Monday, January 12, 2009

TODA A GENTE MONTA UM CAVALO DE VIDRO, NÃO ME VENHAM COM HISTÓRIAS - aditamentos para uma cardiologia da submersão

Casa, Souto, e Pombal, tarde e noite de 12 de Janeiro de 2009



I

Um rio de palavras abarca as margens da vida pensada.
Jogos de poder assaltam íntimo anelos.
Com o tempo, até o terror falece a tempo.
As casas resistem na composição postal.
Instintos distintos sufragam a resistência.
A harpa da chuva pizzicata a paciência.

Magnas leis transparecem das instituições magnas:
o ar, a montanha, o trânsito, a eira ao sol.
Uniformizados de luz, os frutos conciliam a cor.
Uma paleta de atitudes pinta o retrato pessoal.
Os mortos e os vivos jogam as cartas.
As tipografias trabalham por conta da memória.

Toda a gente monta um cavalo de vidro.
É preciso não desistir de respirar com indústria.
Panos relvados atapetam a serenidade.
O presépio de barcos decora a face do mar.
Moinhos celebram a solidão mais aérea.
A geologia subjaz aos ossos humanimais.

Na curva do rio, o maciço segrega sombra.
É bom tocar os elementos pelo nome, nome a nome.
Cordas de peixes procissandam veios claros.
A cabrinha canta a glória da maternidade.
Num café longe do nascimento, anotar a conta-corrente.
Racionar os apetrechos da supervivência, também.

Recordar no bosque a catedral.
Na rua, a álea.
No cavalo de vidro, o nascido e o ido.
Na praia, a História.
No cometa, a ave.
Na Lua, o Sol.

Coleccionando cidades, unir a aldeia única: a mente.
Redigir tempestades na manhã internacional.
Somar ruínas castelãs, atiçar verbos.
Sim, atiçar verbos contra o esquecimento.
Respirar muscularmente, olimpicamente.
Apedrejar sem rebuço o solipsismo estéril.

Obter pianos, festejar o andor da caligrafia.
Aguentar ainda um pouco, na seda do sono.
Na senda do outono, tocar de ouro-velho o frio.
Reconhecer aos olhos o teor de espelhos mágicos.
Borboletear pelas flores verbais, agraciá-las de mel.
E sentir sempre, pensar sempre cada sentido.

E então ver o rio e tudo recomeçar nascendo
na seda,
na senda.



II

Um pensamento, uma cidade submersa.
Adentremos a beleza antiga da senhora
que envelheceu ao balcão-contador da taberna-mercearia.
Também o coração dela tem um lado-mozart.
De quantos invernos foi ela capaz de subir à tona,
que chás tomou sozinha quantos domingos?

Uma cidade, um pensamento submerso.
Em uma churrasqueira despovoada, o último
cliente ceia a solidão de um peixe.
Cá fora, as estrelas ao frio como cães sem dono.
No coração desse homem, uma planície estelar.
A neve em sua cama: e silêncio e ossos.

Tantos príncipes, tantas princesas submersas,
tanta tão pensativa nobreza, alienados rumos
que ensinam a perdição e a coragem,
o santo cálice demandado pelo ébrio,
a prostração labiríntica do ano,
a monarquia absoluta do peixe, da solidão.

E com toda a atenção, a magia toda,
não desistir jamais do lado-mozart da vida.



III

Sendo homem, tendo mulher, ver nela a nação mais vertical
– e a mais alta domadora de cavalos de vidro.


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