Thursday, January 18, 2007

Memória e Desejo - histª 51 do Anoitecer ao Tom Dela


Desenho: I, de Fernando Campos


1
Todos vivemos emparedados por memória e desejo. E não – os sériassassinos não são excepção. Temos os pulmões cheios de filmes-sonhos. Copos, pílulas, compras – tanta coisa nos serve para adiar a realidade. Versos, também. E histórias.

2
Sim: um dia – nem desejo nem memória. Ficamos como aquele senhor ali, que a família veste, lava, limpa, nutre e arrasta. Enquanto não, alguma música na noite. A paz solar da manhã na montanha.

3
Uma receita de sopa de tomate. Memória e desejo de uma sopa não são inferiores aos de um amor, um sexo, uma qualquer vitória de motel. E a vida como uma açorda voluntária, de anos esmagados previamente como alhos. Um rasto de coentros perfumando as pègadas da dor, no bosque das especiarias e das ervas-de-cheiro.

4
Antes que memória e desejo se percam de nós, todo o tempo é tempo de assistir do alto da falésia à película interminável do mar que chega sem ficar nem ir embora. Daí veremos em baixo os pássaros marinhos, suas costas musculadas de atletas do ar e do sal e dos dois azuis definitivos que não ficam nem vão embora.

5
Estarmos vivos não faz sentido. Mas sermos vivos, faz. Vivos e atentos, vivos e perscrutadores, vivos e ladrões de vidas. Faz sentido lembrar os vários futuros contra os vários passados. Fazer das palavras ditas e das que ficaram por dizer uma sopa tocada pela graça da lucidez.

6
Falei-vos daquele senhor ali. É agora o que sempre foi – um corpo. Ou seja: um punhado de escórias caídas de alguma estrela entretanto finita. Teimosa, a respiração dele faz ainda flamejar a couve-flor do saco pulmonar. Mas nenhum acesso britado de motel faz luzir estrela alguma no céu nublado do olhar dele.

7
Quase nunca precisamos de mais que um ou dois sentidos para sinalizar um facto. Não é necessária qualquer desordem divina para entendimento do caos humano. Uma sopa nova numa noite antiga. A teologia individual da madrugada. Ou palavra alguma, frase nenhuma.

8
À beira de um rio, umbrosos, comendo alface e laranjas temperadas pela água com sal da chuva, sentimos talvez que o Tempo é repetido pelo mesmo facto de, nem sempre chovendo, sempre acabar por chover. Até porque nunca é palavra nossa. Nela começa a eliminação da memória e o holocausto do desejo.

9
Sendo a morte certa, faz sentido esquecermos os futuros prensados em uma única tábua de lei e passarmos a adivinhar o passado, sentados à mesa da resignação com o baralho da tristeza. E da alegria, já agora.

10
Vamo-nos embora – e que acontece? Fora de nós, continuamos levantando paredes: as do desejo extinto como um vulcão imemorial. Esse canto do bosque, que foi negro e húmido como uma boca sulista. Esse apartamento na cidade, que foi provisório e poeirento como um museu. Essa falésia submarina, a que sobem os peixes voadores, onde ficam, onde não ficam.

Caramulo, tarde de 12 e noite de 13 de Janeiro de 2007

3 comments:

Paula Raposo said...

Excelentes as tuas palavras!

n said...

Que texto fabuloso! Parabéns.
Adorei encontrar este blog, mas sobretudo este texto, talvez porque na minha vida também tenha "um mar que chega sem ficar e não vai embora".

Luiz Hebeche said...

Escrevi um romance homônimo (Memória e Desejo) que, pelo jeito, tem algo a ver. Vejam site da Livraria Cultura. Saudações, Luiz Hebeche.