Friday, January 09, 2009

Implicação da Iguana

Casa, Souto, na madrugada de 9 de Janeiro de 2009



I. Impropriedade

A sombra de uma nuvem, como um pensamento, marcou uma área do terreno. Passei a contar duas realidades: a que se mantinha de sol e a que a sombra marcava: como um pensamento contemporâneo do corpo, simultâneo dele mas sem ser ele.
Atrás, na casa, ficaram as coisas que são a casa mas também a não são: pode queimar-se no pátio, ou não, a cómoda que define um quarto? Ficou a laranjeira, ficou a casota de cimento do cão (imita em miniatura a arquitectura da casa humana).
Todos grelhámos peixe, ninguém estava ao serviço de ninguém, houve aquela solidariedade benfazeja dos instalados. O sítio do lume era agradável, uma terceira casa, de dimensões entre a principal e a do cão. A mesa era larga, de boas ripas envernizadas. Um banco corrido de cada lado, toda a gente tinha lugar.
Mas há sempre um depois que a tudo torna antes, um fim de festa, vim-me embora a pé. Tive de aliar cortesia e firmeza para recusar boleia até à estação. Por assim dizer, vim ver a sombra da nuvem. A cidade (mas tenho tanto tempo) não é longe, fui protelando a chegada procurando água na terra, maciços verdescuros, grutas (mas não há grutas), choupanas (mas não há choupanas).
Pensei (estou já no comboio) que gostaria de dormir por ali, onde a nuvem. Agasalhado, dormir ao ar livre, ouvir a música da noite, seus instrumentistas de pena e pêlo, a percussão de algum curso de água, mínimo embora. Não o farei. Acho que nunca o farei. Habito uma cidade, os meus hábitos e as minhas obrigações justapõem-se a ponto de ser sinónimos, julgo.
Gosto das pessoas que abandono no campo, mas o meu lugar, parece, não é entre elas, com elas, para elas. Não demorou muito, a viagem. Uma hora e um quarto, para aí. Vi-me na estação de chegada como se estivesse à minha espera: este corpo avançando para mim. Agora tenho de dividir tudo com o recém-chegado: o meio-bife na casa-de-pasto, o bilhete de cinema (e o filme), o copo de vodka no bar que nunca fecha antes das seis.
Não há problema nenhum: é domingo, o dia nasce do rio, gosto de ir ver esse filme sem plateia e sem bilheteira. Também poderia escolher uma margem, um sítio decente bem tufado, de chão elástico e relativamente enxuto, dormir ouvindo a água dentro do sono. Não, claro que não.
O meu apartamento é pequeno e suficiente. É um casulo, faço de bicho-da-seda. A sombra da nuvem, agora (mas não sei que horas são) pensa-se a si mesma – e aquele terreno não me pertence, nem eu àquele terreno, ainda não.



II. Mentira

John-Joe não voltará a Kilburn.
Morreu, não voltará.
Ninguém o reverá perambulando por Grosvenor Square.
Estão-lhe interditos pontos do mapa: Gastonbury, a Isle of Wight.
Terá deixado semente em Cardiff ou a sul de Wales, em Newport?
Terá João-Zé entristecido sem razão especial em Bristol?
Diz-se que gostava dos filhos.
Por que motivo lhes não compra agora gelados em Brighton, um raro dia de sol?
Porque morreu – é tão simples.
(Os mapas são coloridos – mentem a cores.)



III. Implicação da Iguana

Pode trabalhar-se toda a noite em qualquer sentido.
Neste momento, trabalho com duas palavras:
iguana
e
implicação.
Não sei que farei delas: que tessitura, digamo-lo assim.
De qualquer modo, não estou preocupado – mas ocupado apenas.
Isto é um trabalho.
Procuro a música.
Isso é certo: procuro a música.
Ela é feita de materiais pré e pós-verbais – mas só o durante me interessa.
Interessa iguana, interessa implicação.
(Muitas vezes o som
i:
como um atrito de unha em vidro, por assim dizer.)
Também um lume (uma chispa, depois uma carburação) me resultam de gravoso interesse.
Configurar os paradoxos: por exemplo
(este exemplo é bom),
a boca cheia de saliva – e nenhum nojo, nenhuma autoagonia infantil.
Compreender além da opinião pré-congelada.
Aceitar apenas os onanismos não mortíferos:
certa rua amarela de ouro aéreo, algures na cidade ou na infância,
um olor construtivo de mercearia à passagem
(tabaco, bacalhau, fruta, sabão, café),
correios, telégrafos e telefones,
guarda-chuvas esquecidos em vestiários de teatros,
24 mulheres bonitas como uma flor cortada em fotogramas,
sequências espectaculares
(crepúsculos, frases, laranjas, cães, crianças),
fundos de guarda-vestidos com ADN não despistável,
a secreta marisqueira aromática do primeiro sexo,
a organização constitucional dos móveis da Mãe,
a canela tocando a transcendência (arroz doce de olhos fechados),
a iguana, a implicação.



IV. Situação

Qualquer eu está situado um pouco a baixo do coração, só que a perspectiva é invertida pelo prisma da cabeça.
Digo
eu.

Mas depois vem de novo o dia 12/8/73. O poeta Jorge de Sena vai a Segovia. De lá me/vos recorda os versos de Antonio Machado:

no es el yo fundamental eso que busca el poeta
sino el tu fundamental




V. Montra (e) Partida

Fui ao alpendre e olhei: névoa mundial, duas horas e oito minutos do novo mundo. Tenho de ficar aqui, não sei voar – e não falta muito para que a lenha acabe. Isto é um trabalho. Não é um ofício (eu sei, já vo-lo disse – mas é o meu trabalho).
Revoada de aves brancas como papel (noutra vida – ou então noutro lance de uma vida que não vivi nem revoarei).
As esculturas e os animais – que os funde?
Digo: funde-os a dignidade vertical.
Sempre me interesse pelo mundo involuntário (a outra dimensão) das montras do comércio: o carrito-matchbox caído de lado, o micromúsculo labial do manequim que sorri e depois e depois finge que não, os discos e os livros atirando-se de nome desfraldado à fita de água que usamos a norte da cara e se chama olhar – sim, gosto de montras.
(Nunca compro nada, mas gosto do outro mundo a que chego por elas.)

Manhã cedo, talvez tenha de partir.
Não é preciso arrumar muitas coisas, um saco é quanto basta. Depois, talvez como das outras vezes: a estrada vindo direita ao peito, os olhos acaramelados de sono, sacudir tudo isso com uma taça de café, uma chapada de água fria no lavatório do bar das bombas, contar as putas de berma-esperma ao longo da nacional-nº-tal, contar os animais atropelados, notar a transição por assim dizer idiomática da luz conforme os distritos se sucedem e encarquilham no curso da ida, da névoa, do mundo.


VI. Mr. Thompson não É Daqui

Mr. Thompson não é cá da vizinhança.
Andou pelo Vietname, sobretudo a cerca de 400 km de Luanda.
Não tem mal, agora já não faz mal.
É um major reformado, gosta de dálias e de glicínias
(e de gajas chamadas Licínia, que é o que ele chama a todas as vietcon(g)as a quem paga bitoques antes de as levar para o quarto que arrendou à cabeleireira).
Toda a gente tem os crimes, é certo, mas também as suas qualidades.
Mr. Thompson tem a qualidade de não recordar crime algum, massacre nenhum.
Isso – e não dever nada nem na loja nem em My Lai, ou lá como se chama aquele sítio perto de Nova Lisboa.
Mr. Thompson já não gosta de música daquele tempo – seja qual for o tempo a que ele, aliás, se não refere nunca (16 de Março de 1968, Mr. Thompson, filho-da-puta).
War é guerra – e ao contrário é raw, que significa cru (ou cruel).
Mr. Nixon também não é destas bandas, nem Mr. Kissinger (de quem a parva da Liv Ulmann se esqueceu o azul glacial) – vale-nos que nenhum deles há-de voltar de Kilburn.



VII. Noutro Tejo

Noutra Lisboa, fui a mariposa acossada pela friúra das luzes.
Faltou-me não o corpo que me levava mas o corpo que eu deveria ter constituído nas épocas prévias.
Nada disto tem importância: mesmo que, por exemplo
(este exemplo é bom), o poeta Rodrigues Lobo se não houvesse afogado no Tejo, o outro Tejo (o Tempo) tê-lo-ia afogado na mesma.



VIII. Capote e Outros

(Iguana.
Implicação.)

A vida fantasiosa dos poetas (não todos) e a idem idem dos séri’assassinos tem mais afinidades do que as crestomatias criminológicas e os arquivos líricos permitem supor.
Isto é assim até nos Estados Unidos, onde os poetas não puderam competir nunca com os assassinos,
a começar por Truman Capote.



IX. Licínia Também

(Três e dezanove do novo dia-mundo.
Sou que mais espaço-ser, na hora-mundo nova?)

Uma mulher (imagino-a, filmo-a, escrevejo-a) compra anéis. É joalharia barata, ela não é rica, está divorciada só há dois anos e sete minutos, é recepcionista de dentista, chama-se Licínia. Ela é como eu sou – neste aspecto: nenhum(a) fomos nunca à Noruega. E neste: também não voltaremos de Kilburn.
E no entanto barcos transitam estrelas, azimutes de leite & veludo, capazes do frio e da física e da metafísica – mas nem ela nem eu rumámos a Norte.

(De modo que três e 23.)



X. Aviso

You ought to fear the truth, Madame Thompson.
(Quem diz Madame, diz My La(d)i.)



XI. Nenhum Leopardo Foi Possível Alugar para o Chá da Senhora d’Arcy

Que bonitos, benvestidos e inúteis são os cavalheiros-figurinos que vêm ao chá da Senhora d’Arcy, verdade?
Os pássaros verdadeiros que encimam os bolos são tão perfeitos, que parecem de louça: não terão alguns deles um coraçãozinho de rubi?
Com os dedos da mão que não
escreve – dar borrões de cor à impressão do papel-tela:
para figurar no Salão de Inverno da Senhora d’Arcy, depois,
em outro século,
quando Henry James já não for lido nem esperado.



XII. Sorte

Longe da nossa vista, ferve o caldeirão dos hospitais.
Cozem a fogo-frio, que não brando, os doentes terminais.
Fora, na manhã cedíssima, geadam as flores no centro do relvado redondo.
As ambulâncias chegam com as consultas rurais.
Dentro, em cubículos passados a éter e a lixívia, olhares fixos em tectos.
Mãos transparentes, ventres finalmente miseráveis, pés já inúteis, barbas por fazer até das senhoras.
A Universidade, a Caixa, os Correios, o Café, a Rodoviária – tudo funciona, não há azar.



XIII. Bandeirantes

Então – e as pessoas que parecem bandeiras?
Ele há pessoas assim, que são bandeiras.
Andam na rua – e o ar fica colorido, o ar drapeja, o ar ganha música alta.
Essas pessoas ligam a terra verde ao céu azul.
Nós nem sabemos como amar devidamente essas pessoas.
Astros, mastros – pessoas fora da série genética, parece.
Uma chamada Rebeca; outra, David; esta, Catilina; aquele, Tomé.
Pessoas que florescem no ar ao nível do olhar, gente cujo sono nos acorda e pressuriza, que de repente nos saca tapet’e’strada de sob os pés.
Quem de nós quis alguma vez nunca dar-se a uma pessoa tal?
Quem não foi senhor(a) de assim querer levar-se em bandeira?
São de olhares como inflorescências, como incêndios de milho, essas bandeiras.
Um dia, a terra não nos é suficiente.
Como nos é impossível ir-a-ver-o-mar, saímos à vila e damos com elas, as bandeiras, as pessoas-armilares, as pessoas-campos, as pessoas-brasões, as pessoas-pessoas.
Amar é terrível.
Eu aqui não digo a bandeira-tropa-pátria-clube, digo a Pessoa.
Essa que se distingue sozinha e de nós, além da gente, além de gente.
Sofia Loren é um bom exemplo, claro.
Mas eu queria dizer-vos mais terra-a-terra.
Não digo que elas bandeirem a toda a hora sobre tapete-vermelho.
Não, não digo isso.
Digo as bandeiras – se dissesse iguana, o mesmo implicaria.



XIV. Uma Força

Uma força de ir ver lagos existe aqui dentro.
Civilidade, também.
Poucas hipóteses de proceder a um escrutínio decente da vida, também.
Lançamentos de seixos à água, a ver as ilhas concêntricas animadas pela gravidade dinâmica (o susto dos peixes, coitados): uma pessoa reproduz as pessoas, os gestos paterpatrimoniais, os versos.

Se pudesse, uma pessoa reanimaria as décadas, o chinquilho, as tardes solheiras (sol e eiras) de domingo, essas a que os olhos muito azuis de Laurinda presidiam, entre rodadas de groselh’e’gasosa e dentadas tremoceiras, tendo passado a banda e dito o senhor padre
imprecações.

Sim, a vociferação existe aqui dentro, também.
Os que morreram novos sem poder justificar o nascimento.
Os que demandaram a Venezuela e voltaram com outra boca.
Os que sem terem saído daqui aqui voltaram com outro olhar.
Rapazes que gastam o dinheiro das férias em tónicos capilares.
A Lúcia no céu com diamantes.
O senhor Nardo desconfiado de Mr. Thompson, pois pudera.
E o tapete-vermelho entre a igreja e o campo-santo.



XV. H.-M. na V.

Perto de casa há um café-mercearia a que vamos a bolachas e laranjadas.
Não é que vendam lenha, mas arranjam se avisarmos de véspera.
O senhor Gervásio é homem para não largar o jornal toda a manhã.
Há quase sempre canalizadores-electricistas a beber moscatel.
O mais são horas-mortas na vida.

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