Tuesday, February 01, 2011

Ideário de Coimbra - 155

155. NISTO, A MÚSICA
Coimbra, sábado, 29 de Janeiro de 2011

Inverno intenso. Uma harpa de chuva. Frio. Contenção. Vou ao Louriçal ver a minha Leonor, falar com ela de Álvaro de Campos e de Alberto Caeiro. Estio, portanto. (Estio quer dizer Verão.)

*

No fundo como à flor da pele, a melancolia é uma forma de vida – uma profissão-de-fé, convenhamos. Uma pátina névoa-londrina, digamos. Casais pobres olham de fora os hotéis-vitrinos. Conheço uma rapariga casada que frequenta homens idem. É de alegrias furibundas e físicas, a moça. Nunca pedalei com ela. Imagino-a em tesoura: aberta, voraz. Falamos poucas vezes e de poucas coisas: ela não lê Redol, eu e homens casados o mais é copos. Na casa-de-pasto, um prato beirão: Morcela Cozida com Grelos. O senhor acentuou com circunflexo o legume: Grêlos – e eu não acho nada mal (aliás, dado o esparvoamento ortográfico que os analfacínicos deste governo “socialista” nos querem impor, vou passar a redigir as minhas tretas em pessoal ortografia: vou, vou). Mas à flor (flôr) da pele como adentro-vísceras, melancolizo. Toco a mulher imaginada em ária: os roxos mamilos papio de saliva, o brando baú do ventre roço em glande, seus pés de neve esbraseio de carvão, à fenda matricial acorro preste e seguro (por uma vez na vida, seguro).  Também me acontece vigorar telefonemas equivalentes a apelos de náufrago: no mar das tardes pluviais, que haja um amigo ou mais. O meu Amigo Manuel da Mata, o meu Amigo Rui Correia, o meu Amigo António “Plástico” Arcanjo Dias, o meu Amigo Joaquim “King” Jorge Carvalho, o meu Amigo João “Arrebenta-Piaças” Portulez Costa. Essa gente de seda cuja frequência, ao menos telefónica, me inscreve no Olimpo contumaz da memória futura. E se esta prosa vos parecer insulsa, desestruturada ou pueril, mais vos direi que ainda assim tal-e-qual a quero: pueril e sem estrutura nem sal. Falava-vos então de mulheres – como não recorrer ao filme aurífero das laranjeiras? Reparai: ando aqui por Coimbra a topografar milagres citrinos. Eu sei pátios. Sei onde há limões, laranjas & mulheres. Sei algumas coisas. Essas coisas são arteriais. Serão melancólicas, quando chegadas aos olhos leitores. Mas são arteriais: isto é: maravilhosas, lances de uma infância tardia que teima em ser a minha idade essencial: a minha fé na profissão, digamos.

*

Ela invoca a calidez cerealífera dos verões
de quando ninguém morrera à face da praia.
Ela é boa para namorar-se aos domingos,
ela não está aqui nem promete voltar.

Ele é de abstenções verbais as mais abstrusas.
Conhece de cor o salteado orégão, esse coração.
Como se não vêem, amam-se – e nem esperam
que lhes toque os rostos o ido Verão.

*

Quanta música poderei ainda exercer no mapa das noites?
Trata-se de uma pergunta legítima.
Vou hoje ao Louriçal ver a minha Leonor pessoal.
Vou ser feliz, portanto, entre comas.
Terei, de resto, um rosto (um rasto).
Falei já com gente provida de moral & ossos.
Não é que a tal gente inveje ou beije.
É só que a minha vida não vai a concurso, não se inscreve nem alista: é uma vida santa e angélica, a minha: uma vida de corredor venoso por vias-ruas-veias-arteriais.
Escuto o chapinhar da borracha na estrada molhada.
Alcanço de olhar os prédios.
A salvação até na morte, todos o sabemos,
não todos o dizemos.
Só que a vida é um rosário, não te parece?
Nisto, a música.

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