Sunday, April 15, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 29 (conclusão)



Odete e Ângela se chamam as chefes excursionistas que ao café da Rosa vêm adentrando a comitiva. Vêm do sul da Nação. Comem brisas-do-Lis (noventa cada uma, cinco e vinte-cinco a meia-dúzia), bebem quartilhos-minerais de água-pedra. Garruços de renda, as mulheres; em cabelo os homens. Gente madura cuja navegação na idade é já pós-bojadora. Casais avindos no comércio mútuo de tantas décadas comuns. Gente que não é, como eu não sou, de Leiria no meu sábado leiriense, no sábado leiriense do meu futuro. Eles, de uma nobreza que as rugas sublinham e reiteram; elas, mais moças sempre (milagre simples do passeio), algaraviando latins mui feminis, adoçadas pela licença precária do lar terminal. (Quem me dera fosse a minha Mãe uma delas – e que me visse escrevendo-a, como sempre.)

*

Recatado mundo me chega, sombrinho,
da babilónia breve do em-volta:
Tu também vais morrer, gato-cãozinho.
E vou – aquiesço –, mas vou sem escolta.

*

Um toque de quase-nada-ar na face brunida,
um áureo rubro de sangue tocado a verbo.
O fulgor da frase vinda tornando verso
a própria vida, acredita, a própria vida.

*

Gastava como quem os tinha os dias móveis
e dele era pertença o ser das coisas.
Usurário de suas praças da cidade a que pertencia
desde o exacto seu primeiro mesmo dia, ele
gastava como móvel os dias dia a dia.
Refreava-o a noite âmbula. Ele sustinha
(como aliás convém) a respiração, tocando urtigas.
Tinha a quem telefonar, pessoas amigas, tinha
quartilhos-minerais de água-pedra,
o futuro muito lhe vinha do ido que medra,
que merda.
Oferecia sem cessar delicadezas, que o timbre
do Outono reiterava.
Era de instantes-gelo quando queimava
retratos-naperons caganitados pelos ratos
da Cas’antiga.
A gentileza pessoal era, também, a primeira
de suas sombras: como activos sonhos que se (me)
confirmam
– e infr’assinam.

*
(Canção para a Leonor, de que ela partiu para compor peça para piano e voz:)

VIRTUOSA BORBOLETA

Virtuosa borboleta
adeja pó, pura cor.
E derredor a praceta
of’rece ao céu seu fulgor.

Tu nunca mais digas tudo
se nada queres dizer.
Eu ’inda e, contudo,
dizer não digo, vais ver.

Virtuosa borboleta
que vive da cor no ar.
Em derredor a praceta,
volta ao futuro a voar.

Volta ao futuro a voar,
como eu volto a ti.
Nada a dizer, a falar,
sete por oito, dó-ré-mi.

Um sonho manso desperta
memórias e sensações.
Sou uma cidade aberta,
sem janelas nem portões.

De estrelas os altos campos
em meus olhos brilham p’ra ti.
Borboletas, pirilampos,
seis por oito, dó-ré-mi.

Volta ao futuro a voar,
como eu volto a ti.
Nada a dizer, a falar,
sete por oito, dó-ré-mi.

*

Vivo de pequenas maravilhas como um
serralheiro de peças infinitesimais,
graçasadeus.
Reconheço na singularidade, a cósmica,
a massa densíssima sem espaço
ou tempo.
Graçasadeus e à minha pobreza cerebral.
(Da sumária Suméria,
a Anatólia
não vinga o cardo-cravo,
longeva idade.
Mas diz quem sabe – e por agravo –
que se calhar foi mesmo assim,
olhódiabe.)

*

Duas ou três divisões da casa são já imprestáveis,
ela ainda pensou arrendar o quarto a uma estudante,
isto, mesmo em Coimbra, nem era pelo dinheiro,
era só para haver rumor em casa ainda,
nem velho-irmão-marido,
como quando ao tempo do filho, lembras-te?,
amor-de-mãe-angola-sessent&sete.

*

Devolvo a atenção aos meus objectos.
Já amei eu bem gatos – e, mais, sou cão.
Logo eu, que conheço homens obsoletos
e mulheres que não vingam sem senão.

Muito estremunho eu a minha zona:
derredor bem eu busco a redenção.
No Bairr’Alto, Lisboa, ’tapé-na-cona
é bebida de grande afamação.

*

Disponho há muitos anos de outra vida
tão primária afinal como a primeira.
Isto de a gente ser, tem por saída
a vida, a vida ávida e viveira.

*

Declarou-se terminal a um Amigo meu uma doença.
Eu espero essa notícia desde que todos nascemos.
Apareceu-me como uma iluminura, como quem pensa
antes da idade de pensar na idade que nos vivemos.

O meu Amigo vai naturalmente morrer mas a gente
vai à vida naturalmente porque o natural da vida
é a gente ir à vida como se fôramos gente para sempre.
Só que não posso interferir na vida estacionadamente,
o hospital do meu Amigo é uma avenida.

A gente chega uma idade de trás-p’rà-frente
em que à própria neta, sobreviva,
lhe/nos basta ser nascida para a gente
dizer à vida: Viva! Viva!

(Mas no porão do barco, sombrios fundos
nos lembram que passam os futuros: e as vidas: e os mundos.)

*

Nunca duvidei do relatório do médico-legista.
Afinal, não o conheço, não sei se estudou bem,
como haveria ele de saber da vida dos outros

corpos?

*

– Não quero saber nada daquilo dos aros de alumínio –
disse-me ela, aqui há anos, em frente ao gordo das bifanas.
Agora já não é gordo, cirurgiou-se uma rolha gástrica, mas o casamento dela, enfim, foi como os meus.

– Eu digo que o meu Pai não era de barulhos à hora de jantar
disse-me ela, quando S. Pedro de Moel prometia berbigões frescos como as rosas.
E eu calo-me nos interstícios da minha família, que é gentil e velha.

Eu calo-me nos interstícios da minha família gentil & velha.
Eu sou de simpatias tantas, que nem sou eu.
Eu digo ao-lado-em-frente: não sou só eu.
NÃO SOU SÓ EU. NEM TODOS FORAM TU.

(A pessoa maltratada, feminina, reconhece,
a mínima ternura do corpo viril.
Quem é? Quem foi? Quem traz ou reconhece
Sargento-Mor, Adões, Fornos, Trouxemil?)

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