Monday, September 18, 2006

Nelo e Lídia e Fernando

(Todo o santo dia, excepto dias santos, escrevo uma história para a rádio. Esta é a sexta dessas histórias. Nasceu com estas duas infelicidades: ser verdadeira e não adiantar nada.)

1)
A polícia veio ter com a gente, a gente não estava a fazer nada, a gente estava só ali à frente do café, o café já tinha fechado, o dono ia-nos dando cervejas de litro por causa da multa das duas da manhã, a gente metia o dinheiro na mão dele, ele metia as cervejas de litro na nossa mão, e pronto, estava tudo bem, entretanto chegou a polícia.

2)
Se tínhamos visto passar um carro verde com cinco pessoas dentro, a gente disse que não, e a polícia perguntou se não tinha passado carro nenhum mesmo que não fosse verde, e um de nós disse que não, que só tinha passado uma motorizada mas que não tinha dado para ver a cor, quanto mais cinco pessoas.

3)
O polícia, que era a polícia toda, fez de conta que tinha percebido, levou um dedo à pala de plástico da autoridade e olhou para o lado, que era onde estava o carro com o condutor e o rádio a tossir ocorrência, ocorrência. Eu tive pena e disse assim à polícia, que era um polícia só: - Você vá-se embora mas é.

4)
Isto foi num inverno qualquer, desses que se juntam na desautoridade do esquecimento. Só que eu lembro-me. O polícia não era velho. Disse ele assim então:
– Isto é um trabalho do caraças.
E disse eu:
– Ocorrências.
E ele disse:
– Pois, ocorrências. E vida para isto?

5)
Alguém tinha telefonado à polícia. Uma queixa qualquer por causa de estarmos a beber cerveja e a falar alto nas escadas do café depois da hora. Ou por causa de estarmos a beber alto e a falar cerveja nas escadas da juventude depois da hora. E depois veio a polícia e não havia nada, o dono do café tinha desligado as lâmpadas de néon e não aconteceu nada para desgosto da aldeia.

6)
O tempo passou, como é costume. Duas horas passaram. Dois dias passaram. 25 anos passaram. O primeiro dono do café chamava-se Manel. O filho era Nelo. A filha era Lídia. O café era Nelídia. As pessoas eram todas vivas, há 25 anos. A polícia da altura era quase a mesma de agora. A cerveja continua de litro. Só a memória parece ter envelhecido.

7)
Mas também há outras coisas. Um dos rapazes da escada já não comparece ao “Pronto!” da convocatória. Há duas, três semanas, lembrou-se de morrer de cancro. Tinha 45 anos. Que me conste, ninguém telefonou para a polícia.

8)
E, no entanto e entretanto, eu acho que um rapaz das escadas do café morrer se trata de um caso de polícia. Vós não achais? Eu acho. Tenho de dizer-vos alguma coisa sobre ele. Depois, talvez a razão me volte ao convívio. Ou não. Vou tentar.

9)
Era Fernando. Usava calças finas de ganga ruça. Botas afiadas como lápis. Cabeleira de cascata, lavada a sabão. Cara grave, picotada de hereditariedade. Voz cava, de raciocínio pulmonar. Eu disse pulmonar. Disse. Cancro. Ajudava ao litro da cerveja.

10)
Falamos sempre de cor. Falamos sempre pelas três primeiras letras de coração. O rapaz Fernando já não enfia por baixo da porta a nota de cem da moeda de antigamente. A polícia já não tem que fazer. Está tudo bem. Tudo está sossegado. Não há ocorrências a registar.



Caramulo, tarde de 17 de Setembro de 2006



(A transmitir hoje, 18 de Setembro de 2006, no programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela, de Sandra Bernardo, na Emissora das Beiras, 91.2 FM. Também é possível ouvir o Anoitecer ao Tom Dela na internet. O programa vai para o ar das 20 às 24 horas. Clicar em http://www.radio.com.pt/, depois escolher Distrito-Viseu e Concelho-Tondela. Todos os dias, de 2ª a 6ª. Mais informações úteis em http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/)

5 comments:

Paula Raposo said...

'Ser verdadeira e não adiantar nada'. Mesmo assim com duas infelicidades, a história sempre dói...

Anonymous said...

Era disto que falava. Das histórias de vida e cheias dela.

Adorei.

Ana Claúdia

Paula Sofia said...

Gajo, adorei.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Excelente, para variar. Gostei muito. Sorri com gosto, apesar da tragédia.

Manuel da Mata said...

O anafórico "amo-vos" é neste pequeno poema ( os poemas pequenos podem ser grandes poemas)a voz e o eco que se quer duradoiro.
Para além do "amo-vos", o pretenso diálogo eu/vós confere a este poema uma componente dramática interessante.