Friday, January 19, 2007

Terminam e Nascem os Dias na Língua

Esta manhã, quase de repente, vieram estes versos todos.




Terminam e nascem os dias na língua,
perfumada a boca de café e ditos.
Pendura-se da varanda a noite: atinjo-a.
Da cozinha lufa ainda o cheiro dos fritos.

Glabra, intumescida, a luz, como um falo,
molha, gota a gota, lactífera, a manhã.
Por vezes, só olho, não digo, só calo,
só vivo, não durmo, é longo o divã.

Na boca a memória cuspinha pevides.
No minimercado: cores e prateleiras.
Bom dia, Manel! ’dia, s’or Alcides!
– instantes da infância doces como freiras.

Agora a noite, agora e depois.
Tractores exilaram da terra os bois.
Não já o pastor carda a madrugada.
A fábrica alui, que foi encerrada.

Os meus vivos são, em certos momentos,
concretos e ricos como alimentos.
Cedinhas na rua perpassam crianças,
meninos-calções, meninas de tranças.

Em cima, na pauta dos fios do poste,
andorinhas semínimas primaveram compassos.
Pode lá ser que haja quem delas não goste!
Vírgulas voadas ao papel dos espaços!

Tudo isto eu vejo e beijo com a língua,
não sei distinguir ’ma rosa d’ um cravo.
Tingindo-a na boca, porém, distingo—a:
é isto uma rosa! Bem dito! Bravo!

Chegam depois as outras horas.
O corpo entristece sem ser por maldade.
Coçando as virilhas, aturo demoras.
Tenho, um dia destes, de ir à cidade.

Na infância, lá longe, a rua perdendo-se.
Ao cimo, a família mais pobre do mundo:
a Deus e aos ricos, pedindo, oferecendo-se,
crianças baliam p’ra sair do fundo.

Chegou o futuro. É tudo o que resta.
Ontem fritei frango, sobrou um bocado.
Com um pouco de arroz, é quase uma festa.
(O arroz convém ser sempre lavado.)

Não dói (já não dói) cruzar o Inverno
marejando canoas nas águas do olhar.
Mão esquerda poisada pisando o caderno,
a dextra amestrando o verso, o falar.

Será um dia Verão, o Estio já fora,
já caniculámos fendas sudorosas.
No bidé da pensão, tive uma senhora
sentada em perfume de água-de-rosas.

Depressa odiar e amar devagar.
O tempo não está p’ra juros de mora.
Amar – um Verão; odiar – uma hora:
fica ela por ela, depois vai-se embora.

A nota de 50 que o meu Pai me dava,
dava pró cinema – e troco restava.
Ia ao Tivoli p’lo domingo à tarde.
Não recordo os filmes, tão-só a idade.

Murei-me de livros, escorei-me de capas:
Colecção Dois Mundos (Livros do Brasil).
Depois como antes, dias como mapas
pintados a lápis cor dazulanil.

Viva a nossa vida! Vivam nossos anos!
Vivam as crianças e os passaritos!
Vivam as cozinhas, viv’ os oceanos!
Vivam os momentos ditos e não ditos!

À tardinha, junto ao rio que passa
caminho da foz, caminho do mar,
tem sempre p’ra mim uma certa graça
pôr a língua de fora sem ser p’ra falar.

Não mais dobra trindades o sino da igreja,
trocaram o sino por uma cassete.
Perto, no café, bebendo cerveja,
maldizemos a Deus e ao Diabo a sete.

Ainda te quero, mas longe de mim.
Ando optimizando implementações:
palavretas-coisas que hoje, enfim,
não coçam cabeça nem coçam colhões.

Nun’ Álvares, burro detestável,
erguido a beato p’la salazarice,
espadeira de cruz muito condestável,
muit’ ínclit’ egrégio em sua pulhice.

Prefiro o Camões. Prefiro o Pessanha.
Prefiro espargos (dos brancos, em frasco).
O resto é País que no cu apanha
de Espanha e do mundo, até do mais rasco.

Ó Senhora da Agonia,
Maria Aflita das Dores!
Nossa vida, quem na diria
tão propensa a desamores?

Senhora do Patrocínio,
Madalena prostibular!
Nossa vida é latrocínio
sem nada ter que roubar.

Pela boca morre o peixe,
naufragando o pescador.
Pela boca vivo eu.
E tu também, ó meu amor.

Meu amor tão pequenino
que trago à botoeira:
se te esqueço, é destino;
se te lembro, bebedeira.

Manhã finda, tarde nova, nova noite.
Todo um inverno de verões particulares.
Que ao meu coração se acoite
– ou a pensões, ou a bares.

Ou se deite no divã
e, na noite varandada,
espere que a nova manhã
não nasça tão terminada.



Caramulo, manhã de 19 de Janeiro de 2007

4 comments:

Manuel da Mata said...

Benditos sejam todos os dias, os ditos e os não ditos!

daniel abrunheiro said...

assim eles nos sejam, Manel.

Manuel da Mata said...

Ou nós com eles sejamos, Daniel.

José Antunes Ribeiro said...

Um grande Abraço, do tamanho da tua Poesia, Daniel!