Wednesday, January 28, 2009

Um Poema por causa do Amor e Outro por causa do Frio

© Sandra Bernardo
Cabanas de Viriato,
8 de Setembro de 2008




TÁBUA

I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009

II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009



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I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009


Espera-me um pouco onde não chova,
vou morrer mas tenho tempo, espera-me
nem que seja por delicadeza ou amor
ou coisa assim.

Já fui ver o mar onde a terra começa a ser céu,
já alimentei as aves e os peixes e a nobreza dos gatos,
já trabalhei duro e fundo, já andei no mundo,
agora já não.

Tem paciência comigo, por favor.
Às vezes entristeço como respiro, vou ver as pessoas
e como elas sou pouca gente parda e parada
no Inverno portátil do coração.

Eu tenho uma vocação de ti por natureza,
ainda não tinhas nascido já eu te pertencia,
como às pedras pertenço e à poalha azul do ar,
quando o Verão nos perdoa a submissão.

As coisas principais estão se calhar nos gestos,
não nos livros, não sei, tento saber mas desconhecer
é se calhar a vera missão do coração,
aquele que pensa além do corpo, ante o mar

e a segunda-feira,
dia em que espero que me esperes.




II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009

O frio destes dias queima-os.
Estamos todos sozinhos, cada um com seu frio em seus dias.
Emolduro a vida com a minha boca.
Boca e mão direita cercam a vida de palavras duras:
frio, saca, autocarro, café, placa, matrícula, janela.

Haveria de pegar-te na mão e levar-te ao futuro da infância.
De frio, os pés roxos como cardeais.
Na infância, os amados animais
atirando palavras terríveis:
eternidade, clínica, fronteira, monte, marco, tarde, frio.

Se era o Verão a nossa maior condição?
A essência vivia porém no Outono,
festim da nudez e do abandono.
Não, não era o Verão a maior condição.

O teu pai envelhece sentado temendo a Deus,
esse passador de passaportes para a lama
que mais castiga a quem mais O ama.
E também a Ele e a ele os dias queimam o frio.

Se tudo o que um homem pode, é um poema – está
tudo lixado nesse homem.

Pode ele ter sido rapaz, fresca voz ao vento,
inumerável e incontado, pode ter sido – agora,
queima-o o frio do eterno Inverno.

Emaranhada de silvas a cristã cabeça,
engolidora do fogo das laranjas a gelada boca,
pátrias do mijo os ossudos pés – onde raio
se terá metido o olímpico corpo
que todos alguma vez fomos no futuro da infância?

Um homem ama a mulher a que chegou
por via de insuspeitados esforços – e
tal mulher compreende mais a vida do que ele
pode – porque de poemas vive ao frio,
não de decisões.

Chão, terreno, esse homem é um de nós-homens, voz
picotada pelo que chove, par de braços esmaecidos,
mariposa rumo à vela irresistível.

Pando, bolinador, homem cercado de rio por todos os lados,
de trementes flancos, coleccionador de calendários de bolso,
comedor de bifanas frias algures no Sul,
nostálgico de um árctico Norte a que nunca foi nem irá.

Passeia à noite cães invisíveis,
o temente-a-Deus, o alma-do-Diabo.

Bicho inumerável e enumerável,
lítio sopesando seu coração repeso,
dele é a maravilha do esquecimento,
nem me lembro de quem te falo.

Pega-me tu na mão, leva-me a conhecer o (f)rio,
as bandas militares, a efusão das rosas municipais,
os bailes absínticos das nubentes cor-de-rosa-municipal,
a tragicomédia da língua portuguesa nos preçários dos bufetes,
a meia-dose que a alegria é,
feitas as contas,
leva-me,
anda.

Mais nos valera a obstinada estupidez da religião,
o umbilicalismo idiota dos messias-de-si-mesmos,
a opaca obtusidade dos moralistas-de-cagalhão,
a córnea intemperança dos que nunca-amaram-só-foderam.

É frio até o sol destes dias, como químico é pensar.
Volteia em torno a álgida noite que de manhã começa,
propiciadora de uma caligrafia tudo menos solúvel,
como solúvel é a cevada (20 % de café) na caneca romba.

E no tanque os queimados meninos nada sabem ’inda
do frio que aí vem, nem do futuro que para aqui veio.

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