Thursday, January 18, 2007

Histórias 49 e 50 do Anoitecer ao Tom Dela

49 Delicadeza

1
Nasceu português, mas, com 34 anos de estrangeiro, até isso passa. Dobrou aço em alturas arranha-cénicas de ínsua nova-iorquina. Foi padeiro suplente em bairros brônquicos que continuam na mesma, ou pior, depois do nainileva-zío. Foi para os setéites com 29 anos. Tem 63. É explorador de um cubículo de delicatessen numa rua escura, por mais iluminada de candeeiros fixos e sirenes tinónim de bluscápes. A rua chama-se (H)Ill Street.

2
Vende de tudo, desde que seja em plástico. Charutos cubanos de Mãe-ame. Frango frito do Quente-uque. Rodelas hamburguesas da primeira tradução portuguesa do Steinbeck de In Dubious Battle. Está para lá do balcão pequenino. Conta dólares e espera não levar um tiro branco de algum negro.

3
Nem todos os negros são pretos. Já há mexicanos para alguma falta de stock. Sobretudo desde que o Novo México se tornou num velho mundo. E chinocas. A Amérdica chainataunizou-se de donos olhos-fendas de papelarias e incensos com ancestrais datados da construção do mapa ferroviário do Oeste.

4
Ele por acaso até é dos Açores, uma espécie de Madeira mas em mais bocados. Ele não estava bem lá. Deu-lhe duro. A neve não é a mesma, talvez por isso lá caia, que não aqui. Ele fez sempre o mesmo: quando via couves, comprava couves. Depois, porém, hamburguesou-se. Ganhou dólares. Foi esperto.

5
E assim foi que os marinheiros portugueses, toxicodependentes de canela e de carne de porco salgada, se atiraram ao escorbútico anonimato de rodapé das modernas historiografias ilustradas que tão bem ficam na estante da sala, em escolta do filho universitário tipo-passe. Só que ele não teve filhos.

6
Ele não teve filhos, mas tem uma loja de delicatessen. Poupou, investiu, falhou, repetiu. Ele é açoriano. Portuguese – so they say. A emigração lusitana para as bidonvilles francesas são mais cercanas, mais hermanas, mais humanas e muito menos amerdicanas. Mas ele quer lá saber disso.

7
Esta noite, na rádio, a história dele vai sair em parágrafos de pirilampo vermelho-branco-azul. É mesmo aqui. São quatro da manhã no bairro-neibór. Um embuçado nota bem que hoje não ficou ninguém embuçado nesta sala. E entra de pistola. O lusamericano não gosta da história.

8
Podemos e devemos atalhar a própria História. O homem dos Açores dá os dólares, mas leva, na mesma, uns tiros de troco. Era um maço de cigarros. Bang. Um chocolate. Bang. Um coiso de dónates. Bang. Só faltam as marcas. Nestas histórias amerdicanas, há sempre marcas c’ os produtos. É de lei. É da grei.

9
O ex-português falece americano por hemorragia inconsútil. Vêm os do FBI. Vêm os do CSI. Vêm os da TVI. Partido, sim ou não? Genética, sim ou não? Explosão de gás em casa da mãe cega, sim ou não? Sim – e não.

10
Foi muito fácil inventar esta história. Havia um filho que ele tinha feito, mas que não reconheceu. Ou que fez e não conheceu. É uma questão de delicadeza. Ou de delicatessen: isto quando se vai para o estrangeiro, o melhor é aproximar palavras e afastar o resto.

Caramulo, tarde de 10 de Janeiro de 2007


50 Questionário

1
É verdade (sim, é um facto) que o País antigo se dividia entre Eça de Queiroz e Camilo Castelo Branco. Era, por assim dizer, o Benfica-Sporting da literatura. Hoje, a divisão nacional é entre a SIC e a TVI. Pergunto eu: de quantos países estamos a falar? É que do mesmo não é, de certeza absoluta.

2
Quando uma mulher morre solteira aos 94 anos, quem deve herdar a louça pequenina da sua vida toda? Os sobrinhos-netos ou o único namorado de uma memória única e apagada?

3
Será possível que alguém tenha acreditado a sério que a União Europeia seja realmente união? E realmente europeia? E sol na eira? E chuva no nabal?

4
O que é mais importante? A SIDA do continente africano ou a SIDA do continente europeu? Ou o que os Estados Unidos têm sido?

5
A corda que enforcou Sadam Hussein era de sisal, de nylon, de juta ou de escórias de alumínio? Ou era encomendada, registada e entregue com aviso de recepção na Casa pouco Branca?

6
Voltemos a Eça de Queiroz. O escritor casou-se tarde com uma senhora de alguns bens e conforme a conveniência social (de raison, dizia-se) da época. Deveria mesmo ter-se casado ou permanecido solteiro como Camões e Fernando Pessoa?

7
Voltemos a Camilo Castelo Branco. Quando se descobriu cego, o escritor matou-se com um tiro. Se estava cego, como é que acertou no gajo?

8
António Damásio, neurocientista português emigrado n’ Amérdica, garante que as emoções determinam a razão. Tem razão ou não? Ou por outro lado: António Damásio alguma vez chorou quando escrevia todos aqueles livros neurocientistas?

9
Esta é para concordar ou talvez não: acha que uma procissão é, ou não, um funeral tão repetido, que parece um baptizado de si mesma?

10
Se acertou nas anteriores questões, tem direito a um litro de azeite, a um quilo de bacalhau (mas do miúdo) e a um litro de feijão já demolhado. Se não acertou, diga Eça de Queiroz, que resulta. Ou então diga que António Damásio, efectivamente, se fartou de chorar. E que chorou por nós, País.

Caramulo, noite de 11 de Janeiro de 2007

3 comments:

hmbf said...

Daniel, esta produção em catadupa é do melhor que lhe li aqui até hoje.

daniel abrunheiro said...

a satisfação do cliente é o meu cachet...

Paula Raposo said...

Fiquei sem palavras, mais uma vez!