Tuesday, January 06, 2009

Noite de Ramos e Manhã de Baunilha


© Paul Strand
Untitled (1915)
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I. Noite de Ramos

Casa de Pasto A Social, Pombal, noite de 5 de Janeiro de 2009


Sou hoje um dos homens que menino vi passar há muitos ontens.
Persistem em Janeiro as iluminações públicas de Natal.
Como elas persisto.
Ganho para a bucha, tenho um casaco preto.
(Sou esse casaco preto para os meninos que me vêem passar.)
Não destoo do vulgo, graças a Deus e ao Diabo por Ele.

Toda a paciência e nenhum exorcismo.
Não entro em ondas nem saio delas.
Um homem como tampouco tantos outros.

Subo à boca o fiapo de bacalhau esmifrado em alho.
O corpo entre ruas, primeiro, depois acolhido por mosaicos verticais que ladrilham a frio a casa de pasto.
Exercício de visão e de escuta: o vulgo come, o vulgo é homem.

Não vejo meninos.
Vejo um homem gárrulo com um garruço preto na cabeça, nem o tirou para se carapauzar, no chão batendo piafés.
É de botas idênticas-me.
É bom que assim seja.

Devo ter dado confiança a mais aos incunábulos.
Ainda assim, não devo ter-me perdido da vida:
eis-me-la.

E do balcão para a mulher da cozinha diz o rapaz versos cuja poesia desconhece:

– O senhor Cravo também quer bacalhau, mas de cebolada.
– O senhor Ramos vai querer iscas.
– O senhor Rogério torresma-se a preceito como de costume.
– O senhor Daniel só quer café com cheirinho, afinal.
– O senhor Baptista veio dizer adeus mas não o sabe, morre amanhã de manhã nas traseiras da loja mas não o sabe.


As palmeiras recolhem o toldo para a noite, fecham as grandes asas como descomunais pombas vegetais, faz frio, proteger a cabeça é boa ideia por ser pela cabeça que se nos esvai a temperatura.

– A senhora Margarida octogena-se à janela.
– A senhora Isabel faz trouxas de ovos muito finas.
– A senhora Teresa procura Cristo na viela.
– A senhora Leocádia tem uma casa de meninas.
– À senhora Julieta nunca houve Romeu que lhe chegara.


Este é o temp’agora: contrição e ex-meninice, idioma e azulejaria, báculo e tabernáculo, missanga e sambenito, faca e alguidar.

(Comenta-se uma ida ao hospital, alguém diz
ISTO DA TENSÃO ARTERIAL TODO O CUIDADO É POUCO
e é.)

Eu agora não posso ser o menino que vê homens.
Eu agora se pudesse ia nas iscas com o senhor Ramos.



II. Manhã de Baunilha

Fonte Nova, Pombal, manhã de 6 de Janeiro de 2009



Faz-se manhã. A luz é de uma consistência e de uma doçura de baunilha. Um rosto bonito com mulher por baixo leva-se café à boca. Aqui dentro está-se bem. Da padaria chega ao salão o bafo dormente dos fornos a lenha. Surge uma criança encarnada com uma chave vermelha na mãozita. Lá fora, os cedros fumegam geada, esculpidos pelo sol de inverno. A formosura toca as coisas por dentro. A terça-feira ergue e estende a tenda colectiva: córregos, azinhagas, vertentes, pedreiras, taludes, eiras, jeiras, laranjeiras, capelas como dedadas de cal nos vidros que ladrilham os longes. Sinto a quietação dos prenúncios: toda a paciência e nenhum exorcismo. Até que seja hora de almoço vogarei. Nisto, penso em casa, nos móveis que em casa me aguardam alguma atenção de pano, algum carinho higiénico. As gatas borralham sem pressa alguma. O poster do Che Guevara enruga-se também sem pressa. Que palavras poderei merecer hoje? É-me lícito supô-las aguardando o meu corpo para efeitos de trânsito e fixação – a verdade é que as palavras nos precisam: precisam de nós para atingir esse nirvana a que chamamos (a que elas chamam) esquecimento.
Esquecimento – ou baunilha: morreu esta manhã o senhor Baptista.

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