Friday, January 30, 2009

PERANTE O PÁTRIO AFUNDANÇO, DIZ-TE, NÃO SEJAS MANSO

TÁBUA

I. NOTAÇÕES PARA UMA PERI(QUI)TAGEM DA GRAVE CRISE ECONÓMICO-SOCIAL DE PORTUGAL PARA EXEMPLO LÁ FORA – em forma de carta de amor à minha mulher

Souto, tarde de 30 de Janeiro de 2009

II. DO PATRIOTISMO E ARREDORES

Pombal, entardenoitecer de 21 de Janeiro de 2009




******


I


Os cavalos cegos enlouqueceram,
querida,
julgo que de vez,
querida.

Usam botas que encontram no lixo,
levam para casa tudo quanto é garrafa de plástico,
prospectos de dietas milagrosas, restos de corda,
escovas desdentadas, info-reportagens autárquicas,
rodas de carrinho-de-bebé, cotos de lápis.
Que faremos,
ternura minha,
destes animais
a menos?

Estão em promoção as grandes derrotas da humanidade
dos cavalos cegos,
querida.
Estandartes de azul-vermelho tiracolam altos prédios de vidro,
a vida comercial embebeda-se de fria festa sem gente.

Quem diz os cavalos, diz os periquitos,
querida.
Lembras-te de serem mansos e domésticos e solteirões
os periquitos,
amor?
Eram todos de primeiro andar, as donas não
eram viúvas ainda, os senhores Monteiros maridos
delas estavam empregados todos e tinham todos
fim-de-mês,
ao domingo ia tudo, periquitos e tudo, à Caparica ou a Espinho
com arroz-de-tomate e bolos-de-bacalhau a ver
a chuva a dar no mar e os barcos da Marinha
parados como sonhos de chumbo na linha
do horizonte,
querida,
que então horizonte havia ainda,
amor.

Quem diz os periquitos, diz os bêbados,
amor,
que não eram alcoólicos por falta de estudos,
para mais era só vinho o que bebiam,
e quem estava vivo até se ria,
e se alguns nas mulheres batiam,
era da Bíblia,
querida.

A roupa enxuga em máquinas, não ao vento.
Pode ser que sobre cartões sequem ainda em pátios
algumas mãozadas de pevides, mas os tremoços
são de estufa, são pequenos, duros e não sabem
à carnação vibrante do sal em camisa de película
desdentável,
querida.

Cavalos, periquitos, pevides e tremoços concorrem
para uma despatriação pungente e pingente
sem gente dentro,
amor.

Pelos chamados corredores do poder, os passos são
mais que nunca perdidos.
Proliferam os enlouquecedores de cavalos, os agiotas
que agem, os idiotas
que ideiam, os versados
que cevam, os cevados
que versam,
querida,
ternura minha.

Só a morte transigirá alguma piedade,
fechadas as bibliotecas escolares,
encerrados os parques de merendas,
queimadas as maternidades,
estiolados os salões de baile,
embolorecidos os conventos,
roídos os tremoços,
plastificados os cabedais,
fritos os jaquins,
descascados os amendoins,
despedida a função pública,
exacerbada a assadura dos cus,
oleada a rótula de platina,
anelados de bodum os prepúcios,
coçada a virilha,
raspada a axila que se diz sovaco,
amor.

Temo tenham enlouquecido de vez os cavalos patriotas,
querida,
cegos que eram para as evidências até meteorológicas
da Pátria.
São mais rigorosas agora as invernias,
amor,
sabe-lo como ninguém tu,
que nunca foste de periquitos
nem de primeiro andar,
mas rés e chã
e portuguesa.



II

O patriotismo é a fórmula que o inconsciente colectivo encontrou para amar a merda.
Posso dizê-lo de outra maneira – e tenho-o feito – mas fica esta: amar a merda.
O inesgotável filão de imbecis desta puta-pátria tem o seu quê de transcendente, de quase divino, por tão humano e imanente e imbecil.
Eu deste país de merda só queria meia dúzia de oliveiras, talvez nem tanto.
Manhãs rentes ao mar, ele há muitas noutros países.
Isto é tudo tão merdoso, que nem me cansa.
Para me cansar, teria de correr – e estes paços não merecem um passo sequer.
Falo a sério, chiça.

Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto,, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, os mais altos camelos da Nação, os do Porto, os do FC do Porto, os que têm cataratas no olho-do-cu, os que têm dois-olhos-do-cu na cara, os que fumam mentol, os que dizem cagalhão com boquinha francesa, os que estão sempre a falar no exílio de Argel, os que expectoram pescada, os das poupanças-reformas, os pais-natais, os meninos-jesuses, os das rifas, os do vê-mazé-se-te-abifas, os do torrão-de-Alicante, os de Nelas, os da tropa, os da Europa, os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda.

Tudo.


3 comments:

Anonymous said...

Oh grande tremendista Abrunheiro!Que grande catilinária, digna de Marco Túlio Cícero! Que grande exprobação! Que grande arcaz de fideputas! Parece a arca de Noé do bestiário pátrio! Que venha um vagalhão e os dane, também aos patrioteiros e aos hinologistas. A todos menos aos de S. Paulo de Frades, ó Abrunheiro!

fj said...

gosto muito de te ler/ver escrever assim, não manso, perante o pátrio afundanço. muito.
abraço

Anonymous said...

Muito, mesm muito bom, este texto. Post no Porco. É já!
Pig