Thursday, January 18, 2007

Responso das Alminhas mais 8 Poemas Ímpios

1. Fundo

É-nos proibido o céu que vigia os antípodas.
Queixam-se do mesmo os da Nova Zelândia.
A cada ser humano restam três apenas dos quatro céus.
Para um ser humano é pouco tudo o que não seja tudo.
Eu sou humano.
Eu sou pouco.
Por isso, cada noite, amo mais as filhas e os animais:
antípodas que me coube aceitar, porém
sabendo que,
lá no fundo.



2. Nem

Foi penalty, não foi penalty.
Foi por mal, foi sem querer.
Foi-se embora, ‘ind’ aqui anda.
Não sei nem quero saber.




3. Temperatura

A minha Mãe ainda não morreu,
eu faço a barba,
são educadas as mulheres da limpeza,
fresco é o parque.
Comento o tempo:
são anos centígrados.



4. Casal

Ele trabalha em Braço de Prata,
fabrica metralhadoras ligeiras.
Ela é educadora de infância,
fabrica crianças ligeiras.



5. Questão de

Eu não,
mas o meu coração
está sempre no ginásio.
Feitios.



6. Registo

Só quando se tornam pais
nascem de facto as crianças.



7. Mediterrâneo

Oh as senhoras que podem
duas a duas embarcar
no mediazul no verditerrâneo
e que o fazem
de engraçados chapéus de palha
blusas de sangue de rosa
sandálias brancas
coninhas missionárias encerradas ao público
e nenhum compromisso
a não ser com o solicitador
dos defuntos maridos
que é para tanto que nascemos
nós os maridos oh.



8. Responso das Alminhas

Ia a ronda na palmeira
Responsando ao primeiro
Cão magrito diligeiro
Seguia na caudeleira

Moda antiga o responso
Às alminhas do além
Lá meu pai e tua mãe
E o Basílio e o Afonso

Nossos mortos inda são
Uma vez ao ano ou menos
Vivos perto e serenos
‘espertos sabem o refrão

– Ó mortinho quem lá é
Dá-nos lá o teu responso
– Sou Basílio sou José
Ó comadre sou Afonso


Deu te tenha bem seguro
Das estrelas pendurado
Tud’agora é seguro
Nunca nada foi passado

Assim fora ó comadre
Que no céu eu passo frio
Pague missa pague padre
Mate a quem m’aqui subiu

Faz-te de arrependido
Esquece aquilo que fizeste
Aqui passa por vivido
Aquilo q’aqui viveste

A cabeça é para a alma
O q’a pele é para o osso
E o salmo para a calma
E a garganta pró pescoço

– Ó mortinho quem lá é
Dá-nos lá o teu responso
– Sou Basílio sou José
Ó comadre sou Afonso





Caramulo, noite de 13 de Janeiro de 2007

1 comment:

Anonymous said...

fantástico!