Wednesday, September 20, 2006

Proposições Caramulanas

Moro num sítio tão despovoado, que as moscas voam de costas à procura de outro chão.
Ério, ário: eremitério voluntário.
A geração anterior foi a última. Aqui, não nasce ninguém. Suspeito de que nem por amor as pessoas fodam.
O ermo é lindo, isso é. O ar lava as árvores como um sabão profissional.
Todas as manhãs vejo um menino de mais de 50 anos. Faz recados à merceeira, que lhe paga em bolachas e outros carinhos. Ele ri-se muito contente da vida.
Da minha varanda, a extensão panóptica do vale desmente a brevidade da vida.
As árvores do parque abrem os dedos garrotados de anéis de pássaros.
Os loucos mansos fumam cigarros dentro das memórias calcinadas.
Há aqui gente muito abastada. Sofre muito, tal gente, por não ter onde gastar a fortuna: o ar é de borla, a serra é graciosa, a morte é a crédito e eu dou a poesia.
Se, como hoje, não chove, é pior. Atarantadas pela granada do sol, mulheres de chapéu olham sombriamente as pedras do chão. Poucas mulheres, poucos chapéus.
Por esta altura, os meus queridos amigos pensarão estar lendo uma confissão de soledade. Nada disso.
Nada disso. Quem, como eu, já existiu, não d-existe. Na calma obliterante, r-existe. É bom que assim seja, até porque tem de ser assim.
No posto local dos Correios, não é possível carregar o telemóvel. Bom, adiante. Nos sanatórios abandonados, as almas pulmonares sofrem nostalgias tuberculínicas. Na Associação, fantasmas levantam pó quando dançam sem músicos. As senhoras fantasmas vão ao bufete tomar gasosa e capilé, os cavalheiros renovam a brilhantina no espelho ferrugento da privada.
Às vezes, sinto-me tão feliz, mas tão, que quase adoeço. Dou corridas furtivas pela devastação.
Caiu-nos em cima a bomba do Tempo. As casas e os olhares (poucos olhares) aparecem estilhaçados.
O vento enfia-se-nos na boca.
Não procuro e não sou procurado – todos nos encontramos aqui.
Eu vou estar, eu vou ser.
Não há outro sítio no mundo.




Caramulo, tarde de 19 e manhã de 20 de Setembro de 2006

5 comments:

mao morto said...

É quando o tempo "abranda" que nos delongamos mais sobre "as coisas".

- mas que frase tão "Xis"! :)

Fanette said...

I could smell autumn in the air. Serenidade é boa e recomenda-se.

Canixe said...

Este é o meu Cão!

daniel abrunheiro said...

este é o meu canixe!

Paula Raposo said...

Lindíssimo!