Friday, September 22, 2006

Ver se (ve)jo

Fazem os amantes muito bem fazendo alguma coisa.
A vida não está para menos.
Os que não têm, raspam.
Também fazem muito bem.
Tenho-os visto, a uns e outros, pelas ruas da nossa sociedade.
Uns com cara de espiões, outros com cara de caso.
Toda a gente existe muitíssimo.
Transportam as glândulas daqui para ali.
Uns voltam, outros não.
Uns acham-se belos ao espelho, que os não contradiz.
Outros perguntam que mal fizeram a Deus.
Esta gente, esta gente.
Toda esta gente emproada, emperuada, agalinhada p’la passerelle da passagem de modas paris-milano.
Fazem muito bem.
Vejo-os segurando o jornal como a um catecismo, fria a chávena em frente.
Outros arranjam muito dinheiro de repente e depois moralizam logo.
Elegem presidentes com o dinheiro novo e a moral velha.
Fazem muito bem, também.
Eu gosto de toda a gente.
Eu gosto de toda a gente, sobretudo da que não presta nem para adubo.
Aprecio particularmente os canalhas malformados.
Gosto da sobrancelha deles, onde branqueja a cicatriz dalguma navalhada infantil.
Gosto dos de dentes separados.
Gosto dos que não usam meias para índex de modernidade.
Gosto das mulheres todas, sobretudo das estúpidas.
Divirto-me como um perdido, achando triste o comércio tradicional, bolorenta a estátua liberal, caduca a universidade, podre a república, encardida a humanidade.
Nada a fazer?
Tudo a fazer.
Tenho uma barba de quatro dias.
Voltei a usar casaco.
Borda a chuva as estradas.
Leio versos escritos há 170 anos por um gajo sério como o caraças.
Cheiro a terra molhada: pão d’água.
Deixo andar.
O que não deixo, versejo.




Caramulo, tarde de 22 de Setembro de 2006

9 comments:

Paula Raposo said...

Está fantástico!! Simplesmente isso mesmo. Beijos.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Irra que o Daniel não se cansa: gostei muito.

RAA said...

É um prazer andar por aqui.

José Antunes Ribeiro said...

Caro Daniel,
Que saudades que eu tinha,tenho, de te ler!
É um privilégio...
Um abraço do
Zé Ribeiro

Manuel da Mata said...

Às vezes, tenho a ideia de que Portugal é uma vagina que uns tantos penetram sem respeito, mas com imenso proveito.
É o que sucede com os peregrinos do convento do Beato.
O maralhal raspa, enquanto os relvascarrapatosos vão possuindo Portugal.
Mas, Caro Daniel, o que terá tudo isto a ver com o teu texto?
Um abraço,
Manuel

Anonymous said...

Escreve alguns versos muito bons, por vezes geniais. Contudo, não é homogéneo e os poemas são longos de mais. Contenha-se meu caro. A prolixidade é um embuste.
´Manuel Luís Gomes

daniel abrunheiro said...

meu caro manuel luís gomes (que decerto se não chama nada manuel luís gomes): se as coisas "longas de mais" lhe causam e fazem má impressão, meta-se só com o seu pai, que decerto a tinha curta.

Anonymous said...

caro Daniel, gostaria que não ficasse tão enervado com estes pobres comentários. prometo não continuar e vou deixá-lo em paz, com os habituais e inteligentes frequentadores deste seu blog.Quanto aos seus poemas, por certo apenas lhe disse aquilo que já pensa. Tenho a certeza que é o seu melhor crítico.
Quanto ao restante, parece saber disso melhor do que eu, mas eu conheco a orientação sexual do meu pai e confio nele. Senão seria caso para lhe perguntar a si, Daniel: como é que sabe essas coisas do meu velho pai; Ficou satisfeito? Parece que não.

Manuel Luís Gomes

Anonymous said...

Que coisa enfim alguem de sabedoria....te admiro pelas palavras Manuel Luiz Gomes