Wednesday, December 02, 2009

Coisas da Rulote de Farturas

Louriçal, noite de 26, tarde de 27 e manhã de 30 de Novembro de 2009









Comecei a escrever porque a vida se não repete, tem curvas mas não se repete, a minha já deu filhas, mas não as repete nem se repete.

Depois fiz um tempo de ver hotéis e termas por fora, pessoas tinham carros caros, tira o r a carros e fica caros, comecei a escrever – e era sozinho que escrevia – e contra ninguém.



Eu vi pessoas que eram, como eu, mas não eram comigo, diverso era o momento delas, mas isso pode escrever-se.



Baby Jane. Por exemplo. Ele entra – e tira o eu de sítio.

É um café de/na província.

A habituação das pessoas é engraçada: compram bolos, vão a procissões, dizem mal da crise, todas morrem, nem todas vivem.



Bowie. Montaigne. Café Bowie. Pensão Montaigne. Isto não diz nada a gajos mais novos. Depois diz, mas já é tarde de mais para eles. Vou agora falar do meu coração.







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O meu coração é,

como o vosso,

uma rulote de farturas:

oleaginoso e servido por

mulheres aventaladas de branco

em noites que já

arrefecem.

Assim ele também.







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O meu tempo é riscado a pombas.

Horas boas são tracejadas a cegonhas.

Ando aqui dia-a-dia por ornitologia.

Há vidas piores, as que não escrevem,

sequer lêem.



Há uma máquina de brindes a euro,

as crianças esmolam os pais, os pais dão

ou não dão.

Nem todos os pais dão

para pais.



O Meu

deu.







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Toco o teu rosto com patitas de aranha.

És tão bonita, tão filha de dois alguéns.

Os homens e eu nascemos filhos de filhas.

Tudo nos matricia mães.







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Toco o teu rosto com antenitas de aranha.

Sou o gafanhoto das ruas pluviais.

A mim nas notícias ninguém apanha.

Mas pode ainda ser que em canaviais.



Sesimbra. Vale de Santarém. Bruxelas:

não é Paris a minha vida, antes fosse.

Tenho ingerido até couves amarelas.

A minha Avó fazia O arroz-doce.



Coisas pequenas, mas narrativas

da vida que nem sabe o que é viver.

O arroz-doce é, das coisas nutritivas,

o que mais faz um menino crescer.



Do resto que não digo, Luìsito,

só ficam a agonia e o ser aflito.







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Ele conhece o ter sido mais que as

mesmas mãos com que toca o mundo,

as coisas materiais como os prospectos,

por exemplo a Cabo Verde, de viagem.

Mas, por mais caros sejam os espelhos,

ela é de si mesma a mesma imagem.







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Amada praia de ouro, a manhã

que me acontece viver agora.

Que formoso é o triste mundo, Mãe!

Aquele plátano deflagrando na luz,

Este cãozito dourado, tão diligente,

O perfil augustíssimo do casal de cegonhas,

o senhor Henrique repousando um pouco

na esplanada.



Comi carneiro ontem em casa do Manuel Costa,

à tarde andei sozinho pelos campos,

a noite chegou muito pluvial, ouvi-a encerrado

no quarto da pensão, pude não pensar

de mais, veio então a manhã,

amada praia de ouro.







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A chuva fez do chão espelho.

Estão limpas as árvores, é bom mirá-las.

O crepúsculo é opiáceo, o alvor é vermelho.

Em mim silenciosa adentro falas.



Pobres tantos homens, figuras rurais,

pelo mercado palpitam os seus corações.

Uma parte da praça tem vivos animais,

outra parte é de fruta, por exemplo melões.



Gosto de quando as crianças rosarinham

o tempo que passa e nos faz passar.

As horas são breves, logo se pergaminham.

E eu tenho-te adentro, calada, a falar.







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Uma ocasião, em Vila Real de Trás-os Montes, fui feliz por razão alguma.

Recordo que chovia, os carros eram lentos na bruma que se cerrava, fazia frio, uma rua era perfumada de carne assada.

Devo ter bebido algum vinho, casas longínquas gizavam colinas.

Era por causa de um livro, um mais, do meu amigo Joaquim Jorge.

Ele vinha de Ribeira de pena a buscar-me.

E eu andei por ali feliz – e depois passou.

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