Saturday, June 09, 2007

Nenhum dos Rostos – III

Retrato de uma Senhora, Apertando as Mãos
Pintura de Fernando Campos
(www.ositiodosdesenhos.blogspot.com)







Na cabana, sonho com o leito seco de um rio.
Tenho a certeza de que o subsolo está pejado de moedas de ouro, mas não escavo. Não desenterro as moedas para não perturbar a memória dos peixes pré-históricos e cegos que segue ondulando no ar enxuto. As margens correm eriçadas de plantas sem chuva, mortas de sede e de espera. Pássaros descem e comem terra e pedras, depois não conseguem voar, arrastam-se pelo leito, vão morrer e eu não posso fazer nada.
Sinto nas costas o olhar dela. Também sinto, com a omnisciência desumana de todo o sonhador, que lhe não verei o rosto se me virar de repente. Se me virar de repente, o olhar dela seguirá apunhalando-me por trás: sem piedade e sem falha. Rodará comigo, esse olhar, se me virar de repente ou devagar: como um paralelo universo inencontrável.
O despertador dispara no boletim de trânsito. Desligo-o e levanto-me. Colada pela barriga à janela, a madrugada do carteiro. O negro azula-se de cinza. Um livor alastra pelo corvo. Nem frio nem calor. Faço café na cafeteira de enroscar. Engulo um triângulo de queijo fundido. Sob a água quente do chuveiro, habito a intemporalidade da ultradimensão. Restos do sonho do rio seco, vergastados pelo chuveiro, somem-se pelo vórtice do ralo. Os objectos emitem sons trocados: a toalha tine como vidro, o sabão raspa como agulha em vinil, o café vaporiza palavras de pessoa velha, a porta do frigorífico declina um chupão de baixo-ventre de mulher quando o homem se solta dela, saciado.
Vou a pé para o trabalho. Somos doze. No gavetão mais baixo da triagem dormem as cartas que foi impossível entregar e devolver. Todos os dias trago uma para casa. Tenho centenas. Nunca abri uma sequer. Quando me reformar, terei para ler até sempre, até nunca mais.
Enquanto não leio, escrevo. Parece-me o mais acertado. Vejo as coisas, registo a mútua indiferença entre a minha vida e as coisas. O mundo é de uma impiedade imparcial, o que me sossega. Não posso ceder um palmo à normalidade: se a pensasse, ela volver-se-ia de todo intolerável.
Intolerável: as crianças enegrecendo de cancro; as cópulas espontâneas nas ruas, no metro, nos autocarros, nos jardins, nas hamburguerias, nas praças, no cais, talvez até na minha cabana; os pássaros, em esquadrilha ordenada e diagonal, falcoando os gatos apavorados; o cozinheiro chinês esquartejando cães à vista dos comedores; a minha Mãe, envergando o manto de cetim azul da Virgem Maria, carregando pelas ruas as tripas do meu Pai; os repórteres de televisão incendiando asilos minutos antes do horário nobre; as cartas abertas por analfabetos; o rio seco enxurrando de novo e para sempre; as estátuas descendo dos pedestais e acometendo de duro bronze o portão do castelo e as sopas-dos-pobres; os polícias recitando poetas; os poetas incitando polícias; electrodomésticos pesados como dívidas caindo de terraços bélicos; órfãos chamando pai e mãe ao mesmo sem-abrigo; transplantes de medula efectuados ao ar livre; fábricas patrocinando teatro; o rosto dela falar-me, na cabana.
Não. Nada disto. Uma vida certinha, antes. Escrever, antes. Para não ser nem enlouquecer. Às duas e meia da tarde, o serviço está feito. Posso derivar entre ordenados escombros – a realidade.

Caramulo, tarde de 24 de Abril de 2007

1 comment:

Paula Raposo said...

Para não ser intolerável...