Saturday, January 06, 2007

Personalgias Estadunidenses e Outros 14 Poemas

desenho: Fernando Campos

1. Dançações – um Tango para Abrir a Noite de Sexta-Feira

Tango circo comédia
muito acima da média
corpo magro alma nédia
casamento infeliz

Valsa samba de pobre
chá-chá-chá tique de nobre
corpo sob alma sobre
tira cacos do nariz
se a Lua à terra cobre
mete cacos no nariz

É tango é sexta-feira
fandango de bebedeira
demonstrar à terra inteira
estar vivo como se quis
menstruar troar regueira
malmequer quem me benquis

Valsa de fim-de-semana
senhor Chico da ti’ Ana
moranguito e banana
contentinho de petiz
flor coentro genciana
tira-mete no nariz

Tango circo comédia (…)



2. Personalgias Estadunidenses

Motéis de residência permanente.
Mais ou menos permanente, enfim.
Seis meses, oito.
Depois vão-se, outros os trocam, iguais.
Carros largos, latas vazias de cerveja
entre os bancos.
Um crucifixo retrovisor.
Alguns com armas, quase todos.
Espancamentos de sexta-feira-à-noite.
Ao primeiro lance, ao segundo relance,
algumas (duas, 3) belas mulheres.
Depois, menos belas – mas é o que há.
A esperança das onze da noite.
Ficar até quase cair.
Cair até quase ficar.
Levedura: leve e dura.
Bar das bombas, madrugada de sábado.
Cerveja sabendo a octanas.
Meninas e metanfetaminas.
Limagulhas, tangerinas.
Revistas, chocolates, latas chocas.
O put me on!
If you please, do!
O sangue cheio de varejeiras.
Os pianos mais eléctricos que os pontos de luz nas pupilas.
Tabaco calafetando as frinchas da respiração.
Avós, talvez, algures: tarde de maçã congelada, de estante.
Agora, roupas rotas de propósito.
Sandes de carne inidentificável.
A madame vestida de verdadeiro leopardo.
Fuma, leoparda, uma onça – bigodes
de gato comedor de peixe, de homens.
Todas as misturas.
Vrrrum vrrrum dos carros.
Asfalto e brita, não por esta ordem.
Putas com sotaque, desdenhosas:
chegaram primeiro os indústrias.
Porcelanas sanitárias, bebidas várias.
Alguns vieram ao Nevada pela primeira vez,
directamente provindos da Beira Baixa.
De Penamacor.
De New Bedford.
Têm filhas Angélicas, Cristianas, Fátimas, Maggies.
Pecam com cartão de crédito.
Põem o aro de cebola de lado,
quando hamburgam: por não confiarem na terra.
Acordam, contrariados, cedo.
E cedo é sábado, quase domingo.
Existem contra o plano telúrico
que Deus fez
para se esquecer da terra.
Mandam fritar ovos, bebem aguadilha de café.
Exportam a merda, a dor, o sismo nuclear,
a cientologia.
Sacam rápido: as próprias vísceras do coldre.
Morrei e multiplicai-vos: e eles,
se eles sabem tabuada, eles.
Não conhecem a mãe,
e no entanto
ela é a mais barata
das putas.
La habitación del motel
dispone de telefono: no tienes sino
llamar,
cabrón.



3. 968733721

A polpa de um dedo toca
carne do rio à flor da pele.
Contra ela a alma choca.
Choca ou não choca, Daniel?

Choca. E, ou limpa ou badalhoca,
choca contra a carne a pele.
A polpa de um dedo toca.
Toca, toca, Daniel.



4. Castelo de Manual de Escola Primária (caraças, outro soneto)

Ameias heróicas.
Bandarilhetes triangulares.
Gestas de greis as mais estóicas.
Távolas mui rectangulares.

Senhores de barbas, pendões de púbis.
Mediev’alt’antiguidade.
Q’ o cão d’ Artur se cham’ Anúbis.
Osso solar rói à vontade.

Nosso, nosso – Salazar.
Mail’ abóbora-menina:
Thomaz com zê,
duplo éle de Marcello,
o meu cão caga e é belo,
zelo tem ele no cagar.



5. Soneto das Fodas que dão Filhos


Estrago o poema talvez logo de início
se disser que desse toque de mornos pés
nasci eu mais seis e mil e dez
meus pais sulcando precipício.


Meu pai erecto. A mãe inchada.
Lábios de lábios, carne molhada.
Vieste cedo. Pois vim. É dada
lubritalcoisa a mais seivada.

Eles não deviam. Mas podiam,
a cama paga, fogão também.
Piça de pai, cona de mãe

dão filhos soltos, devastação.
Cada um feito é irmão.
Amor que se dá, irmão também.


6. Relatório em vez da Filha que não Vejo Crescer

Cheirarás morangos na perna de tábua do sofá.
Tua mãe ralhará, mas tu, depois de púbere,
perceberás.
Ai se tivesses sido rapaz.



7. Para Guardar em Ambiente Seco e ao Alcance das Crianças

As coisas maravilhosas antes de morrer.
(Devem incluir a própria maravilha de morrer.)
Eu digo – se isto não é maravilha,
que coisa é maravilha?
A menina sueca de 14 anos que quis
experimentar um português hirsuto na praia
portuguesa. Experimentou.
Era ácido e glúteo. Era uma dor sem caridade.
Vale a Segurança Social.
A lá deles, nórdicos.



8. Fernando Pratas – Convocatória para a Bola em Campo Pelado

Nunca te disse
– nem a homem algum –
que bonito eras.
Drogaste-te e foste preso – olha a ideia.
Paguei-te um fino tardio.
Mas comigo vivo és e sadio.



9. Rimanços Dísticos

Se alguma vez não fui filho de meu pai,
arre-foda-se-merda-e-ai.
Se não no fui de minha mãe,
idem-aspas-da-se-também.



10. União Europeia, agora com Bulgária e Roménia

No meu tempo, a Catalunha não era.
Era Espanha.
O Algarve, felizmente, também não era.
Foi Espanha, mas depois deixou-se disso.



11. Talho

Se me apodrece o pai,
fiambre mostro a minhas filhas. Carne fresca,
meninas.



12. Labor

Cagalhões porcinos mete minha mãe na sopa.
Sopa Maiúscula, Nutritiva.
Quem não tem frio, não tem roupa.
Quem não trabalha, vá p’ à’ stiva.



13. Rua – uma Aposta


Estamos toda a vida na nossa rua, se a
tivemos.
O Beto, o Mário, o Victor.
O Guilherme deu-se cabeleireiro,
António Variações sem cantar.
Bem.
Assaltam o minimercado da minha rua.
Roubam botijas.
No meu tempo, Salazar vigiava como
um cão católico.
Volto de vez quando à minha rua.
Volto de vez quando à minha vida.
Volto de vez quando à minha Mãe.
Uma das duas (3) desaparece não tarda nada.




14. Sossego das Filhas

Dorme, linda de sol-pôr
dorme, inerme ainda, meu amor
dorme antes q’ ande malefício
respirar, amor, é sacrifício

Tens avós, tua pele, teu segredo
teu creme de arroz, teu mete-medo
tua funda fenda puberdade
olha, telefona, tenho saudade

Aqui vai tudo bem, ele há arroz.
Minha vida própria ao mesmo corpo pôs.
Queria cá estar, não estou, mas dou
versos sexta-feira, olá, adeus.



15. Isso

Durmo contra a lucidez.
Sempre fiz isso.
Azeite tem grau de acidez.
Gordura taxa de chouriço.

A gente quer ir só a Paris.
Escócia não conta e no entanto.
Amor de mãe tatua pai.
Soma dos dois é esperanto.

Caramulo, noite de sexta-feira, 5 de Janeiro de 2007















3 comments:

Anonymous said...

Dois amores (escrita e desenhos). Definitivamente os dois.

Anonymous said...

sempre em boa companhia. abraço.s

Paula Raposo said...

Um belo desenho. As palavras cruéis, mas reais. A vida é mesmo isso!!