Monday, January 19, 2009

Segunda Passagem / Terceira Passagem

Segunda Passagem



Casa, Souto, tarde de 19 de Janeiro de 2009




Quanto temos – é quanto nos basta:
os olhos dos animais, portais astrais
que explicam a terra e a vida e a passagem.

Hoje, quantas vezes a nossa vida como se vivida
em outra vida,
além de ontem, para lá do que é fragor e passagem.

Nos olhos dos animais os vestidos vermelhos das mulheres.
Verificar isso sem problema nem solução, só passagem.

As crianças todas líquidas nos olhos dos animais.
E portas tão altas, que devemos chamar-lhes janelas
noutra língua, idioma que sobrepassa dentro dos pais.

Temos, os filhos, os filhos e este casaco, esta cafeteira,
este cesto de limões, esta colcha de embrulhar avós,
os mapas siderais em musgo pelas paredes,
pelos olhos dos animais.

Somos a passagem – agora a temos de ser, com a licença
de nossos pais.



Terceira Passagem




Pombal, tarde e noite de 19 de Janeiro de 2009



Sento-me e recordo-lhe as mãos.
Eram, digo, um par de coisas outonais.
Não eram mapas do futuro, eram madeira outonal.

As mãos antecipavam esse homem recordado.
Um arroio pulsava perto, emoldurado de arvoredo.
Ido tempo – e homem ido.

No pátio, o vento falava no pessegueiro.
Patos, pombos, cães, gatos, pardais – tudo nos olhava,
do profundo além líquido da Criação,
a esse homem e a mim, que começava
para que ele pudesse acabar.

Estou sentado num dos veios da tarde.
A noite mana já da cabeça, esta flor escura.
Estou a ver-lhe as mãos, a vê-lo nestas.
Outono-me sem dor nem recado.
Lanço as minhas redes às águas cantoras
muito frias.
Espero para trás.

******

Os calcanhares do coração roídos pelo relógio
– também fazem parte dos corpos,
os sentados como os recordados.
E o que faz parte nunca parte.

Sento-me perto dessas mãos de novo vivas:
de novo vivas para que eu possa ser antigo.
Vejo-as que tocam papéis de Paris, do Rio de Janeiro, de Londres,
de Coimbra.
Vejo-as de penar.
Vejo-as de pensar.
Vejo-as pensar a vida fora do corpo que antecipam:
formosas estrelas, cabeças de ouro, couro, ossos:
ajuntadoras de destroços.

Eu agora também recomponho papéis: liceu, aniversários,
fotocópias de Pierre Nordon sobre Conan Doyle, fadas e banshees,
anjos e motociclistas, hagiografias e gliptognosias,
transparências cromadas à maneira da oftalmologia infantil,
recordação de mãos que trocam de esquerda e direita
em espelho:
estas minhas já nas dele, quando ele.

(E em tudo isto, naturalmente, claramente,
o mais puro amor murmura.)

(E o coração faz-se rola – e arrulha
o mais puro amor.)

Vejo tais mãos de aqui,
aqui sentado.
Celebro (como elas celebraram) a glória humilde dos animais.
O vento no pessegueiro, nos álamos, nos robles, nas oliveiras.
Patrocino a espera, a demora – e nem ânsia uso já, mas
demora e espera.

******

Pulsar de estrelas concatenadas em vísceras:
nutrição e passagem.
Fogo e trabalho – de tudo as mãos do homem são capazes.
Água e fadiga – de tudo as mãos do homem são capazes.
Capazes, rapazes.

Febris, às vezes, as mãos que de um homem,
num homem,
amei.

Eu a querê-lo vivo
manualmente.

Pulsar.

******

Sento-me num qualquer aqui igual ao do leitor.
Falo do pai profundo do leitor.
Falo dessa morte patriparticular que tocou o leitor.
Falo de um leitor de cassetes em barraca de feira
franca,
francamente
– mas sem paternalismos.

Invoco a begónia e a gardénia,
a estónia & a eslovénia.
Convoco os moços-filhos ao mato da recordação manual.
Aleijo um limão pelo lado do sangue transparente:
e o amor me assiste tão em limão quão em lesão.

Homem que ama homem.
Duas mãos quatro.
Portanto oito.

******

Mãos que mudam o outono da direita para a esquerda.
Duplos pentagramas de unhas tristes e limpas: mãos para
um catecismo de filhos sem o embuste de Deus, mãos para
um danúbi’azul só por branca recordação, mãos para
o filho.

(Agraciaram objectos-despojos-destroços, vivos hoj’inda:
cotos de lápis, pagelas, páginas de guarda, centenários
como o do Irmão Doutor Elysio de Moura, do Professor Karma
(o que casou com a cigana dos fados),
da Mansa Puta que nos Pariu a Todos
por-cristo-com-cristo-em-cristo,
a todos e a rodos: as mãos dele agraciaram-me os objectos
perdidos, naturalmente perdidos – e
secos e molhados.)

Mãos que (se não) mudam.

O tempo-térmita toca, fura, rói, escava e dói.
Não, espera!
Não tem de doer.
Diz:

******

Era então amanhã, isto de amar mãos.
Mapas afinal do futuro enfim.
Coisas outonais (como os olhos dos animais).
Estrelas de pau, ossos de pão, pato & pombo & gato & pardal
& cão.

Extensões siderais da terrena natura.
Mãos caligráficas, redentoras, tristíssimas e branquíssimas:
mãos de pão & pau & pai.
Era então amanhã que as recordava,
agora enterradas em lama,
seccionadoras de begónias & gardénias,
tontas e bonitas, estelares, funâmbulas,
coisas recordadas em meu assentamento assentido,
sentado.

A última luz sobe chuva até órgãos de igreja.
Canora é a toalha de água ligadora de céu & terra.
Um pai, um filho (mas não fiz rapazes,
Pai),
(canora na mesma,
filho).

18h55 de uma tarde indiferente ao senhor,
por graça e glória.

(A gente às vezes está entre homens e pensa no pai
mas não diz nada, coisa outonal entre coisas
outonais.)

Mas mãos caligráficas
escrevendo por estas.

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