Tuesday, January 23, 2007

OVOS DE PATA EM AZEITE seguidos de 5 POEMAS P’RA MULHERES

0. Ovos de Pata em Azeite

Janeiro tem-me sido generoso. Não me interessa o vivido, mas o que dele ressuma em escrita. A vida é fragmentária, sobretudo quando – e sempre que – cotejada com a imperiosa integridade dos escritos. Esta mesma manhã (23 de Janeiro de 2007), fui visitado pela imagem dupla de a vida ser desgraciosa e trôpega como pata em terra. Mas, uma vez em água (em escrita, claro), quanta graça tem a penosa, verdade? Cuidado e atenção. Não me refiro a uma “qualidade” eventual dos escritos que de seguida acumulo perante a vossa complacência. Chiça! Nada disso. Refiro-me, tão-só, ao facto de haver textos. Sim: de haver possibilidade de resgatar à puta da vida estes seus/dela órfãos autónomos e orgulhosos, estes versos insensatos e fisdeputa, estas iluminações que não passam (eu sei) de ovos negros. De pata os ovos, naturalmente.
Dizer que passo a vida nisto – é infinitiva frase de beócio. Pois que o seja – passo a vida nisto. E quanto aos leitores? Existem? Isto é, estão vivos? Penso que sim. Atentemos a isto: a manhã (23) termina, um homem toca piano na televisão, os leitores procuram almoço como formigas. Faço de cigarra. Por antecipação, resgato para as formigas a babugem nutritiva do que me sucede por escrito. É um ínvio negócio – um estranho abastecimento – um obscuro contrato. Mas é, também, muito melhor do que a apenas-vida. Posso falar do último sonho, aqui há poucas horas. Uma das três filhas da senhora da mercearia planeava envenenar a mãe com azeite marado. Enquanto intoxicava o óleo de oliva, ia-me piscando o olho de pata: sabia do meu silêncio irredutível perante o que é vital. Lixou-se. Intervim, impedindo o matricídio. Como o fiz? Acordando – e escrevendo. Hoje, escrevi a partir de nomes de mulheres.



1. Sonetalgia do Solteiro que Vai ao Casino

Não cumpri, Lena, não, eu não
cumpri o desidério.
Entrego sandes e colas no necrotério,
da fé não fiz a procissão.

Casa-te, anda, eu percebo,
casa-te lá c’ o enfermeiro.
É sério e ganha, o mancebo,
muito mais, do que eu, dinheiro.

Ai Lena, Lena, antigamente,
quando a vida nos dava trégua
e outro d’ um, tão simplesmente,
potro com potra, cavalo & égua!

Eu fico aqui: à sexta-feira,
saio mais cedo, vou à Figueira.



2. Tu Ama-me Devagar, que Eu Tenho Artrose

Tu ama-me devagar, que eu tenho artrose,
ferrugem não é coisa que se goze,
oxidaram-me os anos até a alma.
Por isso, Cláudia, tu vai com calma,
sem apressar terás a dose,
mas devagar, que eu tenho artrose.



3. Transpira, Co(nspi)ração

Celeste, senhora, o teu marido
anda, não te parece?, desconfiado.
Ó puta que pariu o malparido,
carneira-me de morto, olha de lado.

Lanígero, no’ scritório, vai largando
um rasto de milcagazeitonetas.
Balir não vale, mas ele bale
– e ameaça facadas de operetas.

Desensanga-me o rosto, eu fico fulo
só de pensar que à noite, em casa tua,
ele tem direito (o merda!, o chulo!)
de num relance te topar branca e nua.

Minha tu és – e eu sou eu.
Tem d’ assim ser, Celestezinha:
matas o teu;
eu mato a minha.



4. Quadra do Penitente

Não te baste, Maria, a biologia.
Não t’ ela afaste, de mim, Maria.
Ouro e velas queimei, Maria,
por ti na Cova que é da Iria.



5. Glória com Mar

Do mar a tosse funda auscultando,
andei (e ando) em voga da memória.
História de entrepernas separando
quanto me fiz ao mar dentr’ a ti, Glória.

Teu olho esmeraldeiro, coralino,
farolava a boca rubiscente.
Nacarada luzia, cintilante,
cremosa dentição, cuspo de sono.

Mamosas meias-laranjas eu lembro,
alicantes torrões mamilolhando.
Não sei já s’ em Maio ou em Novembro,
glórias, Glória, eram, gotejando.

De tudo o que recordo, não acordo,
dormindo vou em transe amador.
Meu estibordo tu és e meu bombordo,
minha proa e convés: não és, amor?


Caramulo, manhã de 23 de Janeiro de 2007










5 comments:

Paula Raposo said...

Tenho que me repetir...gostei imenso!

Anonymous said...

E também isto é verdade!
Bravo,Daniel abrunheiro.

Paulo G. Trilho Prudencio said...

Ufa!!! ... e um sorriso :)

Anonymous said...

muito sério, demasiado sério e assim tristemente demasiado sério. sério demais... saúde

Anonymous said...

Meu amigo, desde quando te tornaste tão sério? E a amargura que transparece nas tuas palavras...Não deixes que ela te vença. Um beijinho