Saturday, April 28, 2012

Ligação à Medusa - 35 (integral)


Berndnaut Smilde

Nimbus II

Cloud in Room
2012



35. AS HORAS

Leiria, segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Tenho por vezes horas substantivas como a
matéria animal dos seres que respiram.
Penso-as em forma de limbo.
Penso-me ébano-em-branco, durante elas.
Madeiro-as para revelar-me árvore.
Aprecio a voracidade infantil do mundo.

Já era para ter nascido de outra maneira.
Já era para ser-de-Florença em qualquer lado.
Um bosque em França, o rumor de um rio.
Um patriarca de gatas: tenho sido isso.
Sou da substância respiratória da luz: e
amável, amante e galante.

Toco a febra viva da mulher deitada.
A vida dela é uma coloratura sideral.
Leiria-se-me ora a vida – e sumptuoso
é o sentimento veríssimo que me enaltece
o estar ’inda vivo sempre que miro o mesmo Castelo,
à colina mor subido, que José Maria

Eça de Queiroz viu também (e) antes de nós.
Rapazes demoram o Verão-de-Outubro
ao pé da fonte de Porto Lameiro, entre
silhuetas-laranjeiras e cacos de cerâmica
fabricados por mãos hoje mortas, amanhã
não sei.

É uma gala, assistir à sombra silvestre
de qualquer das minhas filhas, nas horas.
Como elas derivam atlanticamente, Santo
Deus! Como ajuízam elas a gramática carnívora
que a elas mesmas me levou em láctea
instantânea entrega, Deus Santo!

Tenho por vezes mui substantiva pena de
não acreditar em Deus, meu Pai.
Senhoris rolas dão saúde aos beirais aldeãos.
Jornais forram gavetas-do-bacalhau.
Carpinteiros antigos como o senhor Arnaldo
Fonseca de Casais do Porto, Louriçal, ministram a seiva,

a vida das eiras: o milho, o porco, a mulher,
os filhos, as abóboras, os inocentes utensílios
que levam ao leite e ao vinho e às décadas
e a esta folha escritinta por um homem
triste e horário que os meus nome e rosto
usa.

Uma faca limpa eu usasse para (a)talhar
a puta da Morte: sabes, João.
Por Lisboa demandei as relojoarias vibráteis:
as putas comedidíssimas do Instituto
Superior Técnico, os garnizés navalhistas
da Estefânia, os adormecidos do Cemitério

dos Prazeres: sabes, Maria João.
Eu era para ter sido não apenas décadas,
mas algumas horas.
Clarões amarelos-palha de medas-mulheres
incensam de cor a salteada realidade,
acontece-me muito inscrevê-las sem sensatez

no usufruto da vida.
José Maria olhando o Castelo de Leiria,
José Maria vivo e Eça e de Queiroz.
Os seres filmando as ruas com os olhares
dos seres, das horas.
Os seres trazido-levados pelas horas,

pelo com que olham.
Eu queria apenas perfumar a nossa Língua
de coentros-sextilhas, sabes, Fernando.
Um restolho de cães-pátios, um ferro de sal,
uma torneira de brevidades, uma matricial
horda de medusas feitas da água dos olhos.

(E eu a escrever isto enquanto a vida
acontece ao lado, constipada e hirta
e relojoeira e grave como uma infantilidade:
sabe, Mãe,
sabe Deus.)

Filtros adequam a especiaria das águas
dos hortos que catolicamente resistem
aos incêndios mais fulvos e às sopas mais
das creches conventuais.
Eu digo ist’assim porquanto o posso:
e mais não digo.

*

A flor é uma frase perene.
Cada flor é uma declaração.
Ser teneb(rosa) límpido entre flores:
acho que também elas pensam.

Os vivos honram os mortos com elas.
Elas não têm culpa de cheirar a cemitério.
A gente quer saber se os mortos sonham.
As flores sonham.

As flores sonham com eles.
Os gestos dos mortos rispam a memória.
Escrevem-na inventadamente.
Estão evanescentemente na cor aluída das casas.

Não estou ’inda tão velho, que a maioria do
meu amor seja (amor)te. Pronto, sim,
é claro que ressinto e ressumo a calidez
pétrea de alguns amados, mas isto

curte-se com música e meia-colher
de açúcar nas ervilhas guisadas.
E um copo de qualquer coisa
Atlântica, na Figueira da Foz ou em Firenze.

As pessoas da arquitectura são todas músicas
da pedra.
Ou então é só porque gostam da alegria
da mulher, que cresce em seiva

sempre que lhe garantem uma maçã por
filha.
A mim, a quem já fizeram o mesmo,
isso é de uma naturalidade tremenda.

A flor é verso dito de c(ô)r.
O amor também é – e toda é dele
a terra: um pouco de adubo animal,
a vida não é mais do que uma hora
nem do que uma fl(ô)r.

*

(Maria da Graça também Queiroz:)

Ela nasceu do lado que mostra a lâmina viva do Rio.
Tinhas sardas logo de começo, o que acontece sempre que há reticências.
Ela sentia a mudança das estações como literatura viva: a elegia do Outono, a família do Inverno, o milagre da Primavera, o matrimónio do Verão, sendo ainda porém Primeiro-de-Maio-de-1971 embora.
Ela conserva as estantes verdes e os vinil-discos.
Ela conheceu a brutidade e a gentileza: e fez cartório da segunda.
Ela administra retábulos chamados filhos como se tivesse nascido para os nascer.
E nasceu.
(Também) Graça se chama – não é coincidência.

2 comments:

Anonymous said...

Na sexta estrofe há ou não uma gralha ("por vozes" - "por vezes")? De qualquer modo, tudo Excelente, como é aqui gloriosamente fatal.

JJC

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Era gralha, sim-senhor. Vozes por vezes. Merci, King.