Friday, January 26, 2007

Do Natural Cantor

Todo o natural é cantor.
Só a nossa surdez resulta imperdoável.
Até na bacia de ferro, o carvão
canta o lume como translúcido rubicoração.
Pássaros e fontes são virtuosos:
mas que dizer do cão preso
retornado a si mesmo lobo ao fulgor da Lua?
Os gerânios gritam.
As camélias orquestram.
Quanta música numa criança calada, não?
Toda a minha vida tenho feito por ouvir.
Escrevo versos por imitação de solfejo,
não por outra coisa.
Somos agora ouvintes e bocas da natureza.”
– isto é Rilke, Sonetos a Orfeu, Primeira Parte, XXVI.
Sim, Rainer Maria. Como não?
Cem anos depois, é a mesma a manhã,
a mesma a música brutal
do silêncio de que nos cercámos.
Mas, se queremos, quando queremos,
se queremos muito quando queremos,
ouvimos.
A beleza desprevenida das mulheres – canta.
Canta – a saúde da falta que alguém faz
a alguém.
Um cacto velho – línguas verdes
consumindo sol, do lado de lá
da estrada.
Os pescadores tensos violoncelam o mar.
Hoje, ouço o canto da viúva
que sobrevive entre galinhas e palha.
Canta ao vento frio a portada
da janela do meu quarto,
quando a mulher de quem sou
se agita dentro do sonho dela,
da música que só ela ouve.
Nem sempre temos que dizer.
Mas sempre temos que ouvir.
Renasce moço o corpo
às sete da manhã,
movediça armação de carne
ao movediço gelo da respiração.
Aranhas desemaranham a existência das moscas.
Desembaracei-a da existência” –
isto é o que diz Antoine Roquentin,
o narrador d’ A Náusea,
depois de esborrachar uma mosca e
falando por Sartre,
que li no Jardim Municipal da
Figueira da Foz,
penso que em 1983.
Ouço o roçagar dessas páginas
(Europa-América)
por esses dedos
nesse jardim,
nessa cidade marítima,
nesse ano.
Por outro lado, sou escutado
pelo tampo da mesa
sobre que alinhavo o meu trabalho
como um alfaiate de giz-sabão
na mão.
E o pequeno ardil que miracula
a memória (e a poesia): ouço de novo
a voz do senhor Rodrigues,
alfaiate que fez o meu casaco verde,
na década de 70 do século passado,
para que um homenzinho eu (a)parecesse
no casamento de minha prima Elvira
com Diogo,
que figurou num filme do 007
e é, hoje ainda, um homem bonito.
Tudo me/nos canta.
Gosto de ouvir passar os comboios,
como julgo que toda a gente.
Como canta o senhor Paulo Frederico Simão,
Everybody loves the sound
of a train in the distance
Everybody thinks it’s true
”.
Mas também aprecio sobremaneira
a passagem cantora da camioneta de carreira,
caminho da vila,
povoada de velhos humanos
que vão à Previdência e ao sabão
e ao açúcar amarelo e à missa maior
da sede do concelho.
Também ouço ainda,
quando o silêncio e a dor mo permitem,
o ranger rítmico da cama de meus pais,
era o amor e eu pensava que eram
ratos.
O coração faz-se ouvir num
largo espectro de acção acústica, num
largo espectro de acção fungicida.
É natural.


Caramulo, manhã de 26 de Janeiro de 2007

7 comments:

Anonymous said...

gosto imenso (como o mar).não é pouco nem muito sério mas o suficientemente sério (bom). saúde.

Anonymous said...

A poesia é sempre séria, quando honesta.

Anonymous said...

mas não necessariamente triste. um pouco de cor não faz mal a ninguém.

Daniel Abrunheiro said...

isso da cor é mais na robbialac

Manuel da Mata said...

Li "A Náusea", em Luanda, no ano da desgraça de 1975.
No "Muro" do Sartre há um conto que me impressionou muito. Tem a ver com a guerra civil de Espanha e com o anarquismo. Mas onde é colocada, obviamente, a problemática existencial.
Um abraço

Anonymous said...

ok já percebi. cão instalado não muda. nessa sua vida tenha uma boa vida que eu rumo à robbialac.

Daniel Abrunheiro said...

se há gente que não me diz nada, é a gente sonsa.
boa viagem.