Thursday, April 12, 2012

Rosário Breve nº 254 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 12 de Abril de 2012



Três historietas sem moral especial

1. AS PASTELARIAS ESPACIAIS

As pastelarias da modernidade são máquinas espaciais.
Não se deve mexer nos comandos nem na tripulação – a caixa registadora, as empregadas.
Cada viajante deve embarcar sozinho e assim se manter todo o inverno da viagem.
O televisor assegura a anestesia da memória.
As manhãs do televisor são para as velhinhas.
O casal de apresentadoras, composto de uma mulher amarela e de um mulheromem, parece um par de catarinetas fermentadas.
As refeições servidas a bordo separam os blocos de sono.
As tardes têm cantores de pleibéque inodoro.
As noites dão crimes solúveis como café sintético.
Há bolos.

2. As Grandes Condições

A gente queixa-se do calor, mas bastam dois dias outoniços para que os subestados de alma aflorem à tona triste. Mal mimados pelo tempo, acondicionados pela meteorologia, vivemos pelo Boletim das dez horas. Os pessegueiros inflamados de sumo vivem de outra maneira, já que não dependem de um substrato lírico. As grandes condições (o rolo dos céus, o chumbo, a água pesada, a convalescença do sol, os eclipses invisíveis, os solstícios de ocasião, entre outras) gerem o pequeno homem e a mínima mulher.
O cão e o gato prosseguem, aparentemente incólumes.

3. Alguma Felicidade

O rapaz estava sentado ao balcão, luzes azuis radiografavam a natureza de couro dos sapatos, a ganga das pernas com suas tíbias. Alimentava-se do próprio entardecer, à hora a que os merceeiros despacham a frescura derradeira das últimas tangerinas. Era o entardecer, mas não, Deus, de domingo. O rapaz ouvia o grilo da caixa registadora, os pipis dos pequenos consumos das gentes que vêm entardecer ao bar.
Era a alguma felicidade do rapaz, a músic’ambiente inglesa, o azul nos joelhos portugueses sobre que, outrora, outras horas e outras mãos poisado haviam. O rapaz na luta pela vida, a que se garante de pronto ao primeiro berro obstetrício. Era o rapaz na função maravilhosa da felicidade.
Muito existia tudo em torno, dentro. Colecções de romances policiais, cadáveres ricos agora pobres de tão mortos em chãos de bibliotecas fornidas de clássicos ingleses e bandejas argênteas de whisky, soda e água cevada.
Muita televisão.
Pouca vida.
Tanta felicidade.

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