Saturday, April 14, 2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 28 (integral)


© DA, Leiria, 5 de Abril de 2012





28. MAIS OBSCURO (CÓDIGO), MAIS CLARO (CÓDIGO)

Leiria, segunda-feira, 26 de Setembro de 2011


Ambiciono a nitidez mas codifico.
A vida, a vida é o que é, fico-não-fico.    
Assim:

Uma vereda de álamos prepara a subida.
A pessoa por ali se adentra, depois sobe.
Ratos da mourama e roedores cristãos por
aqui se empataram sangues à espadeirada
a mais religiosa.
À dextra periférica, o chão da feira popular.
À sinistra, o lote de asfalto das rodoviárias.

Ambiciono a subida mas arborifico.
A lida, a lida pé-ante-pé, vivifico.
A mim:

Em os palheiros de beira-mar, barcos de papel.
Ermidas oraculares oratoriam solidões de cal.
Muitos nasceram já que a vida não guardou.
Muitos morreram, já que a morte não poupou.                      
Claramente, os setembros como fósforos ardendo.

Ambiciono o mar mas arenizo.
A vida, a vida imprecisa o que é preciso.
Jasmim:

Raparigas com garrafas-termos de chá fresco,
crianças-bibes como borboletas litográficas,
o meu amor por estas coisas almanáquicas,
a rima, a prima, os óculos níveos de pó,
a mercearia, o dia, o fausto, um jardim
também fresco.

Mais obscuro, mais claro.
(E homens de despovoadas gengivas
pensando ’inda em touradas e raparigas.)

*

(Elementos para esta noite:)
Uma rapariga como um talo branco, esta noite.
A rede nervosa das circunvalações viárias, palpitantes.
As roupas das pessoas sendo-as em economia.
Casas mortas onde ora-mortos foram vivos e viveram.
Sono das esquadrilhas: dormem em recato os patos fluviais.
Duas mulheres maduras em pedestragem aeróbica, esta noite.
Evângelo, o Acrobata, em onanismo de vão de porta.
A borboleta do jornal secando no alfinete do olho leitor
(o juiz reformado ante o Diário de Notícias).
O fim do fim valorando o reinício, esta noite.
Acção animal em (a) beleza: açúcar e corrida.
E ser um corpo atenção adentro.
(Estes elementos ante-amanhã.)

*

Quero uma pedra a que possa chamar casa querida.
O desejo da palavra move-me: telefono; se puder, ouço.
Querida é desejada; alvor & limiar, essência & pertença.
Não se quer, porém, antes dela, a vida.
Porém, uma vez tida, quer-se à vida:
à Pedra.

*

Tantos milhões de anónimas ex-vidas recobertos
de mármores onomásticos sobre o peito, tantos.
Enquanto posso, nisso penso.
E enquanto penso, posso – e nada mais peço.

*

Um banho de prata lunar melhora as silhuetas.
Torna-as mais graves na solidão das cidades.         
Pessoas secretas são felizes: lêem mas não escrevem.
Como animais filigranáticos, gramáticos, argênteos:
essas pessoas do luar, mesmo ao pleno sol.

*

As grávidas, como pêssegos, engendrando mais &
mais caroços vivos, duros, futuros:
para isto.

*

A insuficiência moral dos animais humanos
nas freguesias requentadas a ígneo pinho:
mas também a beleza dos animais humanos
na romaria lanígera ao senhor-da-sé-à-
-senhora-dos-aflitos-pràs-mulheres-gasosas-
-pirolitos-pròs-humanos-copitos: mas também o fogo
muito vivo da pertença aos elementos e às
metástases e às sínteses e ao torrão-de-Alicante.

No comments: