Thursday, October 06, 2005

Ornitologia, Pavilhão 3 - Segunda Versão

Houve um tempo em que vomitava tanto à noite, que as borbulhas das costas me apareciam de manhã nas orelhas.
Eu vivia, então, em plena euforia trágica, a que não era alheia a minha ornitologia. Quero dizer: levantava os olhos para os pássaros levando na mão um cristal vermelho à altura da boca. Era o vinho, meu Deus.
Outros homens faziam-no tanto como eu, escrevendo embora menos poemas. Mas esses tinham família, quiçá amores até. Eu tinha e mantinha os dois metros (maior e menor, 7 e 5) da redondilha clássica, a partir de que emaranhava rimas, primas, limas, climas e cristais encarnados. Anos disto.
Chegou então o dia número 5 de Fevereiro. Eram as onze da noite. Fui pela Nacional 1 até à margem ribeirinha de um largo maciço de arvoredo. Receberam-me bem. Era um homem vestido de branco como o papa, mas pouco propenso a sermões. Fez-me umas perguntas, revistou-me o saco à cata de eventuais binóculos de ornitólogo (mínimo 40º) e, não os encontrando, boavindou-me com um cardápio de regras de conduta, que acatei sem estrilho, que eu sou muito educadinho. Seguiu-se uma quinzena onírica.
Partilhei dormitório, refeitório e cafetaria com um rebanho de ovelhas de roupão iguais a mim. Todas ornitólogas como eu. Com os homens, conversei de trabalhos e dias. Hesíodo vivo. Com as mulheres, de casamentos e revistas. Fui gentil, comigo gentis foram.
Anoitecia de outra maneira, lá no Pavilhão 3 (Ornitalcoologia). Também de outro modo amanhecia. Uma manhã muito cedo, andei às laranjas com um bebepássaros chamado Carlos. As laranjas, frias de alba, eram esferas de ouro gelado. Apanhámos uma sacada delas, de que depois fizemos partilha com o rebanho.
Depois, licenciaram-me. Vi-me, de devolvido saco, ao sol. O autocarro colheu-me como a uma laranja. Segui viagem até lá baixo, lá onde o rio dava sentido à ponte, ao hotel antigo, à estação dos comboios, à avenida das seguradoras, à raposa embalsamada do barbeiro, à casa da mãe do Quim, à casa da minha Mãe.
Disse-me ela:
- Então, filho.
E eu:
- Olá, maior redondilha.



Tondela, tarde de 4 de Outubro de 2005

2 comments:

Anonymous said...
This comment has been removed by a blog administrator.
Sandra Feliciano said...

o orgulho mantém-se desde o post anterior - mas agora adoçado por memórias matinais alaranjadas... ;o)