Sunday, June 17, 2007

Onze Invernos de Junho


Estes poemas

são para

dois homens-árvores:

Armando Silva Carvalho

e Nuno Gabriel Oliveira




I. Já não se Trata Porque

Tinha vindo trabalhar em algumas palavras.
À entrada do café, fui abordado por ela.
Castanha e preta, deitada no chão.
Olhou-me de dentro do mundo.
Não sou capaz de escrever o olhar dela.
Quem me dera ser capaz do olhar dela.
É uma cadela jovem que olha da antiguidade.
Eu tinha vindo ao colo do vento.
Galgara a subida de pedra fresca.
Dei por mim no olhar dela.

Ontem, por não a ter visto, choveu muito.
Andei descalço sobre espelhos quebrados.
Evitei perder-me no bosque.
Espreitei ovelhas que nuveavam encostas.
Vi homens doentes rindo sozinhos.
Vestiam casacos cinzentos como ovelhas sujas.
Eles são gaios químicos, papagaios daltónicos.
Usam os olhos a partir das costas.
É calados que falam da chuva.
Vida e vila são-nos a mesma coisa.

Ri homens doentes vindo sozinhos.
O olhar da cadela e o olhar do bosque.
Tenho as mãos como patas de galinha.
Tenho o coração escrito em papel-carbono.
As árvores cantam.
Os espelhos não cantam.
Não há crianças, não há palavras murais.
Não há mulheres, não há palavras morais.
Os homens têm os corações cravejados de unhas.
Dizem palavras transparentes e porcas.

Às vezes, há cavalos negros, mas também são cães.
São cavalos nos sonhos que sonhamos como cadelas.
Quando o vento me dá tudo, posso ser nada.
Em torno, as pedras muram a gramática.
Pescoçamos para que nos torne campinas o vento os cabelos.
Ele torna-nos campinas.
Usamos memórias ruminantes de ovelhas.
Pássaros ladram alto como cães.
São eles quem, porém, cavalga o vento.
Eles nos levam ao colo, senhoris e ventis.

Mas são elas, as cadelas, quem nos ama.
São umas mães.
Sobrevoam a pedra e os nossos corações.
Travessam-nos como ao bosque.
Nós paramos um por um.
Nunca levantamos as mãos.
Descemos sempre as mãos.
Perco-me num deles, o mesmo casaco.
Babujo o coração.
Trabalho em algumas palavras dele.

Já não se trata de estar vivo.
Trata-se não ser capaz do olhar dela.
Pensões arruinadas deliquiam entre árvores.
Décadas parecem versos ao vento.
Calço espelhos quebrados.
Aos ombros da campina, um casaco cinzento.
Não dou por ela no meu olhar.
Os corações-carbonos não amam.
Não amam porque não esquecem.
Porque só escrevem.



II. Como a G. de G.

Agora trago as mãos como a guardanapos de gestos.
Não me torna tal diferente de qualquer morto.
Incomum não sou, tão-só sou absorto.
Medos e gelos dedos gelam antes lestos.

Arrefeço à mesa com mulheres e cristais.
Arroios de sangue tilintam rubis.
Gemem e requintam copitos de anis.
Talheres dão verniz de pratas banais.

O mais que não digo do não ouvir vem.
Perdido por mil, emprestado por cem.
Despido de roupa, vestido de trapo.

Direito de entrada, saída de morto.
Incomum não sou, tão-só sou absorto.
Levo agora mãos, gesto e guardanapo.



III. Antuzede, 1917

Era azul a água da chuva nos fatos azuis
dos operários que viviam
da chuva ao preço dela.
Castanhas duras e vinho mijão viviam no cheiro.
Era branca a água da chuva nas capelas frias
das mulheres que viviam
da chuva ao preço deles.

Ripavam bacalhau e onanismos.
Esfarelavam de si jardins matadores.
Cegavam de castanho fendidos amores.
Raspavam azulazulejos e brancorganismos.

O sol caiava de pus a tristeza sólita.
E eles agora mortos nos filhos deles,
feitos, como eles desfeitos,
da chuva ao preço deles.
E delas.



IV. Idioma

Se a boca sangra, é da língua.



V. Pedrulha, 1973

Rondas rogatórias abrenunciam a casa.
Chove trevo em torno dos arrumos-galinheiros.
Costureiras sustentam bípedes farinheiros.
Mas a vida sobe a casa à brisa.

Relatos e tangos radiofonam domingos.
Nespereiras entrevam de puro raquitismo.
Acordeonistas soltos em excursão
acordam revoltos em sol-açafrão.

Nenhuma lei. Nenhuma criança. Lua alguma.
Só da vida a morte (presto) se enciúma.
Conduzia frio, dono de NSU.
Morreu mal vestido, enterrado nu.

Rondas rogatórias, chovidos galinheiros:
que assim é a infância dos mais domingueiros.



VI. Música?

Crissas evóides pidem nesperar?
Quã gila evóide crô desperantar?
Si nã turca guela a deçamatura,
dopia neuratar laquela pingura?

Munas quilas bêm ofóssas derridas:
mortes são as pautas com as notas de
vidas.



VII. Vitral

Um pingo de vidro na ponta da piça
não faz da porcina cristal ou linguiça.
Bem pelo contrário, um tal repingar
Faz dela 1coisa mais dada a apontar.



VIII. Infantêspera Medonhesa

Nesperecinas acriançam o folhedo.
Tangepersinas chumolham os mais verderetes.
Limolinetes sangrassucam zarvoredo.
Trançacitrinas macidulam ramalhetes.

C’rac’olchoram babas ranhos gatinitos.
Pulgas medonhas vampirizam cachorritos.
Cheques de lama pagam zimbros descanáveis.
Viver não é daquelas coisas mais amáveis.

Infância toda entre muros de quintal.
Infante mudo-surdo-tudo-portugal.
Nesperecinas acriançam o folhedo.
Quem tiver cu, tem onde meter o dedo.



IX. Entram Entre

Entram por vezes maravilhas olhos adentro
e nada têm a ver connosco nem de nós-olhos.
Toalhas amarelas como lances de sol,
Baptizados honrados como lâminas de maçã.
Tenho ido a funerais com o mesmo fato.
Alongo-me no regresso a cervejarias com três ou quatro.
Conversamos sob o chumbo da hora culpada.
Metem caminhos a tralhão entre castelos e escolas.
Vem uma gaja cantar, deram horas galináceas.
Seguramos as almas amarelas como rifas:
se não houver sorteio, nem morteio haverá.

Uma calma económica tudo teria resolvido.
As putas legais assim tudo têm parido.
Depois há pontas, que são júris e prudentes.
Nada de ferro que se não morda entre dentes.

Entram por vezes maravilhas entrementes.



X. P.L.P.L.

Canitos pés de sombra madura
tocam as lívias beiras da ramagem
agem tudo como se a mesma loucura
desse cor à terra, terra à imagem.

Não é só tule mesmo coração
finge de azul ser pão e ser verão
não convoca a espera mais oficial
é mera não vera a noite total.

Deditos de fita valsam malmequeres
mulheres de chita sonham ser casadas
cortinas de crinas éguas alugueres
tu queres ou não queres tais divorciadas.

Olha o teu rio infante inicial
olho azul à vida tudo é p’rtugal
teus canitos de sombra futura
passada luzita, pouquita loucura.



XI. Europa É praticamente tudo Alentejo

Ainda canta tão manso
passarito afinador.
É cansaço sem descanso,
passarito tão cantor.

Asitas ele grila breves,
pendura de nosso ouvido.
Um cantor tão bem sentido,
gargantasas tem tão leves.

De azul pinta seu espelho,
de cal caia seu cantar.
Ao sol torra o vermelho
e à lua vai engessar.

Ramo frio, muito inverno.
Não poup’ a ave ternura.
Viver pode ser inferno,
ser do céu uma loucura.

Não repit’ o passarito,
que este canto é só meu.
Só vivi um bocadito,
que não era meu nem teu.

Vai lá cantar prá Europa,
ganhar tantos tostões mais,
que viver é uma tropa
de pretos e portugais.




Caramulo, tarde de domingo, 17 de Junho de 2007

4 comments:

M said...

Quando cá venho, já se fez noite sobre as tuas últimas palavras e entretanto já outras amanheceram. Mas eu procuro-as todas; por isso me demoro mais a tentar apanhar o fio da meada por aqui, ou a interpretar os sentidos por ali; por isso estou sempre desactualizado – mas sou fiel. Isto para dizer que imagino o quanto o Daniel se tenha sentido visceralmente ferido com o “Acertgate” e, embora de pouca monta, transmite-lhe a minha solidariedade incondicional. Quanto a ti, nem me preocupo sequer: essas farpas à má fila não te beliscam os tornozelos, porque não és brando de pele e a tua espinha é de postura erecta.

Sobre os poemas, estão sempre um passo à minha frente, mas ainda não lhes perdi o rasto.

Ass.: Mangas

M said...
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Daniel Abrunheiro said...

Vindo de ti, é tão delicado como viver.

Gabriel Oliveira said...

A "homem-arboricidade" é uma coisa (boa!) que partilho contigo, Daniel! Não me vou desfazer em elogios, que é piroso. Mas tu e a tua escrita merecem-nos. Não vou agradecer a prenda preciosíssima, que sei que não era para isso, mas... ficou!
Resta-me deixar um abraço amigo, como sempre.
Já agora, quem é o Armindo? Fiquei com curiosidade em saber dele!