Thursday, June 28, 2007

Tenho 22 Anos

Primeira comunhão em Juazeiro do Norte
Brasil, 1981
© Sebastião Salgado



No futuro, todos teremos passado.
De vez.

As enfermeiras entregam-nos às mães
dentro de tábuas de papelão.
Ominosas, as gajas.

Ama-me pelo lado contrário a quem sou.
Não pode ser, dizes?

Eu vi o teu peito branco na noite preta.
Tinha dois olhos cor-de-rosa.

O animal triste coita contra si mesmo.
É uma alegria.
Breve.

A mulher do outro não compra nada
que seja nosso.

Hás-de um dia estar no chão da cozinha
de tua Mãe – e só dois serem lá,
o chão da cozinha e tu.

Este é o pequeno tempo das grandes perdas.
Este é o grande tempo das pequenas merdas.

Ela tocou o cabelo do marido com a boca.
Eu estava no banco de trás e não esqueço.

O teu silêncio é tão ruidoso,
que ninguém te ouve.

O sol faz do teu coração uma caravela.
Não há mar, não há mar, não amar.

Todos teremos passado, alguma vez, na vida.
Mas nem todos a passámos.

O educado senhor veste quatro fatos pretos.
Fernando. António. Nogueira. Pessoa.

A guerra é sempre duas:
pátria e/ou colonial.

A boca ardida.
O coração queimado.
Dá-me lume.

Quem passou uma ponte de madeira sabe
que as pernas tristes não t(r)emem cair.

Tu e a tua sombra são
o par mais desavindo.

A criança é tocada pela loucura do amor.
Nunca recupera.

O amor não é o ser gordo com que se casa
para ter um apartamento
ou uma merda assim.

O amor só pode ser
o nosso pai mesmo
na outra mãe.

Aos 22 anos, a idade
tornou-se-me inumerável:
tenho 22 22 22 22 anos.

A morte é um braço dormente:
sente-se, não age.

Por que razão faz gente mal
a outra gente?
Por tudo ser gente.

A minha carne sobrestima-me.
Olha que a tua também.

Com andamento de braço
e caligrafia de pé,
s’aguenta muito madraço,
muita merda, muita fé.

Caramulo, tarde de 27 de Junho de 2007

4 comments:

Afectos said...

Singelamente rendida à muito legítima boa escrita.

Daniel Abrunheiro said...
This comment has been removed by the author.
Daniel Abrunheiro said...

Gentileza tua.

fox said...

Podes crer!