Saturday, June 16, 2007

Recolha

Study of a Boy
by Loretta Lux





I

Pode o coração ser azulejo e partir-se como dentes.
Isso acontece às pessoas e aos animais.
Enlanguesce uma flor, igual a uma cidade.
As pessoas passam devagarinho a eternidade.

Eu gostava muito do senhor Sacramento da minha rua.
Ele levantava-se às cinco da manhã.
Às cinco e treze, ele ouvia o primeiro galo.
Às oito e meia, ele contava-me o galo dele.

A minha rua passa sozinha nos meus anos.
Eu passo os meus anos sozinhos sem rua.
Os galos e os maridos cantam noutro lado.
Temos um pelourinho enfeitado de almas.



II

Aqui não há mulheres.
Chove desde sempre.
Acordo muito cedo na casa congelada.
A lenha tornou-se ferro no cesto.
As árvores mancham o nevoeiro.
A chuva funga o mundo breve.
Fecharam a escola, as crianças acabaram.
Às oito da manhã é a noite.
Num carro abandonado vivem dois cães.
O talhante senta-se à porta do talho fechado.
Uma viúva não olha, só tem costas.
Ela é um corvo de azeite-luz.
Encerraram a loja de roupa.
As calças e os casacos tornaram-se estuque.
Aranhas e anjos partilham o gesso.
Ninguém quis desmantelar o baile.
As almas dos músicos medusam no salão.
Uma cadeira quebrada como uma pessoa.
Quarenta cartas na mesa, todas de espadas.
Somos homens, usamos mercúrio no coração.
A nossa astronomia é um caminho de terra.
Respiramos chuva escura.
Lampiões piscam-nos os olhos.
Cisnes de terracota? As nossas mãos.
A ferida de um homem é a boca.
Tão melancólico sangra ele resina.
Guardaram-nos em caixas de cristal.
Cheiramos a canela velha.
Pássaros de pano tocam-nos por trás o mercúrio.
A montanha desfecha-nos pedradas de gelo.
O zinco vinca a única nuvem.
O parque derrama sal no tanque de peixes.
Aqui não há peixes.



III

À tardinha, recolhemos do chão os corpos.
Recolhemo-los devagar em coisa de uma hora.
Lavamo-los na fonte, entre pedras e árvores.
Entregamo-los ao Lar, pagam-nos em moedas.

Na manhã seguinte, eles voltam-nos.
Tomam café no café, fumam cigarros baratos.
Olham para a televisão, não vêem as cores.
Vão almoçar pelos próprios pés.

Regressam empilhados de comprimidos.
Os das injecções já não voltam à rua.
Os outros levantam-se do café, saem.

Adormecem então na inclinação da luz.
Tombam com uma espécie de método.
À tardinha, recolhemos do chão os corpos.



IV

A minha terra tem o cabelo amarelo.
A minha terra é uma louca mansa.
A minha vida partilha pedras com a minha terra.
Águas e ares correm-nos a mim e a ela.
Mãos são taças, o vento com água nas mãos.
Firme é a viagem, trémulo o caminho.



V

Comeremos um pão de lama
enquanto não desistem de nós as vésperas.
Somos um copo de sangue
que não provém do porvir.

Textos:

Caramulo,

entardenoitecer de 13 de Junho de 2007 (I);

manhã de 14 de Junho de 2007 (II);

tarde de 14 de Junho de 2007 (III, IV e V)

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