Thursday, January 08, 2009

Uma crónica e alguns, digamos, poemas


© Juan Pando
Arenga al más Joven Ejército Posible
Febrero 1939, Madrid




Pombal e Casa, Souto, 6 a 8 de Janeiro de 2009



Higiene, coentros e maduro
Crónica nº 85 da série Rosário Breve
nO Ribatejo (
www.oribatejo.pt) de 9/1/09

Pergunta-me um amigo se vi pela TV a entrevista do primeiro-ministro. Disse-lhe que não. Não vi por uma questão de higiene. Mental. Minha. Muito minha e muito mental. Não vi. Não quero saber. Não sou um jornalista ao serviço dele. Nem dele nem de ninguém.
À hora da dita entrevista, estava eu em casa muito sossegadinho a ler o meu dicionário da Porto Editora, escrito ainda sem a porcaria ortográfica pró-brasuca que aí vem. “Higiene mental: ramo da higiene destinado a manter a saúde mental e a assegurar a profilaxia das neuroses e das psicoses, combatendo os factores nocivos (excessos de tabaco, choques emocionais, intoxicações, alcoolismo, etc.)”. Tirando a parte do alcoolismo, percebi tudo.
Como não rimo “jornalista” com “acólito”, não assisti, nem de joelhos nem de cócoras, à tal entrevista. Tinham-me dado uma rica garrafa de tinto maduro, a mulher tinha trazido broa e bacalhau desfiado, num frasco de vidro grosso havia azeitonas perfumadas de alho e coentros em sal também grosso. Comemos e bebemos à saúde um da outra. Nem ela nem eu vimos a entrevista do senhor. Não vimos. Cheira-me que também não vamos ver a próxima.
A minha mulher também é muito higiénica. Por dentro e por fora. Foi uma riqueza que me aconteceu, a minha senhora. Às vezes, estamos na cama e rimo-nos muito. Eu digo o nome de um ministro (um qualquer) e ela desata-se a rir, contagiando-me irreversível e inelutavelmente. Depois, ela diz o nome de outro (outro qualquer) e eu desmancho-me, contagiando-a inelutável e irreversivelmente. De modo que somos felizes assim, felizes com a desgraça dos outros portugueses que já não se riem. Podia dar-nos para pior.
O amor é assim: nenhuma TV e um fio aromático de coentros cortando a espuma roxa de um tinto para esquecer.



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Trouxa



Não sou já uma trouxa de carne
que mulher alguma pegue, pague e leve
aos ombros
para um desses motéis de filme
surdo-e-mudo.

É que se me estragaram os dentes
e se me avariaram as gónadas.
Secaram-se-me as sementes.
Sou ora dos velhinhos nómadas

que já lá não vão.

Nem é isso que me dá tristeza.
Entristece-me o pender, sim,
mas para o verso.
A poesia é uma arte que não chega a ofício,
a não ser que se conheça alguém no Motel
Gulbenkian
ou assim.
(Mas não é o que m’acontece a mim.)

E
no entanto
fui já um(a) trouxa assaz moteleira.
Tomei de facto já o meu porto miniatural,
já atirei o meu chiste erógeno,
colhi já em campo o morango dum mamilo
(devagar, ao de leve e com estilo).

Agora já não.

Agora, dou-me mais ao nunca ocasional ocaso
da subúrbia condição.
Amanho a minha horta, pinto a minha porta,
digo bons-dias ao carteiro (que é rapariga)
e a mais ninguém me obriga.
O resto é cantiga.



Brasil, 2 – Rossi, 3



Um livor a dar para o azul-frio com barcos
é quanto vejo dentro da cabeça, fechados os olhos.
Não tenho 18 anos como tive em 1982, tenho uma
colecção incompleta do Mundo de Aventuras
e outra de anos.

Tenho um amor sem escalímetro pela topografia da vida.
Conheço vendas de fruta que perfumam a luz a quem passa,
conheço o meu Cesário e o meu Pessanha, sei com quantos paus
uma canoa vai ao fundo,
conheço o mundo.

Em 82, o Paolo Rossi deu cabo, praticamente sozinho,
do melhor escrete que já vi jogar: o Júnior, o Cerezzo,
o Sócrates (não era este daqui da Covilhã, era um doutor
mesmo), o Zico, o Falcão, caramba.

Eu hoje estou praticamente sozinho no ataque como
o Paolo Rossi – e como ele
a dar-me cabo.



A Guerra do Uruguai



Dá-se algures na casa ainda e para sempre,
nalgum dos livros que não relerei.



Parelhas



Fiambre e rosa.
Ciúme e perfume.
144 e grosa.
Couro e curtume.

Tacho e macho.
Vou e não volto.
Cão e irmão.
Solto e não solto.

Tacha e taxa.
Toscânia e Praga.
Guimarães e Braga.
Ter racha e tarraxa.

Meu Pai e Mãe minha.
Irmãos e sobrinhos.
Viver e vida:
hei-de ter netinhos.



Declaração de Rendimentos em Poemas e Morais




Casar com uma ex-estrela porno
deve ser como andar de lambreta
na auto-estrada.

A tristeza é o vero produto nacional
bruto.

Santana Lopes é uma realidade portuguesa.

(O velhote da mesa ao lado tem um filho deficiente,
nenhum dos dois faz barulho, o senhor lê o jornal,
o filho olha embevecidamente para ele,
está-se bem aqui.)

Um fiapo de nuvens acama por cima a avenida.
Entardenoitece, carros frios, primeiros faróis ligados.

(O filho deficiente diz
Então, pai?).

Estou sozinho, espero que a minha ela venha do trabalho
para tomar um chá de casca de limão,
para a minha vida prometida aos bichos,
os meus versos às larvas-parvas-palavras.

(É de olhos azuis como o pai,
Então, pai?,
tem alguns 50 anos,
o pai é senhor para 70 e muitos.)

Preciosa, cristalina: pedra de água atirada ao pano do ar,
frase toda música, Paris em 1911, Coimbra em 1917,
garça que por graça grassa no algodão memorial,
fico por aqui por agora.



Outro Dia



Toda a tarde em ronronante solidão.
O sol de inverno é franco na varanda.
Há rumor de casas afastadas: crianças, cães.
O cedro, muito cervical, labareda-se muito verde.
Agradável, viver.

Preparo uma expedição a Coimbra para breve.
Ver a Irmã, trocar uns livros no alfarrabista, ir
ao parque da cidade
consultar o rio como um baladeiro sem voz,
subir alguma calçada, descer alguma catacumba,
permitir-me a essência íncola de ali ter nascido.

Arrumo na boca as graçolas líricas que quase
me impedem de estar vivo e pensar ao mesmo tempo

e
então
deixo fluir:

a graça toda luz do ar emoldurando o pinhal,
o formigueiro automóvel do género humano,
a poça de água fria despertada de sol entre erva,
a munificência idiomática da minha pobreza pessoal,
o tiro de longo alcance de um telefonema por fazer,
a efervescência trevo-mijona de um verso exacto,
um gato alheio em estrangeiro quintal olhando para aqui,
o Denzel Washington e o Russell Crowe às 4 da manhã,
o torno mandibular do frio apertando o corpo,
os óculos na cara como uma aranha fria,
a suficiência futura dos livros ’inda não lidos,
uma espécie de amor, uma espécie de música,
a quinta-feira dourada de suas mesmas cinzas,
um prato de salada-russa meio consumido,
a guerra do Uruguai e a selecção do Brasil/1982,
a infelicidade das pessoas muito suave, muito diária,
a explosão láctea da taberneira perto da rotunda,
os apartamentos que clonam a quarentona e o adolescente amásio,
a erva-de-cheiro de uma frase bem dita,
as pedras glandulares no tabuleiro do metabolismo,
o cálculo-cinismo da má poesia,
o florilégio da boa,
o sortilégio da muita boa,

o tempo há-de melhorar,
outro dia.



Telefonema



Um dia hão-de telefonar-te de muito longe,
de quase tão longe quão certo rosto perto
do teu.

Dir-te-ão da condição
interurbana
que tive para contigo,
eu, logo eu,
que daqui não saí
nunca.

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