Thursday, February 24, 2011

Ideário de Coimbra - fragmentos das entradas 110 e 113


110. PRATO COM FRUTA EM BALCÃO

Coimbra, quarta-feira, 3 de Novembro de 2010

Hectares televisivos mostram a criação de ananás, tomilho, gado, cevada, tabaco, toranja. O olhar deriva ásias, áfricas, árcticos, atlântidas. É uma boa imaginação, no sentido de “produção de imagens”. A vidinha irrisória, académica, a vidinha minha. No problem. Passo à recolha de elementos gráficos do Dia:
- Assembleia da República (lepidópteros);
- Linguagem surda-muda (decotes senhoris);
- Partizan de Belgrado (dois são católicos);
- Aberto Alberto (poeta lírico, escrivão);
- Dois milhões de dólares esterlinos (Ch. Chaplin);
- Dor no joelho esquerdo (um par de botas castanhas);
- Corrupção generalizada (lata de atum, ovo cozido);
- Ruas de outros sítios que não Coimbra por onde a esta hora (9h18m) há-de ir e vir gente viva:
Rua de Coimbra (Aveiro), Largo de S. Francisco (Braga), Avenida da República (Matosinhos), Rua da Boavista (Porto), Praça do Almada (Póvoa de Varzim), Rua Nova de Santana (Viana do Castelo), Rua de Santo António (Vila Nova de Famalicão), Rua dos Combatentes da Grande Guerra (Vila Real), outra Avenida da República (Vila Nova de Gaia), Rua D. Francisco Alexandre Lobo (Viseu), Largo 5 de Outubro (Alcobaça), Avenida Dom Nunes Álvares Pereira (Almada), Rua Afonso de Albuquerque (Amadora), Praça da República (Caldas da Rainha), Passeio Carlos A. Teixeira e Largo de Camões (Cascais), Avenida Nuno Álvares (Castelo Branco), Rua da República (Figueira da Foz), Rua Batalha Reis (Guarda), Avenida Heróis de Angola (Leiria), Avenida Óscar Monteiro Torres (Lisboa), Avenida Dom Dinis (Odivelas), Avenida da Liberdade (Portalegre), Rua Serpa Pinto (Santarém), Avenida 5 de Outubro (Setúbal), Avenida General Humberto Delgado (Torres Vedras), Rua Serpa Pinto (Vila Franca de Xira), outra Avenida 5 de Outubro (Almancil), Rua de Mértola (Beja), Rua do Raimundo (Évora), Rua Vasco da Gama (Faro), Avenida 25 de Abril (Loulé), Rua Pé da Cruz (Portimão) e Avenida Arriaga (Funchal);
– Engenhoso e leve aparelho (genitália  própria);
– FA Cup (England, Colchester United);
– Woking Town (Sam Worrel, centrocampista);
– Doces & Salgados (Habanera de Cádiz);
– Dúvida razoável (filhos-da-puta em massa);
– Arroz de válvulas (Prato do Dia);
– Máquinas de engomar pastilhas (o Menino tem Tosse);
– e de novo a luz, a Gloriosa Luz de Coimbra apesar de Novembro ir já no 3.º dos seus, Dele, Trinta Dias (cristais perfumados e pluviais).

*

Não se sendo budista, é preciso recorrer à coragem ante a voragem dos dias, o canibalismo das noites e a demasiado rápida fulguração das manhãs.
Um prato com fruta sobre o balcão: que formosas jóias, caraças! Esfericidade planetária da laranja; o mamilo do limão; a dulcíssima sugestão fálica da banana; o arrazoado tumor do cacho de uvas; o beijo demorado e careca do pêssego; o rubor verde da lima em esfregaço de caipirinha; a sisudez bíblica da maçã; a pêra imitadora da silhueta da viola; o morango-boca-de-nastajsia-kinsky; a romã que te abre em segredo um rosário de rubis; o embrutecimento best-seller do melão; a nostalgia hípica da alfarroba; a caganeira certa como o Destino da ameixa; e os nossos filhos: frutos sumos da nossa vida afinal não tão geração-perdida quanto isso. Um prato com fruto sobre o balcão etc.

*

Toco devagar os teus parietais, a tua ácida
bonomia, espero que me esperes um pouco,
porém não sei se o comboio me guardará
lugar à passagem. Direitos de imagem
podem e devem ser tocados devagar
por quanto é atenta mão, na voragem rapidíssima.
Também célere é o coentro dos dias,
o almíscar mordido das punhetas
quando imaginadas as loiras senhoras mudas
que nos não amam senão com o
corpo.
É então que toco,
sem te já.

*

Isto com poemas, não vai lá, sabes.
É preciso arroz-de-frango-com-ervilhas.
Nos poemas, vá, ainda cabes.
Mas então e as filhas?

(...)
*

Há uma evidência (um fulgor) novilatino na língua da vendedeira de uvas, quase Outono. Procura este um demandador de ervas sombrias, molhadas e frias em plena Cidade. A Linha da Lousã brilha de inactivo ferro, é triste que não passe já a automotora pela tarde-noitinha de 1988. Agora a vida é mais à base de autocarros & bolos para tolos.
A minha fracção está correcta: é a de um homem. A incisão que te faço, também, é por igual correcta: trata-se de tratar bem seja não interessa quem.

*

(Aquela cativa…)

A pulcra beleza
da pueril infância
dá-nos mor distância
da nada certeza
de termos já sido
e não sermos mais
que uns quantos quais
têm perecido.

Velho verso veio
em mim renascer
que o que tem de ser
será/foi reverso
de uno universo
do mundo dum homem
velho que foi jovem
morrer de viver:

“Asas escritoras
do verso do vento”
que num só momento
são tão sedutoras
as gaivotas são
palavras de cal
céu de Portugal
vogais de cá dentro.

Ternas as florinhas
pelas pedras rompem
eu recordo d’ontem
as frescas noitinhas
e os Junhos vãos
que aos verões inflamam
homens são se amam
homens por irmãos.

Toca a minha face
dá d’água o recado
que se desvanece
o menor sentido
tenho-te mentido
tenho sido vão
não digas que não
qu’isso tenho sido.

“Asas escritoras”
etc.

*

Penso no desenho das parras, esses mapas cósmicos.
Penso no fluir geométrico das barbatanas dos peixes.
Redesenho na minha pele a maravilha espiralada
(ADN, Nebulosa, Número Fi) dos caracóis.
E de repente a minha vida tem duas luas
e outros tantos sóis.

(Orelhas translúcidas, nervosas, de coelho,
as folhas de parra rebrilham ao sol.
Passa-se à sombra, não se é nada,
mas a parra é, é-o o anil.)

113. TRANÇA DE AVÓ

Coimbra, segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

Um morrão de cinza molhada – o Dia. A Manhã queria chá, roupa adesiva, janela fechada, um livro que pensasse por mim. Dei-lhe café, um par de cigarros, um casaco robusto e Yourcenar. A Tarde rolou, digestiva, com a melancolia aos ombros, corvo do costume de há tantos anos. A Noite imporá as suas leis frias, o seu rolar de farolins, suas vergastadas eólicas nas ramagens, seus fechamentos compulsivos de putas e de poetas em pastelarias varridas à pressa por subassalariadas em pré-euforia de encerramento.

*

Meu Tempo, meu tempo,
débil, dúctil, fútil e flébil
Tempo o nosso,
Sol no osso,
chuva na carne.
Déspota, inóspita, cada jornada,
cada fornada, cada tudo-nada.
Mau tempo, nosso meu Tempo.

*

À mesa mais recôndita do Café, quatro doutores aposentados trocam palavras, que anoto e vos reporto: calcário, argila, estado geológico, varas de aço, António Pedro Romão, consistência das terras, também em Angola, Santarém, Figueira da Foz, Covilhã, Ornelas César, turismo, caloraça, Eduardo, saídas para a Pampilhosa da Serra, Penacova, Pombal, Portimão, antes do almoço de domingo tolerar isso, Vendas Novas, luto, divertimento, à chuva, Vieira do Minho, IP3, uma ponte feita de anéis, não a que foi remendada, na Espinheira isso fizeram e tudo estava pronto, o último pilar, o terreno, um buracão, uma gamela, Obras Públicas, Solum, Junta Autónoma das Estradas, património geológico do Mondego, Lamego, estar a escrever, um rio de pessoas, um buraco insondável, a porta de ferro, contrafortes, casa de xisto, confraria, lá em cima na Estrada Nova, deitaram abaixo o viaduto, caiado alentejano, barroco nortenho, preservação como se neste País não há miolos?, levantaram sem alternativa os carris da Linha da Lousã, comunicação entre o indivíduo e a estrutura, a Islândia, irresponsabilidade e irresponsabilização, trabalhos práticos, subsídios a torto e a direito, é o único país onde se paga a quem não trabalha, trabalho arquitectónico num plano independente, mete muita impressão, melhor compreensão da expressão, sobreiros, Lisboa, Lisnave, Viana do Castelo, Chaves, preferência nacional, amigos do Diabo, agora vêm aí os Chineses, paga quem manda e manda quem paga, muitas indústrias para compensar, em vez do 25 de Abril, a maior diarreia que aconteceu a este País, era menos pior (sic) antes, tudo o que fabricavam aqui tinha para onde ir, em Angola, eu não era nada contra a independência mas o que houve foi abandono, tão bom ou igual.
Ouço-os conversar, percebo sem dificuldade que todos nós, eu relator como eles quatro, somos gente que vai ser escoada pela Inefável Água través o Ralo do Destino. É quanto posso fazer: deixar de ninguém uma memória relatora e relativa, um inventário de Novembro, um nome sem corpo dentro como David ou Ana, Silva ou Gusmão, ou esperar uma mulher que me desse um ano de vida.

*

Pode ser que cheire a naftalina
quanto recordo do amor ou da infância.
Ou que o que se me destina
tenha mais cânfora do que importância.

Pode ser que guardar um pano equivalha
a trança de avó, a folha seca paginada.
A terra a quem a trabalha,
valha a terra embora um céu de nada.

*

Notas agora para um desagravo, aliás pueril, entre o que e quem amo & o que/quem antes pelo contrário:
– cós de calças & salões de bingo à segunda-feira;
– kispos pró-chuva & lápis-de-cor;
– caspa em ombros seborreicos & água-de-malvas;
– sevilhanas atléticas como peixeiras & pó-de-talco;
– baixa da comparticipação medicamentosa & José Cid;
– manhãs feirantes & noites de domingo; 
– atentados carbonários & doenças tropicais; 
– calculadoras científicas & Rip Kirby;
– empréstimos sem água dentro & fora varandas por varrer;
– bombas de combustíveis & beijinhos rápidos;
– estar apenas vivo & ser vivo vivamente;
– tarefas & tarifários;
– muçulmanos nectarinos & botas de pano;
– doutores & engenheiros;
– nefelibatas & chapéus-de-chuva;
– as manhãs end(o)urecidas de luz & mais nada,

mais ninguém.

*

À mesma recôndita mesa a que estiveram os quatro decanos de há quarenta minutos, duas jovens palram como periquitos morenos:

– tenho o cabelo assim por causa de ti, de mim?, de uma coisa que disseste?;
– gostas?
– terceira matrícula;
– como é que foi que ofereceste ao teu pai?;
– já tinha feito;
– foi menos um dia de estudo, só estudei até às três da tarde?;
– foi no Leclerc?;
– entrei em quarta numa rotunda, ia-me espetando;
– ó Joana, eu já me conheço há tantos anos;
– é assim, agora vou ao Entroncamento dar à minha irmã a roupa que ainda me serve e a que eu já não gosto;
– o meu pai é o único homem na família;
– a falcatrua de dinheiro do Vaticano, pessoas a morrer à fome, os palacetes;
– violações e pedófilos e não sei quê;
– cheira lá tão bem;
– um jacto privado;
– aquela cena do Presidente chinês;
– o guarda que caiu do cavalo;
– o Presidente, o nosso, foi lá ter com o soldado.

Ouço-as conversar, percebo sem dificuldade que etc.

*

Sou da flora, sou da fauna
da Cidade de Coimbra.
Hei-de sê-lo enquanto ’inda
eu por bem for não mau na

vida.

*

Coimbra, uma segunda-feira desde 1111. Choveu hoje sobre as sés, as vidas, os plastificadores de documentos, os polícias, os parques, as ilhargas do Rio. Lotes de misturas de café, encomendas viárias, pessoas transitárias e transitórias, antenas nos telhados, crescimento de crianças, serviços de onco/ontologia. Cristianização e decotes ginastas. Desde 1111, dizem os voca-incunábulos.

(...)
*

Tira as caxemiras, os fandangos de gaze,
o verniz das molduras, o resto rasto gasto do
gato, a figura do pai ladrando baskervilles
na casa de usher, os copos partidos pela
serradura do chão, o morango do desejo
coalhando iogurtes e salas-de-espera,
tira o brilho do-cabelo-dele-do-cabedelo-cabelo-
-dela, as ínsuas fermentando
a joalheira tangerina e a aterrorizada
enguia girina, a cabeça do espermacete,
o cetáceo que mobydicka o santo graal
da utopia, tira-me de mim e usa véus
nas basílicas das estrelas onde a cova
é ter piedade e ser linda, velha.
Ou então: procura-me por onde cheirar
a cebola frita, a homens quase parados
na neve imaginária dos natais do Sul,
na equivalência operática que sempre-desde-
-para sempre se dá entre o desmanchar
da feira gastronómica e o da exposição
da Paula Rêgo, nesse limbo quase por
nós tocado numa ideia, num brinquedo
recordado, numa meia frase que nos
abre uma mansarda, lá em baixo a
lâmina do Rio sob uma abespinhada
cutelaria de estrelas em outro Verão,
não este e nunca mais este.

*

Isto de não ter nascido ontem não pode ser
bom para a saúde, há sempre um macaco
que te canta loas ao pavilhão cárdio-auditivo,
há sempre uma esperança quase fulminante
ante a esperança de concerto, jantar e adiante.

Penso muito nas minhas filhas quando,
ao gás falso das vielas, derivo constelando
coisas de rapaz envelhecido, as más meias
partidas pela espinha do elástico traindo
o fundamental celibatário do costume e dos poemas.

Não interessa ser ’inda só Novembro,
uma poalha de luzinhas torna já mirífica
a infância anacrónica do vulgar consumidor,
as senhoras realizam-se na cor justa do cachecol
para o velho pai, as filhas delas nem tanto,

mas. .

*

O senhor usa barba sob loção azul,
cheira a sozinho como um cão de gabardina,
tem opiniões que guarda no vão das gavetas-horas,
consome apetrechos de peixe em cozinha de lata.

A lojista espera ainda o telefonema da Venezuela,
lá se arranjou maneira de colégio cristão pago
a preço-judeu por mor da filha, o que a quilha
é esperar entre mais nada que revistas e loções azuis. .

*

Encapoeirados de centros comerciais e éticas profissionalizantes, nem nos parece já maravilhosa a claridade sem mistério com que os animais exercem a vida – isto é, com que os animais vão de si mesmos a si mesmos entre nascer e morrer. Sinto a falta dessa maravilha como uma cutilada. Há quem a recupere no amor por algo, alguém ou qualquer coisa. Eu não a recupero senão, como ainda hoje, num lance de folhas que a chuva, chegada em vento à árvore (i)número tal da Avenida Fernando Namora, ofereceu ao chão de automóveis e outros pequenos lixos. Pouquíssimos pássaros – bem mais embalagens vazias pelo chão do que pássaros. Uma toada de folha-de-Flandres na luz, um ser vespertino que.







No comments: