Wednesday, December 23, 2009

Continuo a Ver um Homem de Gabardina Cinzenta

Souto, Casa, noite de 22 e madrugada de 23 de Dezembro de 2009














Continuo a ver um homem de gabardina cinzenta atravessando uma praça outonal à luz tíbia do entardenoitecer. Há mais homens, mais gabardinas e mais cidades, mas o meu é o único a atravessar no tempo mesmo uma praça e uma visão outonais.
Não é difícil perceber que já esteve de luto, que já teve a alegria de um corpo de mulher aberto em cima pelo olhar dela, que já o mar e a montanha se lhe fundiram na mente – e também portanto na minha.
Cabe-me aceitar este homem, este cinzento, esta personificação da chuva.
A melancolia nada tem já a ver com a persistência desta epifania. Trata-se de um modo de vida – ver.
Portanto: praça cinzenta, homem outonal, luz finando-se a favor do veludo frio da noite, perto de algum cais gritado a gaivotas e chapinhado a barcos. Folhas pelo chão, algumas escritas. Vento erguendo-se do chão como um ressuscitado de lenda. Derradeiros pardais oficiam a sagração do crepúsculo, dobrando a Basílica já, já se perdendo na treva nova.
O meu homem oficia ele também, mas humanamente. Só, açoitado de vento e água (as badanas da gabardina drapejando como bandeiras), ruma à casa-de-pasto onde, a caldo, pão, azeitonas e vinho, se curará da hora e dos quilos da solidão.
De que anos provém? Às vezes pergunto-me isto – porque não tenho todas as certezas. Sei isto: deitado, deito-o. Regressou já de comer sozinho, tem um quarto na sobreloja de uma farmácia de bairro. Penso a cidade dele, feita de todas as minhas. No escuro dele, a gabardina pendurada de um prego, as calças partidas sobre a cadeira, as meias emurchecidas na boca dos sapatos, as cuecas ligando o corpo deitado.
Não, a melancolia não tem nada a ver com isto. É o que vejo de olhos cerrados. Ou então: de olhos encerrados para obras. A minha obra é levada por este homem cinzento, ambula com ele pelas cidades da minha vida fundidas na dele: a praça, a casa-de-pasto, a sobreloja de farmácia.
Na madrugada, um chá forte. Ele deseja uma chávena de chá forte, mas o quarto não tem serviço de cozinha. Eu tenho. Faço o chá enquanto aguardo os parágrafos novos da visão já antiga. Decido não comer pão com manteiga ou bolachas. O chá é bastante. Derivo de chávena na mão pela sala, recolho-me ao sofá, espero que ele volte. Não volta. Espero-o.
A minha noite é serena. Inquieta-me um pouco o estado da máquina de escrever. Está a pedir reforma. Não tenho dinheiro para substituí-la sequer por uma em segunda-mão em condições. Hei-de aguentá-la. Um tempo mais, uns tempos mais. O tempo não falta. Ouço o vento cavalgar a rua. Zune na alta tensão. De vez em quando, faz faltar a luz. Então, recorro a velas. Gosto da sala toda fechada em torno da chama da vela. Imagino-me num século sem luz eléctrica. Só a vela e a lareira – e o Inverno todo lá fora varrendo o mundo dos outros. Gosto de imaginar os adormecidos, esses ensaiadores da morte. Os quartos deles como câmaras-ardentes, mas sem morbidez, sem tragicomédia, sem nada disso. Apenas adormecidos-mortos-vivos. Enquanto o meu homem não retorna, preciso de ver outras coisas. E imaginar é fazer imagens. Eu acho que é. Ele não volta, volto eu a deitar-me. Trouxe uma manta para o sofá. Desliguei a luz do candeeiro, permanecem o brasido da lareira e a vela. Fecho-me na noite, estou tranquilo, nada pode o mundo contra mim estas horas. Encerro os olhos como agora fazem aos teatros antigos. Ei-lo.
Um homem de gabardina outonal atravessa uma praça tíbia à luz cinzenta do entardenoitecer. Não há mais homens, nem mais cidades. Só há aquela gabardina, barcos perto e uma montanha recordada.
Amaina a ventania que se dava e fazia pela rua fria, fora a cidade do meu corpo, isto. Devagar, agora: a vela, o lume na lareira, a palpitação fátua dos objectos que enformam a casa. Penso na mulher que foi dele.
Não: penso na mulher a que ele terá pertencido antes desta praça, desta gabardina, deste dormir sobre uma farmácia. Têm uma presença de barcos apresados, por assim dizer, as mulheres recordadas. Mas ele agora não tem mulher, agora ele não pertence a qualquer mulher. A realidade é a sobreloja de farmácia, a casa-de-pasto, o Inverno que se anuncia nas manchas das empenas dos prédios, nos ossos das figuras idosas, no paradoxo das nuvens, cuja efemeridade assenta praça na eternidade mesma.
Não, a melancolia sim.



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