Thursday, October 06, 2005

As Mãos de Nick Cave ao Piano (work in progress)

Quantos de nós olhamos as próprias mãos, sem ser quando elas se lavam? Acontece-me muito olhar as minhas. Sou-lhes grato: alimentam-me, lavam-me, vestem-me, calçam-me, penteiam-me, folheiam-me os jornais e os livros, afiam-me os lápis, põem música a tocar, como outrora a cassete de Nick Cave. Tecem, soltas como aranhas, a teia mental: a caligrafia. Quão manuais somos? As mãos vêem no escuro. Dão sentido às chaves, aos interruptores, às persianas, aos copos de água das brechas do sono, ao outro amado corpo. Às vezes, na televisão, só filmam as mãos do pianista. O resto do corpo, invisível e cego, tem quatro mãos: na madeira polida como sapatos de casamento, aparecem (reflectidas, reflexivas) as duas outras, as do avesso da música: as que tocam as pausas. Outras vezes, surgem na rua enluvadas de couro negro, tornando parisienses as portuguesas. Outras vezes ainda, aranham-se, arranham-se, emaranham-se: essas são as vezes em que o amor as faz explodir como polvos, acácias ou estrelas. As mãos também gritam e sussurram também: as mãos do agressor, as mãos da mãe. As mãos, como as mães, afligem-se antes de nós. E nós, nós somos apenas o que está depois das mãos. Quantos, vivos, as olhamos vivas?

3 comments:

Sandra Feliciano said...

gostei desse jogo do "aranham-se, arranham-se, emaranham-se".

;o)

I said...

Schumann por Horowitz

São herança camponesa, as mãos.
Estas pequenas mãos, de geração
em geração, vêm de muito longe:
amassaram a cal, abriram sulcos
frementes na terra negra, semearam
e colheram, ordenharam cabras,
pegaram em forquilhas para limpar
currais:de sol a sol nenhum
trabalho lhes foi alheio.
Agora são assim:
frágeis , delicadas,
nascidas para dar corpo a sons
que, noutras épocas, outras mãos
se obstinaram em escrever como
se escrevessem a própria vida.
Ao vê-las, ninguém diria que
a terra corria no seu sangue.
São mãos envelhecidas, mas no teclado
são capazes do inacreditável: juntar
nos mesmos compassos o rumor
dos bosques em setembro e os risos
infantis a caminho do mar.

Eugénio de Andrade

daniel abrunheiro said...

Obrigado, i&c. Belo poema.