Sunday, January 28, 2007

Janeiro é um Lugar Público

Coimbra, 18 de Maio de 1979
© Olle S. Nevenius
(http://www.ss.se/forum/viewtopic.php?p=40022&highlight=#40022)








Bem esteve e andou Fernando Esteves Pinto quando, a 19 de Janeiro de 2007, escreveu


Os blogues são lugares públicos de solidão.

(cf. Fernando Esteves Pinto, http://escritaiberica.weblog.com.pt/).


A solidão pública não é uma invenção da blogosfera, naturalmente que não. A blogosfera é a confirmação electrónica de um facto universal. É outra vez Camões, o seu/e/dele “solitário andar por entre a gente” (cito de cor, talvez mal). O que não está mal nem mau é, é que assim seja. A condição humana ergue-se (e declina; e reergue-se; e infinitamente assim) a partir de aparentes paradoxos do género. Os séculos confirmam isso. Cada um navega, invisível, de retrato na mão – retrato de si mesmo, à procura de si mesmo. Das outras barcarolas, respondem-lhe com enfado
– Não, não o conhecemos.
Certo. Assim isto é: nem triste, nem exuberante – tão-só humano.
Digo-me e repito-me, todos os dias com suas noites, a mais abstracta das palavras: “hoje”. A irmã siamesa dela, a palavra “eu”, ri-se baixinho. E como haveria de não rir-se?
Hoje, eu assisto ao domingo. Está sol e muito frio. Como conseguirá o tempo arranjar maneira de, pela noite, as forças lhe não faltarem para arrefecer ainda mais? Vale que é tudo muito puro e, “o” em vez de “p”, ouro.
Aqui está o meu caderno: quase completamente preenchido de lavores fátuos (cheio de “hojes”), aguarda que o reveja eu, extirpando dele os anticorpos mortos em combate à infecção da melancolia, da memória, do desejo e da ortografia. Textos deste Janeiro (poemas, histórias) vão romper pelo deserto coruscante da internet.
Liguei o aquecedor do escritório. Emoldurada pela janela, a árvore sobe na luz congelada. Disponho de fotografias tiradas, há quase 28 anos, aos transportes urbanos da minha cidade. Foi um sueco, o fotógrafo. Encimo estes textos todos (poemas, histórias) com uma dessas fotografias. O “hoje” da fotografia é “Coimbra, 18 de Maio de 1979”. À medida que o envelhecimento assenta praça no quartel do meu corpo, troco “hojes” numa sucessão cada vez mais insidiosa. Ao tempo desta fotografia, eu tinha, de idade, 15 anos e dez dias. Tudo me preparava para domingo, 28 de Janeiro de 2007. 1º de Novembro de 1981. 17 de Fevereiro de 1981. 5 de Novembro de 1977. 7 de Maio de 1976. 1º de Janeiro de 1974. 23 de Maio de 1986. 24 de Abril de 1994. 17 de Dezembro de 1993. 19 de Janeiro de 2000. 8 de Março de 1988. 15 de Novembro de 1982. 12 de Julho de 1987. 31 de Outubro de 2003. 7 de Setembro de 2000. 1º de Maio de 1974. 4 de Outubro de 1970. 1º de Maio de 1971. 30 de Maio de 1974. 20 de Março de 1978. 11 de Abril de 1983. 4 de Julho de 1994. 14 de Agosto de 1980 - uma galeria de diamantes entregue ao mais obscuro judeu de Amesterdão: o calendário.
Um relatório de ínfimas culpas preciosas, uma colecção de cromos da Agência Portuguesa de Revistas, as verde-claras carrinhas Volkswagen de volante à direita nas áleas de Lourenço Marques, a pulsão envenenadora dos celibatários ingleses, a criação de porcos (subsídios para uma compreensão de) no Sul de França, descobertas de 1968 na Terra dos Maias, Maria Alberta Meneres reconhecendo poetas de 10 anos, a macaca Pépée, as azoadas do vento na estepe do Velho (fala-me de solidão, anda), a não menos que maravilhosa possibilidade de viajar no Tempo a bordo de uma estante (poeta-operário Adelino Veiga, até às 13 horas de 8 de Março de 1887), frango guisado com massa, o Mundial de Futebol Argentina-78 como trampolim markentigário da Coca-Cola em Portugal, o movimento operário entre barricadas, a senhora-de-fátima contra a República (em exibição de Maio a Outubro num pintodacosta perto de si), Gabo vendo Julio a escrever com tinta verde, os barbeiros que de sangradores passaram a guitarristas, a laca do móvel-psyché, a veneração quase sousamartínica pelo Casal Curie (e por tudo o que viesse de, ou cheirasse a, França), Bulgakov morto antes dos 50, as velhas que vieram em rancho tomar a bica à hora improvável desta grafia insensata, os pássaros brancos que azulam o olhar ao visitador do mar, o pequeno-almoço de café e toucinho n’ O Longo Vale (Steinbeck, Livros do Brasil), a tosse que escalavra a pasta mucosa, Helena Lisboa (as mãos dela) no comboio que seguia para o Norte (Peniche, 1986/87), a horrenda algaraviada das mulheres da Nazaré, a explosão do Café Sofia que matou indirectamente a senhora mexicana, a clarividente cegueira de toda a erecção, as portas de madeira pintadas de azul-eléctrico, o sossego do reformado que recorta – palavra a palavra – um jornal todo para depois aspergi-las pelo quintal para instrução das galinhas, o terror de que a memória volte amanhã, a boca sinedoquada no filtro esmagado no cinzeiro, a perfeição de The Misfits (John Huston, 1961), a volta ao mundo que Ferreira de Castro deu para ilustração de galinhas e ficha de bibliómanos (há um exemplar em casa da ex-namorada do Luís Ferreira, na avenida Estados Unidos da América, Lx.), o fim hitchbangkokiano de Manuel Vásquez Montalbán em 2003, um pouco mais de frango guisado com massa e por favor, 14 de Agosto de 1980, cum and scum, a reacção calorífera das mãos-ambas à neve única, o cristal límpido de um verso de António Osório, as sombras rápidas do cinema nos olhos, o delíquio homomexicano de D.H. Lawrence, as meias altas da Pipi e de T.S. Eliot, o veludo verde das mãos-luvas da bebedora de chá, um tiroteio genético no bairro cigano-social, fundamentalmente (funda, mental, mente) a cona, o grão duro de café que o actor do Actor’s Studio (método Stanilawsky, ou Strasberg, ou Steinberg, ou Steinbeck, ou icebergue) dentala depois das refeições, e mais isto: Deus não existia antes nem voltou a existir depois de Bach.
É de novo o toque das trindades. Dos casebres, pela falerecta chaminé, mole orgasmo de fumo substancia o passamento alimentício da sardinha esbraseada. O domingo torna-se duro e transparente e quebrável como vidro ou gelo. 18 de Maio de 1979. 28 de Janeiro de 2007. Diz-me poemas. Lê-me histórias. Só.

Caramulo, manhã de 28 de Janeiro de 2007



Fado Cortesão com Assalto às Bombas de Gasolina na Forma Tentada
(história 53 do Anoitecer ao Tom Dela)

1
Ó senhor guarda, a gente tinha fechado como sempre às dez da noite, não bale a pena ter as bombas abertas depois dessa hora, só se for para sermos assaltados – e a berdade é que o fomos na mesma, na forma tentada, a gente tinha subido a casa para jantar, a minha mulher tinha ligado a rádio, tab’ a dar aquele fado chamado Fado Cortesão, não sei se o senhor guarda conhece.

2
O Fado Cortesão é um fado de Coimbra, por isso só tem duas quadras, a primeira começa assim

A delicada desgraça
dá-se a si mesma passada


não sei se o senhor guarda tá a ber, se calhar não porque nunc’ oubiu, depois daqueles dois versos é assim


Nada faz quem nunca passa
de graça a desgraçada

é-é, o Fado Cortesão é assim.

3
Bem, o fado taba a dar muito bem dado, o senhor guarda desculpe porque eu desafino, mas exactamente por alturas da segunda quadra, começa assim

Sente quem tem de sentir
vir nunca vem pode ir

sentimos qualquer coisa esquisita lá em baixo na porta da loja, que é onde temos os óleos e as escovas prós pára-brisas, quase nem oubi o resto do fado que é o fim, é assim

Desgraça tão delicada
passa que passa e mais nada

o que não habia maneira de passar eram os barulhos esquisitos lá em baixo, pareciam ratos – e eram.

4
A minha mulher poisou a sopa à pressa na mesa, até entornou um bocado c’a pressa, as coisas estão de maneira q’ o comer não é p’ra se estragar, mas naquele caso até percebo, modos que ela meteu a cabeça de fora da janela p’ra ber o que era e o que não era mas tebe logo de a meter p’ra dentro por mor de uma chumbada de zagalote que beio lá de baixo, iam-l’ arrancando um bocado ó nariz, se fosse à língua também não se perdia nada, senhor guarda.

5
Olhe, senhor guarda, visto aquilo, não tenho mais nada, como a sopa ferber por ferber já ‘taba ferbida, fiz como antigamente nos filmes de espadachins e atirei c’ a sopa, panela e tudo janela a baixo c’a pontaria posta onde eu supunha c’ os gajos tabam e tabam. Ouvi-l'es dizer uma palavra palavrona que parece aquela que os gatos querem dizer mas não conseguem acabar, mandaram outro zagalote e arrancaram c’ o carro sem roubar nada, bendita sopa.

6
O rádio continuou a botar música como se não fosse nada com ele e não era, a minha mulher ia-lhe dando uma coisa como se fosse natal, que é quando se dão coisas, e eu disse-l’e assim, ó mulher, tu tem calma q’ o pior ‘tá passado – e taba.

7
O senhor guarda é claro que não pode fazer nada sem imagens, já tibemos p’ra instalar um sistema de bídeo, mas num é fácil por causa dos euros, agora é tudo em euros, desde q’ acabou o escudo ‘tá tudo p’la ordem da Europa, isto é, da morte, salbo seja, senhor guarda.

8
Vamos mazé começar a fechar às oito da noite, perde-se dinheiro mas não se perde a bida, e o dinheiro não é tudo, é só quase tudo, sempre começamos a oubir a rádio mais cedo, t’lebisão não gosto porqu’ aquilo, ´senhor guarda, aquilo é só manias.

9
Não, não temos filhos. Lembrámos-se disso, sim. E ainda nos lembramos quando chove. Ou quando vamos à pastelaria e bemos os filhos dos outros, tão engraçados, sempre a pedir coisas e a serem tão bonitos, a gente até ganhábamos para sustentar um rancho deles, mas não, não temos, somos sozinhos eu e a minha senhora.

10
Como é que se chamaba, pergunta o senhor guarda, o fado? Chamava-se e chama-s’ ainda Fado Cortesão, ‘tá bem, eu canto-l’o todo só duma bez. É assim:

Caramulo, tarde de 17 de Janeiro de 2007



Assistência dos Anjos
(história 54 do Anoitecer ao Tom Dela)



1
À tardinha, quando a própria luz do dia se senta nos bancos do jardim, gostamos de ir ver os anjos. São pessoas como nós – apenas não falam nem envelhecem. Conhecemos alguns há mais de quarenta anos – e o nosso envelhecimento agrava a mocidade deles. Os anjos conhecem toda a gente, mas não reconhecem ninguém. Isto acontece por causa de eles não terem memória. E é por não terem memória que não envelhecem e são anjos.

2
Há histórias de anjos que frequentam a noite dos quartos de cama. Também há registo dos que se sentam à mesa para imitar os gestos de comer. Nós preferimos os que se limitam a devassar as ruas do entardecer. Temos muita pena deles porque nunca hão-de morrer. E assim também nunca hão-de viver.

3
Nós preferimos o banco da praça. Gostamos de entardecer ali. No Verão, até ali anoitecemos. Os pombos sobem aos ombros dos anjos, divertido pela moção dessas estátuas tão tristes e tão jovens. Temos a certeza de que os anjos gostam da irresponsabilidade cívica dos animais. Os animais são anjos de si mesmos – talvez por isso. Dizemos “talvez” porque, ao contrário dos anjos e dos animais, não sabemos tudo.

4
Os anjos trabalham muito. Há os que se sentam no rebordo do poço para que os meninos se não afoguem. Esses têm poder para travar as crianças, mas não os suicidas rurais que acertam contas com a vida. Há os que esperam nos semáforos para que os motores dos carros morram quando as grávidas não acabaram de passar. Há os que cumprem penas de prisão com os condenados passionais. Os anjos têm trabalho para sempre, emprego para a vida toda.

5
Nós gostamos da praia no Inverno. Eles também. Encontramo-nos sempre lá, sobretudo quando os dias parecem azulejos transparentes. A brandura do nosso litoral é propícia a eternidades sentimentais que lhes são de inteira conveniência. E a nós também.

6
No Outono, é quando eles são mais. Talvez porque nós diminuamos. Nós morremos muito no Outono. É uma coisa que não conseguimos evitar. Não conseguimos nem queremos. Há outonos que começam a ser finais no Verão ainda, já. Os animais sobem à nossa ideia como pombos a ombros de anjos. Muitos de nós recebemos os sinais e retransmitimos resposta afirmativa.

7
Nos festivais gastronómicos, quando as hordas se açordam, os anjos interferem na bondade das digestões, trepam às árvores a incliná-las de modo a que sombra não falte aos velhinhos abandonados pelas famílias comedoras e participam dos jogos populares corrigindo a trajectória das malhas para alegria dos lançadores.

8
Nós sabemos que as maternidades estão sempre cheias de anjos. Desconfiamos mesmo de que se intrometem no subconsciente dos padrinhos, determinando os nomes: Gabriel, Serafim, João, Emanuel; Teresa, Sara, Margarida, Isabel.

9
Na praça do nosso assento favorito, houve, há mais de um século, fogachos revolucionários que deram no de sempre: um punhado de mortos pobres, montras alvejadas a calhau, flatos das senhoras, dispepsias dos cavalheiros e perpetuação das duas piolheiras mais constantes do País: a demográfica e a democrática. Os anjos já cá andavam na altura, mas não corrigiam as trajectórias.

10
Nós não andamos muito depressa. Comemos uma sopa às onze da manhã – é numa pastelaria, mas o dono não se importa que o apetite seja pouco e o dinheiro menos ainda. Depois da sopa, vamos ver os anjos. Eu sou Gabriel. Minha mulher, Margarida.

Caramulo, tarde de 19 de Janeiro de 2007



O Banquete Anual
(história 55 do Anoitecer ao Tom Dela)


1
Entramos tarde na sala onde o banquete anual vai já no terceiro prato, somos olhados de baixo pelo proletário desdém dos bandejas mal pagos e bem fodidos, cumprimentamos pressurosamente à esquerda e à direita, alegamos uma indisposição mental do padrasto dos nossos filhos, não queremos incomodar (nós nunca queremos incomodar), tomamos assento para ingestão da sopa arrefecida e passamos logo ao pudim, saltando pela carne assada como cães por vinha vindimada.

2
Isso no seu decote são estrelinhas colantes, pois não são, minha senhora? Ficam-lhe muito bem, as estrelas: ajudarão talvez ao firmamento dos peitos, pois não ajudarão? Gosto de estrelinhas, senhora, até das de massa na canja das ressacas. Gosto, gosto.

3
Um dia que eu não venha com a minha senhora, minha senhora, sairemos talvez a comer um bife antecipado de mariscos e maioneses, depois a dançar nalgum nostalgiabar e a tomar um cremuísque ouvindo Richard Clayderman e Paul Anka e Peter Allen, um dia destes, uma dessas noites. Ou não. A senhora depois me dirá.

4
Pessoas como nós são pessoas como toda a gente. De vez em quando, num banquete assim, é-nos possível perceber quão iguais, que não fraternos nem fraternais embora, somos. É talvez bom que assim seja, mas eu não sei. Como toda a gente, percebo pouco disto de ser gente.

5
A minha senhora é que gosta muito destas comezainas brilhantes. Gosta de insinuar-se aos chefes, mesmo que de apenas secção. Secção com cê e cê cedilha, não com xis, atenção.

6
Sermos convidados para o banquete é sempre bom. Mesmo que só nos convidem à última hora, para substituir alguém mais acima que não pôde vir cá abaixo. Mesmo assim, é bom. Pela hora dos digestivos e dos cubanos, já nem nos lembramos, a minha senhora e eu, da nossa condição de suplentes. Ora ainda bem que nos não lembramos: esquecer é uma ciência.

7
Sim, eu sei, é verdade – já não há empregos para toda a vida. Não sou anjinho. Agora, o que há, é toda a vida à procura de emprego. Também é por isso que vou batendo a bolinha baixo. Muito baixo, muito bolinha, muito baixinha. Também nem o meu feitio dava p’ra mais. Sempre gostei muito, aliás, de cumprimentar pressurosamente. E a minha senhora também.

8
Eu e a minha senhora, é como se tivéssemos nascido um para o outro, depois dos divórcios. Em casa, o chefe de secção é ela. Ela franze o sobrolho e eu visto o pulôver amarelo-pintainho. Não gosto da cor, mas também não vou armar barraca e dormir ao campismo por causa disso. No escritório, até já me disseram que me assenta bem, o pintainho. A cor, quero dizer.

9
Sim, claro, vamos sempre ao Algarve. Antigamente, antes do euro, até éramos quinze dias. Bons tempos. Estava lá toda a gente do escritório, chefes e tudo. Agora, só vamos lá quando há fim-de-semana alargado. E só no Inverno. Mas vamos sempre, lá isso.

10
Um conhecido meu teve de ir, aos 52 anos, para uma quinta de criação de porcos na Holanda. Ou no Sul de França. Mandou umas bocas no emprego por causa das horas extraordinárias – e pronto, rua. Também nunca aceitava um convite para o banquete. Penso muito nele, quando às vezes os chefes fazem má cara. E eles fazem sempre má cara. Só lhes passa a má cara nos banquetes, mas para isso a minha senhora ajuda. Ora ainda bem, não podemos passar a vida com medo ou maldispostos ou na Holanda.

Caramulo, manhã e tarde de 24 de Janeiro de 2007



Arquivo de Morcegos e Mariposas
(história 56 do Anoitecer ao Tom Dela)


1
Nós ouvimos tiros na noite, todas as noites. Só que sabemos perfeitamente que não são tiros. São almas que estoiram contra a cal da igreja, morcegos psíquicos que revoam aos milhares depois de ter abandonado os casulos dos defuntos. Aqui na aldeia, estamos habituados e cientes. Quem vem de fora e pernoita, é que pode estranhar. Quando, de manhã, nos perguntam dos disparos, respondemos sempre que é um homem que enlouqueceu na guerra colonial, que ele ainda guarda granadas patrióticas, que as rebenta nas vinhas contra negros e javalis.

2
As nossas criancinhas já nascem cientes e habituadas aos morcegos, aos tiros. Também é verdade que nascem poucas. Quem nasce muito, são os morcegos. Um só casulo dá mais de mil. No Verão, temos de estudar por fora a igreja. O bombardeamento mental é constante.

3
O senhor padre aumenta os arquivos caligráficos da paróquia. Ele atende os corpos e os espíritos. É o trabalho dele. À tardinha, na taberna, por vezes, ele chega e senta-se. Toma um anis e conta: fulano de tal, tantos morcegos; fulana assim-assim, tantas mariposas. Todas as almas são voadoras, ao contrário dos corpos.

4
Manhã cedo, rasgamos os campos. Influenciamos a água e o estrume para que estudem hortaliças, leite, carne. Sacamos peixe miúdo do ribeiro. Aproveitamos a luz conforme o céu que nos amanhece. Duramos os anos necessários. Depois, vamo-nos vergando como se respondêssemos ao chão. Já os morcegos nos habitam.

5
O que fizemos, o que não fizemos. A temperatura do pensamento. As ínsuas aguardando o nosso desaparecimento. Nós, juntando de dia a lenha que nos perdoa o anoitecermos tanto. A esmola para o santo. O anis do senhor padre e as almas registadas, uma a uma, por cada milheiro de morcegos. Morcegos e mariposas.

6
Já se sabe: nada há mais veloz do que a alegria física, a ginástica das glândulas, o incandescente território da mocidade. A lentidão chega depois. Abóboras povoam os telhados com sua caspa de pevides. Da chaminé, o fumo anila o céu peremptório de mais, espiritual de mais para nosso consumo. As pessoas expostas são para consumo da terra.

7
As casas vão sangrando gente. Chegam alguns holandeses fartos de Amesterdão e da vida americana da Holanda. Querem morar aqui – e moram. Plantam flores e cebolas. Deixam-se estar. Também já se habituaram aos tiros nocturnos. Respeitam mas não acreditam. O senhor padre fala com eles de pintura flamenga. Nós, não.

8
O melhor é pelos Santos. É quando aturdimos a noite com foguetório, assados de peixe, jorros de vinho e cestos de pão e fruta e amêndoas de açúcar. Há tremoços e electricidade. Fazemos filhos por essa altura, mas muito menos do que fazíamos dantes.

9
Nós nunca amámos. Só gostamos ou não gostamos. Conhecemos os trilhos que a terra abre para depois fechar em pedra, água e sombra. Nós estamos vivos como pedras molhadas. É de noite que o ribeiro se desvia. Fervilham então, olímpicos, os morcegos. Os morcegos e as mariposas.

10
É como quem vive junto à linha do comboio: só se acorda quando o comboio não passa à hora certa. Receamos que, uma noite, não haja tiros. Isso será quando mais ninguém tiver morrido. O mesmo que ninguém ter nascido.

Caramulo, tarde de 25 de Janeiro de 2007



Trinta e Nove Outros Poemas de Janeiro

1 Contravisão

As costas dos homens que vêem televisão contra a memória.
E de peito para o olvido horário das emissões com
descontrolo remoto. Re-morto. Sua – deles – ou não
só deles – anestesia. Pior merda poderosa que alguma
vez veio ao mundo: a telecegueira. Perdão: visão. So they say.

2 Peitopombo

Os cornos que ainda não parti a quem os tem
inteiros: antes que a quilha do peitopombo me
fraqueje, convém proceder a tal desidério.
Bem menos fútil, aliás, que sério.

3 Bochecha

Nunca admiti a covardia. Uma vez, levei uma
chapada na bochecha. Proveio a parte manual
da história de um gajo que já lá está. Era
grande de largura e altura. Eu teria respondido.
Respondi com palavras. Ele não sabia ouvir.
Se eu chegar a exumá-lo, não falo. Bato-lhe.
Só que um esqueleto não tem bochechas.

4 Aldeia Irredutível

A vida perdoa-me. Os sonhos, não. Sonho que o
Tom Waits se faz à minha mulher. Fico cabisbaixo.
Fico lapisbaixo. Não fico. Acordo. Depois, recordo,
por pura conveniência bibliómana, o ensinamento
de Júlio César a propósito daquilo que depois foi
França:
Gallia omnis divisa est in partes tres
. Ai sim? Então, não os percas, Gália. Nunca.
Nunca, nunca, nunca mais.

5 O Amor das Pessoas Pode só Acontecer aos Outros

Nunca me tinha dado para isto.
Deu-me para chocolates, na infância,
depois para livros, na distância,
depois para jimantónios, na estância
– mas para isto, nunca.

Há sempre histórias de dinheiro,
(m)her(d)ancas e morgadios.
Casa-com-casa, apartamento-barlavento,
asa-com-asa.
Mas isto não – nunca me tinha dado.

Pode acontecer, no entanto.

6 A Covardia dos Sonhos

Nos sonhos, é que foi.
Aguadilha na boca-memória de manhã.
Um rasto de torpezas.
Queres o quê no dia?
Não.
Dizes o quê no dia?
Vê os teus farrapos: os teus sonhos:
nunca bates em ninguém.
Nem amas?
Caraças, pá, caraças.

7 Soneto das Hermesetas

A pessoa doce contra a tua diabetes.
O teu hábito de morrer não confirmado.
Registo de polícias e cassetetes.
A fuga de sextassábad’ a ouvir o fado.

Três 4 repelões t’ acompanhavam.
Entrou-se, sim, no Terreiro da Erva.
Pelo que foi depois, não no esperavam.
Escadas eram descidas de Minerva.

Já fui, já vi, já deixei marca.
Não é coisa qu’ oje me seja estranha.
Noé, a Pomba, o Ramo, a Arca.
E o cu mais quem no cu apanha.

Se digo saudades, saudades digo e digo bem.
Que eu sou filho de pai, filho de mãe.

8 Mais Devagar

Frequentei antes e depois do verso
a Nau dos Corvos. Mais Nau era,
cervejaria, que Torre. Manuel
fritava, em porcina banha, o
fraco estilete de bifana.
Álvaro presidia, atento aos afogados da noite,
mas nem sempre.
Foi ao meu muito sempre.
Eu tinha uma dor.
Eu tinha uma incompreensão.
Eu não saí disso.
Eu estou nisso.
Eu tenho uma armação excessiva.
Eu tenho de escrever mais devagar.

Devagar.

Vou-te dizer.

Vou dizer-te.

Barra de azu’lamento na casa-modelo.
Imitação do agricultor de trigo.
Carta, linha, cópia, selo.
Não vás embora: sê pessoa amiga.

Trincham carnes pressurosas
brancas cozinheiras francas.
Suas conas? Olor de rosas.
Sofrem de reticênci’ ancas.

Oh não.
Agora, não.
Não vou lembrar-me do meu cristo
junto à electricidade.
Não vou.
Vou mais devagar.

9 Diz-me

Diz-me como foi.
S’ ele era diferente.
Não de mim, mas de ti.
S’ ele era diferente.
S’ ele era gente.
S’ ele não m’ era.
Outon’inver’ão, primavera.
Os anos.
A loucura de Virginia Woolf
maila paciência do marido dela, L.
Diz-me como foi.
Ele (L) era eu, tu eras ela?

10 Círculo de Leitores

Tenho só o terror das pequeninas.
É como se me entrasse (X2)
a gata na memória.
Eu tenho, mas não tenho,
história.

Poemas 1 a 10 – Caramulo, noite de 10 de Janeiro de 2007




11 Ida

Quando eu volto a ir-te
não sou eu
é a memória
de alguém
que foi
a alguém
que não estava
afinal
de modo
que
não foi
nem
fui.

Caramulo, noite de 11 de Janeiro de 2007



12 Sextilha

Já nem comigo exerço telepatia.
Apouca-me até a distância
entre ânsia e desejado.
É uma tarde cor de carta.
Rumorosa, adeja, farta,
líbana cor do cedro-dia.

13 Despesa

Um quartilho de mágoa mineral.
Uma chávena de chuva.
O pão do rosto.

14 Darwin

O povo mais estúpido da Terra é dono da Terra.

15 Noruega

O seco amor é para bacalhoar em armazém.

16 Camone

You shall not fear poverty
for every face’s worth a moon
rather than six pence.

17 Volta

– Descafeinado com adoçante – diz o homem adocicado de maneiras à gentil rapariga do bar. – E rebuçados de laranja cor-de-laranja – acrescenta.
– Tem aqui uma despesa de ontem para pagar – sussurra gentilmente a rapariga.
– Qual despesa? – quase protesta o dócil.
– Volte ao poema 13, se faz favor – fecha a rapariga.

Poemas 12 a 17 – Caramulo, tarde de 14 de Janeiro de 2007



18 O Pianista

Acho-me como o pianista de hotel:
sei ler música, mas toco de cor.
Riscos de tinta preta e papel branco:
todas as noites, perante sofás mais atentos
que fugazes hóspedes executivos e
rameiras de luxo que estudaram
filosofia noutra vida, no outro mundo
além-hotel.
Toco enquanto me pagarem.
Quando deixarem de me pagar,
pagarei para tocar.

19 Águas do Caramulo

Ribeiritos não passíveis de geografia idiomam
as terras descensoras, línguas só de água
falando os códigos mais sensatos do Tempo.
Nem no Estio aquecem. Vertebram gelatinas:
plantas que reflectem plantas ondulatórias.
São vaginas serpentinas, os ribeiritos.
Ásperos púbis e rugosas virilhas
(mato, pedra)
os contextuam. Consulto-os sempre: do Tempo,
da Não-Duração, da Passagem, do Perigo dos Telefonemas
Funerários.
As cidades conseguiram sufocar sua linguagem,
não aqui.
Quando chove, desce o céu harpas
que faremos ressoar com olhos aprendizes
de ribeiritos.
Então, escurece o parque, rumoreja euforias.
Bicharocos burburinham pelos espelhos.
Uma raposa preta no cocuruto de uma árvore.
Uma pássaro que come carne de pássaro.
Ao lado da paragem da camioneta de carreira,
outro ribeirito de gasosa fervilhadora vida.
Limos limam segundos, décadas.
Corcovam-se as madeiras das casas de madeira.
Fungam os fungos. Um verniz de gelo
imita unhas aposentadas, nos lares terminais.
Peripatética ubiquidade das águas correntes,
como nos reclamos das pensões de quartos
ao dia, à semana, ao mês, à década, à noite
– e às meias-horas, mas toca a
despachar.
Vedor mínimo de minhas pianistas águas,
também riberejo por aí e
por enquanto.



20 Toque Tocado

(para o Carlos Guerreiro,
Gaiteiro de Lisboa)


Toca toca toca
Toca o teu burrinho
Tinha minha minhoca
Coca no saquinho
Badala badalhoca
Troca o teu burrinho
Soca soca soca
Soca tamanquinho
No Minho Trás-os-Montes
Bebo em todas as fontes
Na Beira Litoral
Poucos bem e muitos mal
Toca toca toca
Toca Zé Povinho
A galinha choca
Penoso pintainho
Ó anorexia
Da tia e da princesa
Arquiviva bulimia
Beleza é magreza
Sempre-em-pé Zé Povinho
Se cais nunca cascais
Com sintras de azevinho
Se estorilam natais
Carnavais torres vedras
Meu brasil brasileiro
Povo feito de pedras
Só sonha ser pedreiro
Só sonha ser servente
Prègar às argamassas
Nunca sonha ser gente
Nem povo c’um caraças
Toca toca toca
Toca meu burrinho
Pulga estafilococa
Heroa no saquinho
Alentejo Algarve
Galiza de Marrocos
A galinha alarve
Já compra os ovos chocos
No telejornal
Europa pingo doce
Mas quem foi que trouxe
A Europa a Portugal
A tropa ao quintal
A OPA ao telegal
A sopa ao comensal
A roupa ao Stendhal
Vermelho e negro
Negro e vermelho
Negro o joelho
O preto é negro
Damão Diu e Goa
Sacavém Lixa e Lisboa
Toca toca toca
Toca meu burrinho
Sacode a minhoca
Faz xixi baixinho
Ao toque desta caixa
Feita de pele de burrinho
Anuncio pela baixa
Paraísos do altinho
Sai a Carmo
C’o Trindade
Vão os dois a ouvir fado
Vou parar que estou cansado
Toca toca toca
Toca toca está tocado.

Poemas 18 a 20 – Caramulo, tarde de 15 de Janeiro de 2007




21 Os Meninos

Das trevas nasceterás.
Isso convindo – sempre – e para.
Os meninos vão nascendo.
Ninguém os pára.

Ninguém os ama como tu.
Até Tróia é várias – a
mesma – enterradas.
(Depois queixam-se das pornomitografias.)

Os meninos são natatórios.
É o que mais custa, aliás – amá-los
em monção.
Um dia destes, vamos ter de numerá-los
como os franceses dos documentários
fazem aos golfinhos.

22 Xan Pó

Sei lá eu
Sei lá sei não
Cebola sabe a Ceilão
Lanka lança manca laça
De Mombaça a Sião
E sôbolos rios vão
Mesmas larmas larvas são
Pa’ larvas palavras são
Sôbolos rios se vão
Chorava a Dinamene
Nem com caspa nem pantene.

23 Fado Cortesão

(para o Paulo Cortesão,
Fadista de Coimbra)


A delicada desgraça
dá-se a si mesma passada
Nada faz quem nunca passa
de graça a desgraçada

Sente quem tem de sentir
vir nunca vem pode ir
Desgraça tão delicada
passa que passa e mais nada.

24 Canso Net

Zinga linga pinga pinga
Do telhado do’ studante
Um gato faz de coringa
Tinga pinga adiante

Ovo ’strelado não faz
Só banha de porc’ a ’rder
Se tiver pois tem de ser
Só será se for capaz

Só terá tendo de ser
Serenando meu rapaz
Minha filha a crescer
Cabana do Pai Tomás

Minha filha Crusoe
Minha filha Robinson
Dumas que não são mas é
Problemas com o som

Edmondo Coração
Fruto do Fruto Real
É pobre a tradição
Pobre nosso Portugal

Vinha Lorde Monte Cristo
Armado em zero7
Minha tia – vem ver isto
– Vem ver isto Graciete

Tão trist’ é ser lusitano
Hóquei porra contra o Franco
Mais porra ser catalano
Ser maneta e ser manco

Do tudo qu’ aqui se disse
Descontai as minhas filhas
E contai à Rosa Alice
Qu’ elas são ’mas maravilhas.

Poemas 21 a 24 – Caramulo, noite de 16 de Janeiro de 2007



25 Soneto Cortado ao Verso Oito

Da minha aldeia o senhor enlouquecido
olha a minha roupa pensativo
parece ser meio morto meio vivo
da minha aldeia o senhor pensativo.

Já nem tristeza passa o senhor
desse cabo passou além o Bojador
da minha pensativa aldeia o senhor
parece meio ser morto e vivo.

Caramulo, noite de 17 de Janeiro de 2007





26 Lucidez

De tua mínima maneira de falar
falarás, ouvindo-te a própria voz
que calarás, ouvindo-a.

Caramulo, noite de 20 de Janeiro de 2007





27 Se uma Boca, Certa Noite, ou Duas

Pode a tua boca de todos os dias
amar, noutra boca, uma noite?
Pernas magras, magras canelas,
longitudinam o avanço da boca
na noite deitada a outro corpo.
Filhas de quem? Digo: as bocas:
amaram-se deveras, alguma vez,
os pais destas pernas, destas bocas?
E tu? Amacansas? Fodespensas?
Orgasmamas?
Esticas teus tendões eléctricos
no preênsil afluxo de sangue
aos erécteis tecidos – sei. E sei que tu
fá-lo, falo, devidamente.
Quê?
A vida mente avidamente?
Então como?
Bebo então?
Recebo da plana lisura –
fêmeo liso um desnudo coração?
Fissura: pontaria e loucura.
Mansa a segunda, brava a primeira.
Robin Hood.
Represo leite açude.
Investida,
investimento.
Marra-corno-preto-aguento,
unguento. Banha-
-se a cobra feirante.
Quanta mercearia cheira
a partir de
um homem
cravado como Jesus
contra as costas de uma cruz
– de uma mulher?
Liga.
Estabelece.
Ilumina.
Esclarece.
Senhor João da Terra Pouca
cavalga Irene, dita louca.
Fende colinas.
Separa joelhos.
Raposos vermelhos
aleijam meninas.
(Conheceram-se num bar de solteiros. O barman, interessado, ouve relatórios que pós-sussurra aos ofícios judiciários. Relatórios e judiciários rimam entre si, mas em outro prontuário versilibrista. Atenção ao que resta das bocas.)
João.
Irene.
Boca.
Boca.
Agora não me convém.
E depois.
Não sei.
Bem.
E vão duas.
Nos bairros novos, saem dos zero-tês
os pais desquitados.
Bocas desbocadas.
Coitados. Coitadas.



28 Sérgio que Amanhece (II)

Rapariga lavada desce à rua
Mastiga chuva como fora chiclete
Noite é nela se mete
Nela se intromete bela e nua
Que a rua
Sua de arame como biciclete
Já tem poupanças cofradas no banco
Andanças também tem e no entanto
Ao sol-nascer já pôs
Algum rouge e arroz
Que entretanto
Sem espanto
Se torna canto canta toda nua
A vida quem na tem chama-lhe sua
Há vida ávida em qualquer rua
Eu já nasci não sei se nascerei
Nascido lavo a rapariga nua.



29 Boletim, Enquanto

Do claro dia no planeta
Ao menos do que isso nos chega
Diremos – formoso dia!
Diremos – enquanto for.
Enquanto formos.
Enquanto formosos.



30 Nesciência

O casal vivia ao cimo das escadas.
Eu sei que ele bebia e que ela costurava.
A casa era húmida e até molhava
os passados dias e as noites passadas.

Passado o dia, ela esperava
por ele que não vinha e tardava.
Tiveram um só filho, o que bastava.
A casa era húmida e até m' olhava.

Água descia da vida-casamento,
anos eram 70, se tentam, se tento:
boca-de-sino, largo no momento,
copular er’ apenas aquecimento.

O casal vivia e viveu e vive.
Que eu saiba, ainda não morreu.
Eu digo o que foi, o q’ era e o q’ é.
Inda muito digo eu.



31 A Mãe Ultima-se

A mãe ultima-se
e despede-se com guisados
perfuma-se e abaixa-se e acima-se
canta bons boleros e bons fados.
A mãe foi fenda, foi coisada.
A mãe é mãe solteira,
a mãe não é nada.
A mãe está à nossa beira.
A mãe é atenta e obrigada.

Poemas 27 a 31 – Caramulo, noite de 21 de Janeiro de 2007



32 E.U.V.

Amam antes os amantes
o mesmo amor que é fogueira.
À beira queimam de gead’ instantes,
queimam sós-ígneos a serra inteira.

Das cinzas, restarão filhos, talvez.
Um amor, era uma vez.

Caramulo, noite de 22 de Janeiro de 2007



33 O Rosto do Meu Pai

Como outros pensam em viagens a fazer que não farão,
penso eu no teu rosto.
Penso eu no teu rosto esclarecido
pela marca-de-água do olhar.
Já não és homem nem mulher:
mas um rosto apenas – lua e moeda e
pele de lagoa.
Freática te murmura, rosto, a interior memória.
Tenho muita pena do teu rosto civil,
muita pena dos teus olhos orais
ensombrados pela mágoa carbuncular
dos mortos.
Eu ainda aqui estou e ando,
na margem de cá do teu rosto.
Vejo documentários framejados
a partir dele, de ti: tinhas 19 anos
quando rebentou a Guerra Civil de Espanha,
22 quando a Alemanha entrou pela Polónia adentro,
46 quando mataram o Kennedy e
8 anos e sete meses quando Rilke escreve,
em carta a Witold von Hulewicz, que
a Morte é apenas
o lado da Vida que não está voltado para
nós e que nós não iluminamos
”.
Oh sim, a beleza do teu rosto mouro,
preto, lábil, tenso, refractário,
parabólico, enxertado, abrunheiro e santo.
Oh não, a tua mortenvida, a particularidade
estacionada de tuas sombras, a pólvora
de teus irmãos rodando no carrossel da tuberculose.
Quinto de nove, pai de sete, rosto tão só
e tão, afinal, multitudinário.
Decerto boa fremente piça
quando homem.
Não homem hoje já
nem mulher,
rosto apenas,
resto apenas,
apenas rasto.
Trabalho, se queres saber, para o mesmo:
para ter sido Pai,
em lugar de apenas pai.
Não outro amor me defere tanto a respiração,
no caso de quereres saber.
Queimo a água com lápis-fósforo.
Eu tenho dias.
Eu estou por anos.
A minha importância é ter ficha (paga) no dentista.
E ser versilibrista,
rata acrobata que não vive nem mata.
Rosto: da infância só reclamo o que a ti amo.
Revisita, porra!, comigo: o tinir
dos azulejos, a mufla, o Hoss do Bonanza,
o teu terror de que um dia eu fumasse uma ganza.
Deixemos isto.
É de tarde, é Janeiro, está frio.
Só te sobra um irmão. O Serafim. É meu tio.

Caramulo, tarde de 23 de Janeiro de 2007



34 Caderneta

Quem terá p’ra tudo isto troco
que não seja pouco prà nota dada?
A vida – eu digo – mas, trocada,
val’ a nota ‘ma coisa de nada.

Triste comércio: aos 50
anos ou menos temos cromos,
colecçõezitas de somenos
estampam ainda – somos, fomos.

Colo nas costas com farinha:
jogadores findos, vida minha.



35 Dúvida do Iletrado Integrado na União Europeia

Na cidade, verdade, inda perdoo.
Assassínio agrícola é que não.
No sangue lisboeta inda voo.
N’ aldeia, serventia dá paixão.

Calçam botas de borracha e tossem
cuspos-ranhos de mau mortalhabaco.
Sopam horas tristes e estremecem
da medula símiamesclademacaco.

Eles são tão portugueses, eles são
nacionais como nós, ah pois isso são.
Casaram com formandas da CEE,
mas saberão jamais o qu’ isso é.

Então? Voltas p’ra casa?
Eu não vim c’ o grão na casa,
sou ora marido europeu.

Quê? Dizes que te vais embora?
Qual o século, qual a hora?
Meu pai, s’ ela vai, atão e eu?



36 Terceiro

Os fundamentos da cultura portuguesa
são
o senhor Luís de Camões,
o senhor Fernando Pessoa
e o senhor Nicolau Breyner.
Os fundamentos de Portugal,
com ou sem cultura,
são
o senhor Luís de Camões,
o senhor Fernando Pessoa
e o senhor Nicolau Breyner.
Menos o primeiro e o segundo.

O Portugal verdadeiro é o terceiro.



37 Fado Adelino Veiga

Senhor Adelino Veiga
Conserte o meu guarda-chuva
Chusma operária meiga
Mão magra fraca sem luva.

Morriam aos 30 anos
Nem enganos desenganos
Senhor Adelino Veiga
A memória não é meiga.

Poemas 34 a 37 – Caramulo, noite de 23 de Janeiro de 2007



38 (N)Ever Song

She told me
“This is good stuff”.
I was aware it was.
I was aware of her.
Down along the seashore
I’ve been living on awareness.
And on bread, and vegetables.
Been acting well.
Not afraid, not anymore.
Her eyes were clear as sea-
-Wolves-waves.
Scent of dawn, she was,
Four times, I mean.
She was not in the mood for
Big fancy hotels.
“A cheap motel’s gonna work alright”,
She said.
A crevasse her heart was,
That I promise you.
Four times I dawned,
Her being my seashore,
My plastic shell,
Not sleeping but feeding
Ghost-babies,
Well,
The ones I would (n)ever would.
Lonesome lights aside.
Yester heart of mine,
Yester nights we are
Now.
Round the corner,
Not so fast
(I do beg you/her)
Your/hers past time.
A river does flow: no still waters
Will embrace us.
Darkly it flows
Wherever it goes.
Burnt hair, a cut:
A mouth: the whole of a
Face.
I gave her the stuff.
She welcomed it, not
Me, and she
Went away,
She did.
Good stuff’s always for
Real.




39 Fado para a Estrada

Do que há-de vir não diremos
Menos nunca que dissemos
Mais ou menos que calámos
Lenha ardida quanta foi
Dor que doeu e que dói
A vida quanta queimámos.

Estradas riscadas a dedo
Do viver o maior medo
É não ter feito a estrada
É sentir sem sentimento
E pensar sem pensamento
Perder tudo sem ter nada.

(É não ter feito a estrada
É sentir sem sentimento
E pensar sem pensamento
Perder tudo sem ter nada.)

Poemas 38 e 39 – Caramulo, noite de 25 de Janeiro de 2007

1 comment:

Anonymous said...

Foda-se daniel! não quero colocar-me numa posição de editor, não percebo nada disto, escreves que te desunhas, citas quem nem sei que existe, mas foi uma visita casual e um momento solitário como os espaços dos blogs. Do que li, gostei muito. não sei porquê. Tambem tive 15 anos quando o sueco andou a fotografar eléctricos em coimbra. 1 abraço, daniel. Carlos Osorio.