Sunday, April 22, 2012

Ligação à Medusa - 33 (integral)




33. OS HOMENS DA MINHA VIDA

Pombal, quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

Os homens da minha vida segregam
as vidas deles na ausência que os
faz frutificar longe do meu pátio chamado
quotidiano.
Alguns semelham cães magros vibrando
a harpa da chuva.
Outros carregam o piano perigoso
do pensamento sem quartel.
Os homens da minha vida nupciam
duras donzelas chamadas
Subsistência,
Paciência,
Abnegação,
Cervicalidade.
Mostrei a uma mulher amiga um
caderno juncado de fotografias dos
homens da minha vida.
Ela recebeu em silêncio os rostos
deles, que eram graves e formosos,
dessas formosura e gravidade
que só acontece ou nos grandes
desesperos ou nos maiores silêncios.
A minha vida também é feita
de homens cujo falar é fazer.
Eles concatenam o milagre da
respiração – e são aquela compressa
singularidade cósmica do Todo-o-
-Tempo-Total-em-Espaço.
Alguns dos homens da minha vida
são mulheres.
Cães & gatos, outros.
A minha vida também é Total.
(Às vezes, Pentotal, até.)
Ela não aliena: afasta-se muito,
mas nunca (se) alheia.
Há manhãs em que a minha vida
acorda sem passado.
Sem passado e sem homens.
Sem passado, sem homens e sem
mulheres.
É como se nascesse.
É como se nascesse em amnésia,
amnistia e anestesia, a minha vida.
É como se fosse deveras viver.
Eu tenho a mais subida consi-
deração pelos homens da minha
vida.
Eu pratico a mais sub-vida consi-
deração pelos homens da minha
subida.
Eu acordo no transe que dá trân-
sito rumos aos homens da minha
vida.
As maçãs são todas coração,
os homens da minha vida
também o são.
A quem não pareceu alguma vez
que as pêras são femininos
torsos sem cabeça, braços &
pernas?
Um arremedo de aves-céus
comove-me o suficiente para
recuperar os homens da minha
ávida vida.
É tudo tão outonal na minha
vida, pois não é?
Alguns dos homens da minha
vida despenharam-se lacteamente
em outros homens da minha
vida chamados mulheres, chama-
dos
Subsistência,
Sub-Existência,
Paciência,
Abnegação,
Cérvica-Uterinalidade.
Nasceram filhos, que agora
têm de repetir a poesia e
a canga dos impostos.
A vida dos homens da
minha vida vacila verde e
cinza, as coisas e as cores são
como as não esperamos.
Um dos homens da minha vida
vende jornais, outro escreve-os:
a rolha de cortiça balança
marés, isto acontece ao-virar-
-da-esquina-na-volta-do-
-canteiro.
Balcãs, cãs, cães & balcões: cervejeira-
mente cotejamos ser-opiniões.
É quase sempre pela tardinha,
esse diário outono da minha
vida e dos meus homens.
Esse quotidianoutono, esses
homens-me.
As mulheres que se tornaram
homens da minha vida
rimam flor-clarões-de-
-famílias com buganvílias.

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