Wednesday, February 23, 2011

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 169 e 170

169. TEXTO LIDO EM ENCONTRO DE AMIGOS NA ASSOCIAÇÃO BENEFICENTE “A PEDRULHENSE”

Coimbra, sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2011

Sou um homem da Pedrulha desde Junho de 1965, embora me tenham meus pais feito nascer em Maio de 1964. A minha Mãe é que (ainda) é toda de cá: nasceu ali em baixo, ao pé da casa da mãe do Suíço, quem vai para Val’ Forno. Sou portanto daqui desde quase sempre e de certeza que para sempre. Tenho andado muitos anos por fora – sobretudo das graças de Deus. A minha filha mais velha, que se chama Leonor, começou aqui. Outros amigos se me acabaram também aqui. (Sabeis que vos estou a falar de gente como o João da Bininha, o Né 111, o meu primo Canito da Ermelinda & do Tó Cigano, o senhor Sacramento da Amarala, o senhor Elói & sua dele senhora Celeste, do Caniço do Bairro de Nossa Senhora de Fátima, de tanta gente que gente continua sendo, viva no coração de uma pessoa.) Conheço a 4 de Julho e as Convertidas. Sei Atrás-das-Eiras, a Costa, o Lagar Velho. Sou da Lameira do Saramago, hoje Rua 1.º de Maio. Andei na Escola Primária entre gente de vária, avulsa (e às vezes convulsa) vida. Em 1981 (Setembro) comecei a fumar. Tabaco, atenção. O “Clúbio” tornou-se “Disco”, por essa altura. O Massas é que mandava naquilo – se calhar, por causa das tias velhas e solteironas que lhe deixaram tudo em herança. Lembro-me das pessoas e das famílias alcunhadas – aliás gentilmente – com nomes da fauna: Canários, Pintassilgos, Cucos, Estorninho, Leão, Gato, Minhoca, Pulga, Cavalo & Burro & até Cão.
Lembro-me.
Rua do Leitão, onde o Leitito.
Do velho Rendilho à esquina de nada e de tudo.
Da minha tia Maria da Estação, que vendia bolos e solidão.
Da Muda dos tremoços, mãe do melhor jogador de futebol de sempre na Pedrulha, o Vitó.
Sou do tempo da morte do velho Mário dos David(e)s, em Setembro de 1980.
Do velho Leandro bêbado de jardins.
Da filha mais nova do senhor Veríssimo, irmã da Dulce, a quem o coração traiu.
Do irmão e da irmã do Chico Morais.
Dos tantos bebés dos Cucos.
Do Armando Torres, criança alcoolizada por divertimento.
Do Jaime Bolâmbola.
Do Boné-de-Lata & sua mulher Maria da Purificação.
E do Luisito do Diamantino Pinochet também me lembro – aqui e agora: é ele quem se lembra da Pedrulha, minha e Vossa terra.
Por causa dele aqui estou/e/estamos.
Viva a Pedrulha, viva a gente – e
uma boa noite tenhamos.

170. NOITE DE DOMINGO EM ALDEIA FEBRUÁRIA

Adões, domingo, 20 de Fevereiro de 2011

A aldeia, um cedro grande de antigo, a capela fechada, as estrelas refrigérias da noite de domingo. O silêncio do casal, a luz de azeite que mana da taberna entreaberta. A eternidade indiferente destas coisas cenárias. As nossas vidas encenadas no Inverno, februárias vidas as nossas.
Caçadores tomando um último copo. As aves mortas penduradas das ilhargas deles. O frio torna-me de louça o corpo, de vidro o que nele pensa, de pedra-pomes o que ele sente.
E o coração como um barco em terra, uma pedra em lago. E a aldeia, fermento de prata (o sono das aves, essoutra forma de canto).

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