Monday, January 19, 2009

Quando um Gajo Merece, não Tem que se lhe Aponte

Casa, Souto, madrugada de 20 de Janeiro de 2009



Mereço a manhã, mereço a agonia, mereço o novo dia.
Tenho feito alguma coisa pela vida, por estes dois dias
que ela é.
Já não sou um dos bichos do carnaval, lamento.
Não vou posicionar-me sobre qualquer alteração viária.
Um gajo é apenas um gajo, uma instituição onomástica,
um cadastro mecanográfico, um príncipe em casa, um cão
na rua.
Não tem mal nenhum que assim seja.

Agora os ventos, é outra coisa.
Os ventos são importantes a ponto de se lhes associar uma rosa.
Os ventos são o sentido mais alto dos moinhos, que já de si
não são nada baixos.
Todo eu dou folhas quando me dá o vento.
Dou folhas de rosa – e mais não sou maricas.
Eu digo estas coisas porque elas são necessárias na hora.
Depois a coisa passa.
Vai no vento.

Mereço a manhã, mereço a agonia, mereço o novo dia.
Tenho trabalhado muito em prol da sociedade mais larvar:
corpo-saco que do sofá perora para o mundo certos transes
versilibristas por graça.
Do rol de cartões nasce gente hirsuta, toxicomental, gente só.
Quando morava em Lisboa, saía à noite a ver as galerias do
Teatro Nacional, onde os actores do abandono apresentavam
a produção.
Para disfarçar que os via, disfarçava que via os cartazes dos bancos,
o juro à ordem, a Europa toda ao alcance de uma moeda e de um
cabrão dum yuppie qualquer.

Hoje compro lápis nos chineses, que os viarco estão
pela hora da morte.
Saio de manhã muito cedo e espero que os chineses abram,
eles abrem, compro-lhes os lápis e toca para o café a
escrever a rosa-dos-ventos do costume.

Mereço isto, se calhar mereço isto.

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