Monday, October 10, 2005

Leite

Dormi em casa de minha mãe, de ontem para hoje.
Teve de ser na sala.
O meu irmão solteiro recuperou o quarto de antigamente.
Éramos três a respirar nocturnamente: a Mãe também conta.
A estante da televisão segurava os manuais escolares envelhecidos: latim, língua francesa, conversação alemã, física-química, geografia, economia, civilização.
Dormi aos pés dessa escolaridade anacrónica.
Dormi pouco.
Levantei-me para um copo de água, uma banana, uma inclinada versão de ureia.
Adiantei o volume 263 da colecção Vampiro (O Cigarro Denunciante, de Peter Cheyney).
O sono demorava como o futuro.
De olhos inutilmente cerrados, revi alguns filmes.
Inquietei-me, sosseguei-me, virei-me para o ladoladoladolado, barriga para cima, pensamento à flor da manta, cocei a barriga, entrevi lapsos de um erotismo triste, ruminei partículas biográficas que nenhum editor aceitaria sem ser por dinheiro.
No fim, dormi.
Acordei com uma caneca de leite morno perfumado de maternidade.
Era Ela, pronta para o novo dia.
Percebi.



Tondela, tarde de 10 de Outubro de 2005

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