Sunday, February 20, 2011

Ideário de Coimbra - 167


167. FRASES FLUVIAIS

Coimbra, terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011

Dias deprimidos. Arrefecidas ampolas de água, estes dias da eternidade que posso. Fornos de gelo. São a eternidade possível. Os mortos navegam ’inda nos rios das frases. Os vivos adoecem ao relento. É uma espécie de lenta (vora, vera)cidade. O futuro parece feito de lata. Converso com um rapaz que é empregado-de-hotelaria aqui perto. Casado, um filho pequeno. Está a pensar em ir para o Algarve tentar outra sorte. Tanta gente que não está nem se sente bem. Na mesa ao lado, dizem mal do Sócrates “engenheiro”. Depressão. Ali, uma mulher bonita: cabeleira de boa madeira natural em castanho, boca correcta, sobrancelhas cuidadas a tira-linhas, mãos de um nácar o mais lavado. Eu poderia não ter saído vivo do século XX, mas saí. Demando ’inda a Passagem Noroeste da minha vida. Estou sozinho nisso, não estou sozinho entre os que demandaram trilhos afins. Uma frase encontrada num livro:

O que lhe aconteceu não foi contado.

17h54m desta terça-feira, 15 de Fevereiro de 2011: ainda estou vivo. Penso na Noruega. Penso em terra fria e casas quentes, não tanto em morrer.

*

E o que vem de lá trás, faz frio na nuca.
Faz gelo pensar na estrela-de-morrer, faz.


3 comments:

Joaquim Jorge Carvalho said...

Amigo,
em primeiro lugar, deixa que te celebre a sublimíssima pulcritude da escrita. Distraidamente, os lusófonos d'Agora não se apercebem da tua Presença central. Tens sido sempre "Um" grande escritor, és hoje "O" grande escritor.
Segue-se que também tens de comer, de te vestir, de pagares renda, de comprares tabaco, de sustentar os teus. é preciso tratar disso! Eu tenho falado no assunto a algumas pessoas; é preciso insistir, persistir, não "d'existir". A Noruega há-de aparecer-te por aqui, Daniel, vais ver.
Um grande verso entre muitos:
"A vida era para ter sido, não foi?"
e a minha paródia-homenagem: "A vidainda´continua(mos), não é?"
Abraço!

daniel.abrunheiro@gmail.com said...

Sim, King, nós continuamos em vida. E não d-existimos.
Obrigado por me seres assim.

BLUESMILE said...

Gosto de te ler. Sempre.