u)sa.

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